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1986
  • 31 Dec 1986

    Sangue esgotou-se no país

    Por João Pedro Serafim

    A falta de sangue está a preocupar os Hospitais de Santa Maria e São José que, perante uma situação quase dramática decidiram apelar a doadores espontâneos, devidamente preparados e clinicamente capazes se deslocassem aquelas unidades hospitalares.

    O apelo, feito através da rádio e da televisão, alertava para o esgotamento das reservas de sangue nos dois principais hospitais da capital portuguesa.

    No dia anterior, um médico de um hospital de Lisboa dizia: “Fazem-se campanhas de solidariedade para com os presos, para com os políticos e trabalhadores e afinal, morre-se por falta de solidariedade neste país”.

    A situação, no Hospital São José, era considerada com catastrófica: “Doente que apareça neste estabelecimento hospitalar no final da tarde a necessitar de uma transfusão intensa de sangue, terá de aguardar… por melhores horas”.

    Em Santa Maria, a situação também não era muito melhor. Se bem que ao cabo de cinco horas de intensos apelos, feitos sei ou sete dadores responderam, mas “não se podem criar ilusões” com a responsabilidade que este hospital tem em cobrir uma vasta área de sinistros, lembrou fonte hospitalar.

    Mas nem tudo são mas noticias, pois o Governo fixou a partir de 1 de janeiro de 1987 o salário mínimo para a industria e os serviços em 25.200 escudos, (125 euros) um aumento que corresponde a mais 12% que no ano que agora termina.

    Os trabalhadores agrícolas também vão ser aumentados em 14,9% no próximo ano para 22.400 escudos (110 euros).

    Lá por fora, os Estados Unidos, liderados por Ronald Reagan, e a URSS de Mikhail Gorbachev lançaram pontes para o diálogo durante 1986 e preparam-se para prosseguir em 1987 uma política de desanuviamento entre as duas superpotências.

    Moscovo anunciou que a nova legislação de entradas e saídas da União Soviética entrará em vigor a partir de 1 de janeiro do ano que vem.

    Nas estradas de Portugal, os acidentes continuam a preocupar as autoridades. Mil e doze acidentes registaram-se numa semana, apesar da vigilância e apoio dados pela Brigada de Trânsito aos automobilistas que circulam pelas rodovias, num período que queremos que fosse festivo em todos os lares.

    Dos 1.012 acidentes, resultaram 45 mortos e 704 feridos, dos quais 227 em estado grave.

    A operação “Rota Segura 86”, montada pela GNR, prolonga-se até dia 5 de janeiro, com a polícia a tentar impedir o aumento da sinistralidade nas estradas.

    Milhares de brasileiros e turistas estrangeiros preparam-se para comemorar na cidade do Rio de Janeiro a chegada do Ano Novo com uma homenagem à deusa do 'voodoo', Iemanjá.

    O culto de Iemanjá a Deusa do Mar, chegou ao Brasil no século XVI através dos escravos africanos.

    Milhares de pessoas vestidas de branco, simbolizando a pureza, deslocam-se hoje à meia-noite à beira do mar para fazerem as suas oferendas a Iemanjá e pedirem em troca paz, amor e saúde em 1987.

  • 30 Dec 1986

    Conferência Episcopal Portuguesa sai em defesa da Rádio Renascença

    Por João Pedro Serafim

    O conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa denunciou a “grave injustiça cometida” reportando-se à recente Lei do Licenciamento de Estações Emissoras de Radiodifusão aprovada pelo parlamento nas vésperas do Natal.

    Referindo-se à Rádio Renascença (RR), este órgão da Igreja Católica Portuguesa alerta “os católicos para a gravidade da questão e suas eventuais consequências” e manifesta o “total apoio” à Renascença na “defesa dos seus legítimos direitos”.

    No caso de o presidente da República, Mário Soares, promulgar o diploma aprovado na Assembleia da República, com os votos a favor do PS, PRD, MDP e PCP e contra do PSD e CDS, a instituição eclesiástica irá, depreende-se, usar toda a sua força e vasto campo de mobilização popular em defesa das suas “ondas” radiofónicas.

    A lei do licenciamento de estações emissoras de radiodifusão é para a Conferência Episcopal Portuguesa “um diploma legislativo vincadamente estatizante e totalitário”, apesar de a RDP também ter saído lesada com a aprovação pelo Parlamento da nova legislação.

    A lei da Rádio aprovada por comunistas, socialistas e renovadores mereceu o desacordo do Governo e o repúdio da administração da Rádio Renascença, cabendo agora ao presidente da República, Mário Soares, promulgar o diploma, remetê-lo para o Tribunal Constitucional, ou vetá-lo.

    A criação de um conselho radiofónico, a ser integrado por pessoas indicadas pelos partidos, que terá competência para conceder ou não licenciamentos às novas rádios é o ponto da discórdia.

    Por cá, foi apreendida a maior quantidade de droga de sempre nas alfândegas das fronteiras terrestres portuguesas nos onze primeiros meses do ano, no valor de cerca de 3,5 milhões de contos.

    As alfândegas apreenderam, neste período, 110 “correios” portugueses e estrangeiros, com um total de 1646 quilogramas de diversos tipos de droga, das quais 28 quilogramas de “cannabis”, 121 de cocaína, e seis quilogramas de heroína.

    Portugal nos últimos anos tem sido uma porta aberta para a entrada e passagem de droga para a Europa, provenientes das Américas, continente asiático e da África.

    O realizador de cinema soviético Andrei Tarkovski, criador em 1966 do filme “Andrei Roblev”, inspirado num monge pintor de ícones na Rússia do século XV, e este ano premiado em Cannes com a pelicula “Sacrifício”, morreu na véspera na clínica Hartmann, nos subúrbios de Paris.

