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Challenger, a tragédia da aventura espacial que comoveu o mundo há 30 anos

Apenas 73 segundos depois de ter descolado em Cabo Canaveral, Florida, o vaivém espacial Challenger explodia sob o olhar incrédulo da multidão que assistia à sua partida no local e dos muitos milhões que acompanhavam pela televisão.

A 28 de janeiro de 1986, as imagens do vaivém espacial a desintegrar-se e a transformar-se numa enorme bola de fogo percorreram o mundo e, 30 anos depois, continuam na memória coletiva de várias gerações.

Nesse dia, os sete tripulantes do vaivém, incluindo a professora natural de Boston Christa McAuliffe – a primeira civil do programa espacial norte-americano -, perderam a vida.

“Vi a explosão do Challenger na abertura de um telejornal belga”, recordou o físico português Manuel Paiva, a residir em Bruxelas há várias décadas, em declarações enviadas à Lusa.

“Uma imagem que me ficou no espírito foi a expressão dos pais de Christa McAuliffe, que assistiam ao lançamento no Centro Espacial Kennedy [em Cabo Canaveral]. Primeiro incrédulos e depois, conscientes do drama, com uma dignidade exemplar. Milhões de pessoas associaram-se à sua dor”, afirmou o professor honorário da Universidade Livre de Bruxelas.

Christa McAuliffe, de 37 anos, tinha sido selecionada entre os mais de 11 mil candidatos que concorreram ao programa “Professores no Espaço” e planeava dar aulas em direto a partir do vaivém, ou seja, “o espaço ia descer à sala de aula”, referiu Manuel Paiva.

O acidente do Challenger revelou-se devastador “não só pela morte de McAuliffe e dos colegas tripulantes”, mas também por causa das estreitas ligações que a tripulação tinha com os vários segmentos da sociedade norte-americana, escreveu o historiador e curador do Air and Space Museum de Washington, Roger Launius, igualmente contactado pela Lusa.

A tripulação do Challenger era composta por duas mulheres e cinco homens, incluindo um afro-americano e um descendente de japoneses. A maioria era casado e tinha filhos.

“Os sete membros da tripulação do Challenger representavam um grupo rico e transversal da diversidade da população americana em termos de raça, sexo, geografia, antecedentes e religião”, referiu o historiador, salientando que o acidente, “o pior na história do programa espacial americano”, tornou-se um dos acontecimentos mais significativos da década de 1980.

O lançamento do Challenger foi visto por cerca de 17% da população dos Estados Unidos.

Para a noite do dia 28 de janeiro estava agendado o discurso presidencial do Estado da União. Pela primeira vez na história americana, o então Presidente Ronald Reagan decidiu adiar a intervenção por uma semana.

O acidente acabaria por ter consequências no projeto dos vaivéns da agência espacial norte-americana (NASA), que apostava na substituição dos lançadores clássicos, incluindo nas missões militares, e que deveria voar com uma frequência de quase um voo por semana, segundo Manuel Paiva, autor de “Portugal e o Espaço”, obra recentemente lançada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

“A realidade foi muito diferente e houve atrasos significativos que levaram a NASA a tentar aumentar a cadência dos voos”, disse o físico, referindo que os vaivéns da agência norte-americana ficaram então parados quase três anos.

Após o acidente do Challenger, várias investigações foram abertas para compreender as causas da tragédia e determinar que mudanças deviam ser feitas no programa para garantir a segurança e a confiabilidade dos vaivéns.

A mais importante seria a comissão de inquérito, de iniciativa presidencial, presidida pelo ex-secretário de Estado William P. Rogers.

“Como demonstrou a comissão de inquérito, o Challenger não devia ter partido nesse dia, pois na noite anterior a temperatura tinha sido particularmente baixa, o que levou à rotura de um elemento dos propulsores auxiliares de combustível sólido”, indicou o professor honorário.

“O prestígio da NASA sofreu um abalo (…) mas poucos norte-americanos deixaram de apoiar a aventura espacial”, sublinhou Manuel Paiva.

Como recorda Roger Launius, a comissão Rogers apresentou, a 06 de junho de 1986, um relatório ao presidente Reagan que incluía nove recomendações para a reestruturação do programa de vaivéns e para um regresso seguro às missões.

“Reagan tomou duas decisões políticas fundamentais que afetou o programa. (…) Primeiro, decidiu que a NASA deixaria de ter o monopólio sobre o lançamento de satélites através dos vaivéns. Ao fazê-lo, o Departamento de Defesa e outras organizações poderiam lançar os seus satélites de aplicações em qualquer foguete à sua escolha”, referiu o historiador norte-americano.

O governante decidiu também retirar a NASA do negócio de lançamentos comerciais, abrindo o mercado aos privados.

A tragédia do Challenger teria assim repercussões na aventura espacial europeia.

“Como a NASA tinha concentrado os seus esforços quase exclusivamente nos vaivéns, perdeu a iniciativa nos lançadores clássicos. Esta situação abriu uma janela de oportunidade para a Europa que construiu a [lançador] Ariane, que continua a ser um sucesso comercial”, realçou Manuel Paiva, que conta no currículo com a participação em dez missões espaciais tanto da NASA como da Agência Espacial Europeia (ESA).

Segundo o professor honorário, outro efeito positivo para a Europa foi a construção (pela ESA) do laboratório Spacelab, onde os astronautas desenvolveram experiências no domínio da física, da tecnologia e das ciências da vida e que iria ter uma continuidade no módulo europeu Columbus da Estação Espacial Internacional.

Em fevereiro de 2003, a NASA teve de enfrentar outra tragédia. Após 16 dias no espaço, o vaivém Columbia desintegrou-se quando regressava à Terra. Os sete tripulantes morreram.

Oito anos depois, em 2011, a era dos vaivéns espaciais (Discovery, Atlantis e Endeavour) chegava ao fim.

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