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Derrocada do “império” Mendes Godinho marca passado recente de Tomar

Tomar assistiu nas últimas décadas à “derrocada” do “império” Mendes Godinho, que chegou a ter 1.200 trabalhadores e cujas fábricas, desde a moagem à cerâmica, rações para animais, extração de óleos ou placas prensadas de madeira, foram, sucessivamente, encerrando.

“Quando o grupo tremeu teve grandes implicações. Foram centenas de pessoas” que perderam o emprego, recorda o historiador tomarense Luís Graça, para quem só as características de um operariado com ligações à pequena agricultura pode explicar que o impacto social não tenha sido mais dramático.

A última das Fábricas Mendes Godinho, a Rações Sol, fechou em março de 2007, depois de Tomar ter assistido ao encerramento (ou venda após falência) sucessivo, a partir da década de 1990, das cerca de duas dezenas de empresas do grupo fundado na primeira década do século XX por Manuel Mendes Godinho.

Para o historiador, doutorado em Cultura Portuguesa pela Universidade Católica, onde foi docente, a “derrocada” deveu-se à “baixa capitalização – não havia dinheiro em quantidade – e à incapacidade de adaptação à mudança” demonstrada pelas várias empresas do grupo.

“Houve um impacto no concelho. Tomar perdeu a força de atratividade que exercia sobre os concelhos próximos, sobretudo da Beira Baixa. Castelo Branco deu um pulo. Este não, e até se pode dizer que para algumas ‘opiniões locais’ esta maneira de ‘Bela Adormecida’ convém”, diz à Lusa o autor de “Tomar, um roteiro sentimental”.

Também para o filósofo tomarense António Duarte, não há dúvida de que a “ruína das indústrias, grande suporte da vida económica do concelho”, marcou o passado recente de Tomar.

Tomar “sofreu essa série de pequenos desastres, que não foram só culpa local”, de falta de “visão estratégica para o embate das novas tecnologias”, mas “também civilizacional”, assinala, sublinhando a importância da existência de uma pequena agricultura de subsistência, que serviu de suporte a muitas das famílias, mas não evitou que, também aqui, se assistisse ao fenómeno da saída da força de trabalho.

“Há muita gente a trabalhar diariamente em Lisboa. A ir de comboio. Aqui (onde se situa o términus do Ramal de Tomar da CP) é a última fronteira de drenagem para Lisboa”, diz à Lusa o autor de “Fronteiras da Lição” e “Voo para o Coração da Tempestade”, salientando, por outro lado, que a “quietude” do concelho foi, ao mesmo tempo, força de atração para pessoas que vêm de grandes cidades como Lisboa ou Coimbra, ou do estrangeiro, fixar residência, sobretudo nas aldeias.

A marca deste “império” persiste nos encontros anuais que reúnem “trabalhadores, acionistas e simpatizantes do ex-grupo empresarial Mendes Godinho”, tendo, em agosto de 2012, sido constituída a Associação Memorial Mendes Godinho para “preservação da memória e espólio” do grupo e apoio social, nomeadamente, a antigos trabalhadores e seus familiares.

Naquela que foi a primeira aquisição de Manuel Mendes Godinho, em 1908, os Lagares d’El Rei (aproveitando as águas do rio Nabão, em pleno centro histórico de Tomar), nasceu um equipamento cultural por iniciativa do município, sinal mais recente de uma aposta na viragem do motor de desenvolvimento do concelho.

“A economia do invisível é a esperança de Tomar”, afirma António Duarte, apontando a “tradição de um nome” que traz consigo o peso da ligação às Ordens dos Templários e de Cristo e que está a servir para “relançar” o concelho.

Primeiro diretor do Convento de Cristo a partir da classificação deste monumento como Património da Humanidade, em 1983, Luís Graça também reconhece que existem tentativas na área do turismo que se podem vir a revelar “pujantes” no futuro, considerando que “há muito por aproveitar” das “circunstâncias paisagísticas, como a albufeira do Castelo do Bode”, e dos monumentos, de que o Convento de Cristo é expressão maior, sem esquecer outros, como a Sinagoga de Tomar.

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