    Nascido a 4 de abril de 1932, em Zavrajie, junto ao rio Volga, o dissidente russo era filho do poeta Arseni Tarkovski.

  • 29 Dec 1986

    Sousa Franco diz que uma democracia “sem controlo financeiro” não é uma democracia.

    Por João Pedro Serafim

    Em entrevista ao suplemento de Economia do Diário de Notícias, Sousa Franco disse que o Estado – autarquias locais, empresas públicas e institutos públicos - “apresenta pouco e tarde” as suas contas, mas “ninguém se responsabiliza por isso”, salientou.

    Sousa franco considerou que a situação em matéria de apresentação de contas pelo Estado “é “bastante deficiente”.

    No projeto que elaborou e já entregou ao Governo, propõe, por isso, a reforma do Tribunal de Contas, no sentido de o transformar num “órgão eficaz” de controlo da democracia financeira do Estado português.

    Mas nem tudo são menos boas notícias. Portugal ocupa o segundo lugar entre cinquenta países em desenvolvimento com menor risco para os investidores estrangeiros, logo a seguir ao Brasil que ocupa a primeira posição, conclui um estudo divulgado no último número da revista Britânica “The Economist”.

    A lista dos países em desenvolvimento com maior risco para os investidores estrangeiros é liderada pelo Iraque, Etiópia e pelo Irão.

    A revista exclui do estudo os Estados Unidos e a União Soviética, os países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), os mais pequenos, os arruinados e os obscuros.

    Lá fora, o presidente egípcio, Hosni Mobarak chegou a Amã, na Jordânia, numa visita surpresa, para conversações com o Rei Hussein da Jordânia, que irão centrar-se na guerra do Golfo, entre o Iraque e o Irão, e na próxima conferência islâmica que se realizará no Kuwait, no final de janeiro.

    O Egito vai participar pela primeira vez desde na cimeira desde a sua expulsão, em 1978, da Liga árabe, sendo que Mubarak regressa hoje ao Cairo.

    O compositor sueco Erik-Erik Larsson morreu no sábado, com 78 anos na sua residência de Helsingborg, uma localidade situada a sul na Suécia.

    Nascido em 1908, a obra de Erik-Erik Larsson compreende sinfonias, música de câmara, missas, músicas de filmes, coros e cantos.

    A “Marcha Forçada”, escrita durante a II Grande Guerra Mundial, tornou-se a música do “Cântico da Resistência” norueguesa durante este conflito mundial.

  • 28 Dec 1986

    Soares diz que eleições antecipadas devem ser evitadas

    Por João Pedro Serafim

    A agitação entre os partidos políticos está na ordem do dia, mas o presidente da República, Mário Soares, procurou por água na fervura ao dizer que as eleições legislativas antecipadas são um custo e que devem ser evitadas.

    “Fala-se muito em eleições, mas eu defendo que elas devem ser tanto quanto possível evitadas. É um custo muito grande para o país, que deve ser evitado”, disse Soares entrevistado pelo programa “A Revista do Ano”, da Antena Um.

    O chefe do Estado, que seguiu para a Madeira onde passará o fim do ano, considerou ainda ser preciso uma maioria e que esta “tem de ser bem negociada”, o que implica “muita ponderação” por parte dos partidos.

    A visita de Mário Soares à Madeira é o resultado de uma promessa feita caso fosse eleito presidente da República. Na companhia da sua mulher Maria Barroso e de elementos da sua casa civil e da sua comissão eleitoral para a Presidência, Soares foi recebido no aeroporto do Funchal pelo Presidente do Governo Regional, Alberto João Jardim.

    Em 1985, caso Mário Soares vencesse as eleições presidenciais, tinha-se comprometido a passar o final do primeiro ano de mandato na Madeira.

    No dia 1 de janeiro, em direto, via satélite, e dos estúdios da RTP no Funchal, Mário Soares fará uma mensagem de Ano Novo para todo o país.

    O chefe de Estado falando na entrevista que deu à Antena 1 considerou que a regionalização “é um problema complexo”, pois tem a ver com tem a ver com a defesa do Estado.

    “Somos um Estado/Nação, temos uma grande força que é a unidade nacional, e a regionalização deve ser para aprofundar essa unidade nacional”, advertiu, afirmando-se partidário das autonomias da Madeira e dos Açores.

    Por sua vez, também em entrevista à Antena 1, no programa “Nem Mais Nem Menos”, o ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, Afonso Van Dunem, garantiu que o Governo tem vindo a fazer esforços para que o problema da segurança física dos cooperantes possa ser resolvido.

    Van Dunem disse que o problema de segurança se passa na fronteira com a Namíbia e acusou a África do Sul como sendo o “elemento desestabilizador”.

    Atualmente estão em Angola tropas cubanas e o Governo mantém um confronto armado com as forças da UNITA, qualificadas pelo ministro de “bandos armados”, que interessam à política de desestabilização no país apoiada pela África do Sul.

    Por cá, a Guarda Nacional Republicana (GNR), que montou a operação “Rota Segura” contabilizou 607 acidentes, desde as 12:00 horas de terça-feira passada até à véspera de hoje, de que resultaram 23 mortos e 403 feridos, dos quais 129 foram internados em estado grave, sendo que os acidentes rodoviários continuam a ser uma tragédia no país.

  • 27 Dec 1986

    Alfândegas rendem muitos milhões ao Estado

    Por João Pedro Serafim

    As receitas alfandegárias arrecadadas pelo Estado português atingiram os 157 milhões de contos (cerca de 750 milhões de euros) nos primeiros nove meses deste ano, cerca de 15% das receitas totais cobradas pela Fazenda portuguesa.

    Dados da Direção-Geral das Alfândegas trabalhado pela técnica Deolinda Martins, relativos a este período, indicam que a parte de leão é cobrada por Lisboa e que o IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) ocupa a grande fatia da receita total representando 64,9% da média mensal nos primeiros nove meses do ano, motivo pelo qual o valor global arrecadado reflete o comportamento deste imposto.

    A quase totalidade (99%) dos 157 milhões de contos arrecadados entre janeiro e setembro deste ano pelas alfândegas foi obtida no continente português.

    O estudo clarifica que Lisboa cobrou 63% da receita total, o Porto 36%, o Funchal 0,6% e Ponta Delgada 0,4%.

    A percentagem menos elevada da cobrança nas alfândegas do Funchal, na madeira, e de Ponta Delgado, nos Açores, é justificada pelo facto de a importação de matérias-primas e produtos industriais se processar em maior quantidade pela Alfândega de Lisboa.

    A Alfândega do Porto distingue-se pelo facto de ter valores mais elevados de cobrança nas exportações.

    Ainda por cá, mas envolta em controvérsia, Lisboa foi utilizada por funcionários da Casa Branca e pela CIA, os serviços secretos norte-americanos, como placa giratória no tráfego clandestino de armamento norte-americano para o Irão e para os “contra” na Nicarágua.

    Pelo menos desde finais de 1984 ou princípios de 1985 o aeroporto de Lisboa serviu para a operação clandestina organizada pelos Estados Unidos.

    Até agora, os primeiros carregamentos de armas clandestinas para obterem a libertação de reféns norte-americanos sequestrados por organizações pró-iranianas, de acordo com fontes citadas pelo semanário “Expresso”, datam de agosto de 1985.

    Mas, desde o princípio de 1985, o aeroporto de Lisboa terá sido utilizado como placa giratória do tráfego de armas entre os Estados Unidos, Israel, Irão e os “contras” da Nicarágua.

    Um avião transportando clandestinamente armas esteve em princípios de 1985 no aeroporto de Lisboa.

    No entanto, Alfredo Barroso, chefe da casa civil do Presidente da República, Mário Soares, disse perentoriamente que “o então primeiro-ministro [Soares] não autorizou nem teve conhecimento desse trânsito”.

    Os lisboetas suspiraram de alívio ao saberem hoje que os cantoneiros da Câmara Municipal de Lisboa suspenderam a greve total que se propunham prosseguir, bem como a recusa ao trabalho extraordinário entre 29 e 31 de dezembro.

    O plenário de trabalhadores da recolha do lixo, que se realizou na véspera em Alcântara, Lisboa, acolheu a proposta da Câmara de Lisboa e considerou-a como “uma vitória”, tendo aceitado a atualização do subsídio compensatório da diminuição do trabalho noturno proposta pela autarquia no valor de 232 escudos (FAZER CONVERSAO).

    Os cantoneiros reivindicavam um subsídio global na casa dos 25% do salário.

    A agitação na área da informação económica está ao rubro com novidades para o início do próximo ano.

    O “Jornal do Comércio” vai voltar às bancas a 6 de janeiro, mas como semanário de informação económica, sendo dirigido por António Rebelo de Sousa e José Simões Ilharco e o jornalista e economista Jaime Antunes prepara o lançamento de um concorrente o “Semanário Económico”.

  • 26 Dec 1986

    Mais acidentes e mais mortos no Natal

    Por João Pedro Serafim

    Os acidentes de trânsito no período do Natal foram, em média, de sete em cada hora, mais do que nos dois anos anteriores e o número de vítimas também subiu para as 6,5 pessoas, em média, por dia.

    Todos os anos no período da quadra natalícia as estradas enchem-se de automóveis apressados e, desde o início da operação levada acabo pelas brigadas de Trânsito da Guarda Nacional Republicana (GNR) até ao final da tarde da véspera, o número de acidentes atingiu os 171, de média diária, contra 113 em 1984 e 116 em 1985.

    Nestes acidentes resultaram médias de morte diárias em 1984 e 1985 de 4,5 e 5,4 pessoas, respetivamente, números que já foram ultrapassados em 1986 para os 6,5 mortos.

    A média diária de feridos, neste período, atingia 108 casos por dia em 1985 e 91 em 1984, mas este ano regista-se uma média diária de 116, apesar de se detetar uma redução no número de condutores com excesso de álcool no sangue.

    Entretanto, o lixo acumulado em Lisboa poderá começar a ser removido amanhã se o plenário dos cantoneiros de limpeza der o seu aval, neste sentido, ao Sindicato dos Trabalhadores da Câmara de Lisboa.

    A greve de 48 horas que se inicia hoje e as festividades do Natal levaram a que o lixo na capital portuguesa se acumulasse nas ruas, mas a proposta do presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, foi considerada positiva pelos dirigentes sindicais.

    No dia 9 e 10 de dezembro os cantoneiros estiveram em greve e nos dias posteriores não fizeram horas extraordinárias, pelo que a situação de recolha de lixo na capital não foi normalizada, agravando-se com o Natal.

    Atualmente, os habitantes da cidade de Lisboa produzem cerca de 800 toneladas de lixo por dia.

    Lá por fora, um “Boing 737”, que fazia a ligação entre Bagdade, no Iraque, e Amã, na Jordânia, numa aterragem de emergência embateu no solo a 80 metros da pista do aeroporto de Arar, na Arábia Saudita, tendo-se incendiado e provocado a morte a 62 pessoas.

    Porém, notícias provenientes da Jordânia avançaram que o aparelho tinha sido tomado por vários assaltantes no aeroporto de Bagdade e uma fonte da aviação civil jordana, que pediu o anonimato, disse que os assaltantes fizeram explodir o avião pouco antes da aterragem.

    O antigo ministro do Interior jordano, Suleiman Aarar, que ficou ferido no acidente aéreo, bem como o seu irmão, esclareceu que ouviu explosões de granadas de mão no “cockpit” e na classe económica antes de o avião cair.

    O Iraque já responsabilizou o Irão pela morte de passageiros inocentes.

    A Gulbenkian inaugura a 3 de janeiro o seu Encontro com Lorca, ao estrear a peça “Amor de D. Perlimplim com Belisa em seu Jardim”, encenada por Nuno Carrinhas e que será apresentada até ao dia 31 deste mês.

    No dia 8 de janeiro, na sala polivalente do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, é a vez do espetáculo “Uma Hora com Garcia Lorca” sob a direção de Constança Capdeville e nos dias 10 e 17 de janeiro haverá um terceiro espetáculo com o título “Fe…de…ri…co” com o Grupo Colecviva e a participação da atriz Eunice Munoz e a participação de Olga Pratz ao piano, entre outros.

    No dia 10, no mesmo espaço, decorre a conferência sobre “Mito e Realidade no Teatro de Garcia Lorca” proferida pelo professor catedrático da Real Escola Superior de Arte Dramática de Madrid, Ricardo Domenech, enquanto a 22 de janeiro é há uma mesa-redonda sobre o “Teatro de Lorca”, com a participação de Luís Francisco Rebelo, Ricardo Pais e Mário Feliciano.

  • 25 Dec 1986

    Papa João Paulo II reza na Missa do Galo pela paz

    Por João Pedro Serafim

    O papa João Paulo II rezou à noite na Missa do Galo, em Roma, para que “seja confirmada a confiança na paz”, como meio para resolver os problemas existentes.

    O chefe da Igreja Católica celebrou a missa na Basílica de São Paulo, em Roma, tendo sido transmitida pela televisão para 42 países de cinco continentes e pela primeira vez para a Polónia.

    Na homilia da celebração, João Paulo II, de origem polaca, estendeu a sua oração às nações onde existem conflitos, violência e injustiças que “comprometem a paz” e pediu também pelos “marginais da sociedade”, como os pobres, presos, refugiados e os desempregados.

    Em Portugal, na tradicional mensagem de Natal, o cardeal-patriarca, D. António Ribeiro, referiu-se à crise da família, de que são “vítimas inocentes as crianças e os adolescentes”.

    Na ocasião, o patriarca que subordinou a sua mensagem ao tema “O rosto de Deus na face de uma criança” condenou o aborto e a manipulação genética.

    O tema da mensagem de D. António Ribeiro centrou-se na criança e nos seus direitos, tendo dito que foi a Igreja a primeira a defendê-los e a promovê-los.

    Os distúrbios em Goa impossibilitaram a celebração do Natal no ambiente tradicional de festa e alegria. Todas as missas da meia-noite (Missa do Galo) foram canceladas.

    A violência irrompeu na semana passada quando goeses apoiantes da língua local, o concanim, resolveram intensificar os seus esforços a favor do seu reconhecimento oficial e da concessão do estatuto de Estado a Goa.

  • 24 Dec 1986

    Portugueses raptados pela Renamo chegaram a Lisboa

    Por João Pedro SerafimFoto ALFREDO CUNHAFoto ALFREDO CUNHA

    Um grupo de 36 ex-reféns portugueses sequestrados pela Renamo - Resistência Nacional Moçambicana chegou hoje a Lisboa, na véspera do Natal, num voo da companhia aérea TAP, vindos da capital da capital moçambicana, Maputo.

    Seis casais, cinco são mistos de portugueses e moçambicanos, 17 crianças, seis adultos solteiros e uma viúva, que perdeu o marido no cativeiro, vieram sem nada, deixando para trás meses de cativeiro e vidas de trabalho em terras de África.

    As cinco moçambicanas que viviam com ex-reféns portugueses e que foram libertados em Milange, também seguiram com os seus companheiros no voo para Lisboa.

    Todo o grupo de portugueses ou mulheres de nacionalidade moçambicana casadas com os ex-reféns raptados pela Renamo e que se encontravam hospedados no Hotel Rovuma, no Maputo, regressaram a Portugal.

    A violência em Goa agravou-se e já há a lamentar mais dois mortos, o que eleva para oito o total de mortes nos confrontos entre goeses e imigrantes do Estado vizinho de Maharashtra.

    As autoridades locais solicitaram ao Governo de Nova Deli, o envio de reforços militares para acabar com os tumultos.

    Entretanto, empresários e comerciantes das cidades de Vasco da Gama e Margão, onde os confrontos têm sido mais violentos, vão fazer uma greve de dois dias, a partir de hoje, de protesto contra a violência.

    Radicais nacionalistas de Goa, antiga colónia portuguesa, que atualmente possui o estatuto de Estado Federado Autónomo da Índia exigem que o concanim seja língua oficial.

    Caro leitor amanhã é Natal, hoje é o dia da Consoada e como tal não haverá espetáculos esta noite. A última das sessões do dia terá início às 19 horas ou cerca desta hora. Isto é valido para as salas de cinema, teatro e locais de música ao vivo.

  • 23 Dec 1986

    Vendas inferiores às de 1985

    Por João Pedro Serafim

    Com o Natal à porta, as vendas deste ano estão a ser inferiores às de 1985, salvando-se o “pechisbeque”, que aparece como a alternativa à falta de poder de compra dos portugueses, apesar de a inflação ter descido.

    Os comerciantes parecem estar todos de acordo numa coisa, este ano no Natal os portugueses, apesar do movimento tão intenso nas ruas como nos outros anos, estão a “cortar no vestir e a poupar no calcar”.

    Quanto aos brinquedos também não há grande alteração em relação ao ano passado: “As coisas custarão um bocadinho mais, mas o nosso produto não deixa de ter procura”, diz um comerciante da Baixa lisboeta, enquanto um empregado de uma conhecida editora, João Ascênsio refere, “o livro está a vender-se menos, o disco um pouco mais”.

    Mais satisfeitos estão 24 reclusos que cumprem penas de cerca de 10 anos. O presidente da República, Mário Soares, concedeu-lhes indultos, na véspera, mas o preso português mais idoso não foi incluído.

    O chefe de Estado, Mário Soares, que esteve reunido com o primeiro-ministro, Anibal Cavaco Silva e o ministro da Justiça, Mário Raposo, analisaram 284 pedidos de indulto, mas só se pronunciou sobre 24, porque os crimes cometidos e apresentados para indulto “eram extremamente graves”, esclareceu uma fonte ao Diário de Notícias.

    Outra boa notícia veio do Banco de Portugal ao anunciar que as taxas de juro dos depósitos à ordem, atualmente em 4% ao ano, vão ser liberalizadas a partir do próximo ano.

    Envolta em polémica, com a administração da Rádio Renascença – Emissora Católica Portuguesa a manifestar “surpresa e apreensão, foi aprovada pelo Parlamento, na véspera, a nova lei de frequências da rádio, com os votos a favor do PS, PRD, do PCP, MDP, e dos Verdes e com os votos contra por parte do PSD e do CDS.

    A nova lei retira duas frequências de âmbito nacional à Rádio Renascença (RR) e à RDP e dá a um futuro Conselho da Rádio poderes decisivos no licenciamento de novas emissões.

    A administração da Renascença considerou que a nova lei põe em causa anteriores compromissos do Estado português.

    “Querem calar a voz da Emissora Católica Portuguesa”, disse a administração, declarando também “recear um regresso aos tempos de 1974-75, sob inspiração e a reboque do Partido Comunista Português”.

    A vida da ginasta romena Nadia Comaneci foi apresentada hoje na RTP1. O telefilme conta-nos a história de uma jovem de seis a dar cambalhotas no pátio de uma escola, que acaba por se tornar numa campeã olímpica.

    Aos 14 anos Comaneci é a primeira atleta no mundo a obter a pontuação máxima (10 pontos) na história dos Jogos Olímpicos e a ganhar três medalhas de ouro.

  • 22 Dec 1986

    Anarquia nas cargas e descargas em Lisboa com final à vista

    Por João Pedro SerafimFoto LUÍS VASCONCELOSFoto LUÍS VASCONCELOS

    O novo regulamento de cargas e descargas em Lisboa estará pronto no princípio do ano, com o objetivo de acabar com a anarquia no estacionamento e os congestionamentos no trânsito lisboeta.

    Quem o diz é o vereador do Trânsito para a Câmara de Lisboa, Magalhães Pacheco. Explica que o novo edital de cargas e descargas será posto à consideração de todas as partes interessadas, mas que a autarquia só o aprovará se “houver garantias” de uma fiscalização eficaz do trânsito.

    A capital portuguesa está saturada com problemas de circulação do trânsito e nem a ajuda do sistema de regulação de trânsito GERTRUDE, que cresceu da Baixa até ao Saldanha, conseguiu acabar com a anarquia no trânsito.

    Ao deixar Portugal na véspera e após uma visita oficial de quatro dias, o ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, Afonso Van Dunem, fez um balanço positivo da sua deslocação ao país, tendo dito que foi decidido reunir em Luanda, no final de janeiro do próximo ano, a 3.ª Comissão Mista Luso-angolana.

    A reunião na capital angolana deverá permitir a discussão em profundidade todos os pontos acordados durante as conversações agora concluídas.

    Em Goa, antigo território português na Índia, a violência que dura há quatro dias na zona de Pangim (capital) já fez três mortos, um número indeterminado de feridos, além de ter danificado estabelecimentos comerciais e veículos.

    Grupos rivais reivindicam o reconhecimento como língua oficial do território do concanim, falado por muitos goeses católicos e hindus, ou do marata, língua do Estado vizinho de Maharashtra que é falada por muitos imigrantes e nos ofícios religiosos hindus.

    Os defensores do concanim lançaram na semana passada uma campanha para boicotar as celebrações oficiais do 25.º aniversário do território exigindo que Goa seja declarada Estado Federal e o concanim a língua oficial.

    Numa demonstração de força, o Exército indiano está em estado de alerta na parte sul de Goa e diversas unidades militares foram enviadas para Margão, uma das zonas onde se registaram as manifestações e os confrontos mais violentos.

    Entretanto, com vista a aumentar as exportações portuguesas e a dinamizar a economia nacional, o Governo vai desvalorizar o escudo em 6% no próximo ano.

    A política cambial portuguesa manterá, contudo, em 1987, o regime de desvalorização deslizante de 0,5% ao mês, com flexibilidade dentro de cada trimestre, assegurou o ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, que disse ainda que no próximo ano começará a funcionar um mercado de câmbio a prazo, o qual permitirá uma nova forma de cobertura do risco cambial para as empresas nacionais.

    Enquanto se soube desta novidade, o primeiro-ministro, Cavaco Silva, disse na véspera, em Aveiro, que seria irresponsável avançar-se com um processo de regionalização sem o apoio dos partidos.

    Lá por fora, o dissidente soviético e Prémio Nobel da Paz, Andrei Sakharov, pediu em conversa telefónica com o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Mikhail Gorbachev, uma amnistia geral para os presos políticos.

  • 21 Dec 1986

    Cavaco Silva diz que poder de compra dos portugueses subiu 5%

    Por João Pedro Serafim

    O primeiro-ministro português na visita ao concelho de Vila Nova de Gaia considerou que as perspetivas atuais “são mais promissoras do que há dois ou três anos” e que o poder de compra dos portugueses aumentou 5% este ano.

    Cavaco Silva referiu ainda, na véspera, que os reformados e pensionistas beneficiam este ano de um aumento superior, na casa dos 10%, prometeu apoiar os grandes projetos neste município de Gaia e disse que sem ele “voltará a crise”.

    Se por um lado, o poder de compra dos portugueses está a aumentar, por outro, a pressão sobre o travão ao contrabando e à economia paralela está a dar os seus frutos.

    Nos primeiros 15 dias de dezembro, efetivos da Guarda Fiscal apreenderam mercadorias de contrabando avaliadas em mais de 46.000 contos, entres as quais surgem à cabeça os artigos de vestuário no valor de 12.000 contos e que foram apreendidas, com especial incidência, na área de Lisboa.

    As viaturas, no valor de quase 8.000 contos, (39.900 euros) e os equipamentos de som e imagem no montante de quase 7.000 contos (34.915 euros) foram outros dos bens apreendidos pela Guarda Fiscal principalmente na área de Lisboa e no norte do país.

    No Alentejo e nas zonas raianas do Minho e de Trás-os-Montes foram apreendidos sobretudo géneros alimentícios.

    Neste domingo, com o Natal à porta, ainda não se desvaneceram os ecos da grande festa de solidariedade, o Natal dos Hospitais, que se realizou há dois dias a partir do Hospital Militar do Complexo da Força Aérea instalada no Lumiar e que foi transmitida pela RTP.

    A tradição remonta a 1944 e esta “maratona do espetáculo” foi mantida pelo Diário de Notícias.

    O circo não faltou e numerosos artistas associaram-se ao evento, tais como, o Coro de Santo Amaro de Oeiras, Cândida Branca Flor, Marina Mota, Ana Faria com os “Queijinhos frescos”, Xico Dias e João Canto e Castro, um quadro da revista “Isto é Maria Vitória” e Delfina Cruz e os bailarinos do teatro Maria Vitória.

    Embora a quadra natalícia esteja aí e com ela a árvore de Natal e o presépio, a Associação de Defesa dos Animais e da Natureza pediu para que sejam tomadas “medidas imediatas” que impeçam o ”corte criminoso” de pinheiros de Natal.

    Em carta enviada ao Governo, esta associação lamenta que a Câmara de Lisboa lamenta que a autarquia não tenha providenciado para que os pinheiros “não fossem cortados por particulares”.

    No ano passado houve este cuidado, advertiram, mas a Câmara de Lisboa, explicou que este ano não estava preparada o fazer.

  • 20 Dec 1986

    Bolsa sobe mais de 200% em 1986

    Por João Pedro Serafim

    Os investidores estão mais otimistas em relação às bolsas de valores portuguesas, já que o valor das transações até 15 de dezembro de 1986, mais do que triplicou para 40,78 milhões de contos (203 milhões de euros), face a todo o ano de 2015.

    Em 1984, o valor das transações de títulos nas bolsas de valores nacionais foi de 3,37 milhões de contos (16 milhões de contos), enquanto em 1985 foi de 12,5 milhões de contos (62 milhões de euros), disse o dirigente do Banco Português de Investimento (BPI), Rui Lelis, no Porto, num seminário organizado pela Associação Industrial Portuense sobre o mercado de capitais.

    Só em ações, o valor transacionado até 15 de dezembro foi da ordem dos 9,82 milhões de contos (48,9 milhões de euros), enquanto em obrigações foi de cerca de 30,6 milhões de contos (152 milhões de euros), salientou o gestor.

    O presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, prossegue com a política de dar casa a quem dela precisa.

    Neste sentido, a cooperativa de Habitação e Construção Bela Flor deu hoje um exemplo de solidariedade ao entregar as chaves de mais 65 casas, num ato que mostra que o associativismo pode ajudar a resolver o problema da habitação para famílias que viviam em casas degradadas ou em barracas. Krus Abecassis esteve presente na cerimónia em que compareceu numerosa população.

    Com a entrega destas 65 habitações, o número de fogos entregues desde os últimos quatro anos totaliza 239, resolvendo-se o problema de habitação das pessoas da zona.

    As habitações ficam na Quinta da Bela Flor, em Campolide, e a cooperativa foi fundada em 1976.

    Lá fora, sob pressão dos Estados Unidos, segundo o Expresso, o Governo do Malawi entregou os reféns libertados pela Renano às autoridades moçambicanas.

    O grupo de 57 adultos e crianças, entre os quais 34 portugueses, partiu num avião do aeroporto de Blantyre, no Malawi, para Maputo, em que viajava o ministro da Defesa moçambicano, Alberto Chipande.

    As diligências da diplomacia de Lisboa para que os cidadãos portugueses fossem repatriados para a Europa “terão sido ignoradas” pelo Malawi.

    O Expesso escreve que as autoridades portuguesas fizeram deslocar um diplomata de Harare, capital do Zimbabwe, para o Malawi, para prestar assistência aos cidadãos que quisessem regressar a Portugal.

    No entanto, as autoridades nacionais limitaram-se a protestar contra “o procedimento” do governo do Malawi, que aparentemente “cedeu às exigências de Maputo” para que os reféns voltassem a Moçambique, já que estes estavam sob a proteção da Cruz Vermelha Internacional.

    As autoridades de Moçambique acabaram por entregar 34 portugueses à embaixada de Portugal, mas já em Maputo, que deverão chegar a Lisboa na véspera do Natal.

    O Governo português classificou de “incidente lamentável e problema extremamente grave” a entrega pelo Malawi a Moçambique dos reféns portugueses libertados pela Renamo.

    Por cá, o pianista Sequeira Costa e o musicólogo Mário Vieira de Carvalho foram homenageados num Porto de Honra na embaixada da Hungria por ocasião do 175.º aniversário do nascimento do húngaro Ferenc Liszt.

    A homenagem aos dois portugueses resultou da contribuição de ambos para a divulgação da cultura musical daquele país e das obras de Liszt, tendo sido entregues, na véspera, duas placas de bronze que assinalam o 175.º aniversário do famoso compositor húngaro.

  • 19 Dec 1986

    Faltam lares para idosos e os que há estão cheios

    Por João Pedro Serafim

    O Correio da Manhã noticia que faltam lares em Portugal para acolher os idosos especialmente nos centros urbanos e os que há estão a abarrotar, sendo que na capital, Lisboa, 10% da população, cerca de 200.000 habitantes, tem mais de 65 anos.

    Os lares do Estado e os não-lucrativos oferecem 1500 camas em Lisboa, quando seriam necessárias 4.000 camas no distrito, revela o jornal, que diz que quem não tem acesso aos lares do Estado ou de Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) ou recorre aos lares lucrativos ou fica como estava.

    A nível nacional, a capacidade global de camas é na ordem das 22.000, destas 14.000 pertencem a IPSS, 5.000 a lares lucrativos e apenas cerca de 2.500 a lares do Estado, segundo dados oficiais.

    Em Portugal, os idosos que necessitam de lares com acompanhamento médico para serem internados estimam-se na casa dos 40.000, pelo que as camas só respondem a metade das necessidades e como a taxa de envelhecimento é de cerca de 10%, não é difícil adivinhar que vai ser um grave problema no futuro.

    A Associação dos Fabricantes da Indústria Automóvel anda preocupada com o risco que Portugal corre de se tornar “no parque de sucata [automóvel] da Europa”, dentro de dois anos, com venda de automóveis em segunda.

    “Como não temos sistemas de inspeção aos carros”, alerta Rui Moreira, dirigente da associação, “a CEE pode perfeitamente inundar-nos”.

    A verificar-se a invasão de usados, que inquieta os responsáveis pelo setor, uma das vantagens que este vê é a de, pela via da concorrência, os comerciantes de usados portugueses baixarem os preços.

    Na Europa de além-Pirenéus, um CX ou um Mercedes arranjam-se pelo preço de um Fiat 12 por cá, assinalou.

    Os jornais noticiam que o antigo ministro das Finanças português, José Silva Lopes, propôs em Bruxelas, em nome de Portugal, um programa de cooperação entre a Comunidade Europeia e Portugal, com vista à adesão ao Sistema Monetário Europeu (SME).

    A notícia foi dada por Silva Lopes no final da primeira reunião do comité para a União Monetária da Europa, criado por Valery Giscard d’Estaing e Helmut Schmidt, fundadores há sete anos do SME.

    “A Europa estaria enfraquecida se Estados-membros como Portugal, Espanha e Grécia permanecessem fora do sistema”, sublinhou o economista.

    Adrei Sakharov, o cientista e dissidente soviético, e a sua mulher Elena Bonnar foram autorizados pelas autoridades a regressar de Gorki para Moscovo, onde vão poder fixar residência livremente.

    Para o Ocidente foi uma surpresa a libertação do pai da bomba de hidrogénio soviética, mas por esta altura, o líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, tenciona remodelar o aparelho partidário no âmbito da “perestroika” (reestruturação) e da “glasnost” (transparência).

    A decisão, anunciada pelo vice-primeiro-ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, Vladimir Petrovsky, “foi tomada para satisfazer” o pedido apresentado por Sakharov para regressar a Moscovo e retomar a vida académica, afirmou na altura o governante soviético.

    Sakharov tinha sido condenado pelas autoridades soviéticas ao exílio interno na cidade de Gorki, em 1980.

    De fora veio também a notícia da morte, em Londres, do ator norte-americano de televisão Douglas Lambert, que participou em séries de televisão como “Bonanza” e “Dr. Kildard”.

    Lambert, que estudou ao lado de Marlon Brando e Marilyn Monroe, disse numa recente entrevista a um jornal que tinha tido há muito tempo um caso com o ator Rock Hudson, que morreu no ano passado vítima da síndroma de imunodeficiência adquirida (SIDA). O médico de Lambert, Charles Farthing, disse que o seu paciente estava doente desde há cerca de um ano.

  • 18 Dec 1986

    Governo destina 90 milhões para formação de jovens

    Por João Pedro SerafimFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    O Governo vai disponibilizar 90 milhões de contos (cerca de 450 milhões de euros) no próximo ano em ações de formação profissional e em ocupações de utilidade coletiva, as quais vão envolver cerca de 240 mil jovens.

    Criticando as forças que defendem a atual legislação laboral, o ministro do Trabalho e da Segurança Social, Luís Mira Amaral, disse em Lisboa, relatam os jornais, que ao assumirem esta posição estão a contrariar os interesses dos jovens, impedindo-os de arranjarem postos de trabalho estáveis.

    Atualmente, cerca de 55% dos desempregados em Portugal são jovens com menos de 25 anos.

    Mas sem paz a Humanidade não alcança o desenvolvimento pleno. Nesse sentido, a 1 de janeiro do próximo ano, João Paulo II vai celebrar o Dia Mundial da Paz.

    Há vinte anos, o papa Paulo VI, lançou um apelo de boa vontade para que fosse celebrado no primeiro dia de cada ano civil um Dia Mundial da Paz.

    Agora, o papa João Paulo II diz que em 1987 também se realiza o vigésimo aniversário da publicação da encíclica “Populorum Progressio”, que faz “um solene apelo para uma ação concertada em favor do desenvolvimento integral dos povos”.

    A partir do momento em que foi possível ver pela primeira vez imagens da Terra colhidas do espaço, segundo o papa, “deu-se uma mudança sensível no nosso modo de entender o nosso planeta, a sua imensa beleza e fragilidade”.

    E acrescenta: “Ajudados pelas conquistas resultantes da exploração espacial, descobrimos que a expressão ‘herança comum de todo o género humano’, adquiriu, a partir de então, um significado novo”.

    O papa fala da necessidade de se fazer em 1987 uma reflexão sobre a solidariedade e o desenvolvimento como chaves para a paz.

    Os portugueses deixam a partir de 1 de janeiro de estar sujeitos ao limite de divisas para viagem e turismo, que até aqui vigorava, de 150 contos (cerca de 748 euros) por ano.

    Assim, esta margem é alargada a 150 contos por viagem, o que significa o fim do limite anual por pessoa.

    O novo limite, por viagem, não se aplica a despesas realizadas através de agências de viagens, nem abrange os cartões de crédito e outros cartões bancários.

    No âmbito da CEE, o parlamento ratificou o Ato Único Europeu, com os votos favoráveis do PSD, PS, PRD e CDS, a abstenção do MDP/CDE e os votos contra do PCP, que prevê a criação do mercado interno comunitário.

    Portugal passa assim a ser o décimo país a dar “luz verde”, em termos parlamentares, à revisão do Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Económica Europeia em 1957, assinala a imprensa de hoje.

    Os progressos na saúde não deixam de surpreender e pela primeira vez na História, médicos de um hospital britânico, em Cambridgeshire, no leste da Grã-Bretanha, realizaram uma tripla transplantação: coração, pulmões e fígado.

    A equipa médica chefiada pelo cirurgião John Wallworth executou a transplantação de coração e pulmões, enquanto outra chefiada por Roy Caine procedeu à do fígado.

    A recetora dos órgãos, uma mulher de 35 anos, casada, natural de Yorkshire, foi sujeita a uma operação de sete horas e encontra-se bem, esclareceu um porta-voz do hospital, adiantando que “será necessário deixar passar algum tempo antes que possa ter alta”.

  • 17 Dec 1986

    Televisão só dentro de dois anos vai chegar a todos

    Por João Pedro Serafim

    Quase 30 anos passados desde que apareceu em Portugal, a televisão não é para todos, mas dentro de dois anos os dois canais da RTP poderão ser vistos pela totalidade dos portugueses.

    Atualmente, cerca de meio milhão de pessoas ainda não podem ver o canal 1 da RTP e aproximadamente 2 milhões de pessoas não têm acesso ao canal 2 da televisão pública, pelo que o Governo vai despender uma verba de 3 milhões de contos (cerca de 15 milhões de euros) para que a cobertura possa ser recebida em boas condições em todo o país.

    Na manhã de hoje, o Corpo Diplomático acreditado em Lisboa esteve no Palácio de Queluz para os tradicionais cumprimentos de boas-festas ao Presidente da República, Mário Soares, que na altura afirmou no seu discurso que os homens “estão cansados da guerra” e que compete aos responsáveis de todos os Estados “buscar as vias da concórdia, condição necessária para atingirem os objetivos supremos da Liberdade, da Democracia e da Justiça”.

    Entretanto, uma bomba de grande potência, com 450 quilogramas, explodiu na véspera no exterior de uma esquadra de polícia nos subúrbios de Belfast, ferindo um polícia e seis civis, tendo causado prejuízos avultados.

    O atentado foi reivindicado pelo IRA – Exército Revolucionário Irlandês.

    Em matéria de economia, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) revelou que o crescimento da economia portuguesa em 1986 é o maior do conjunto dos países que a integram e que deverá crescer 3,5% em 1987.

    O último Boletim sobre “Perspetivas Económicas da OCDE” diz que Portugal apresenta as maiores taxas de crescimento em relação à média dos países da CEE (Comunidade Económica Europeia, atual União Europeia) que fazem parte da OCDE.

    A taxa de desemprego em Portugal, nos dois anos em apreço, deverá situar-se nos 10%, ligeiramente inferior à média dos países da CEE nestes dois anos (11,5%).

    Enquanto os estudantes de 25 universidades se manifestavam em Itália contra a política atual do Governo italiano para a educação, duas bombas de grande potência rebentaram em Barcelona, tendo os atentados ocorrido contra a filial da empresa de bebidas Ricard e contra a fábrica de mobílias Roche Bouvois, ambas com capital francês.

    Na área da saúde ficou a saber-se que uma vacina contra a SIDA só será possível, “na melhor das hipóteses”, depois de 1990.

    Quem o afirma é o responsável da campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) Jonathan Mann, nas conclusões de uma reunião de 14 cientistas da Europa, Estados Unidos e África.

    Neste momento, 12 laboratórios estão a fazer testes com animais na tentativa de encontrarem uma vacina contra a síndroma da imunodeficiência adquirida.

    Afinal, um erro do piloto esteve na origem da queda do Tupolev-134 da companhia Aeroflot em que morreram 70 pessoas e que aconteceu perto do aeroporto de Schöenfeld, em Berlim Oriental.

    O piloto do avião soviético “violou as normas das manobras de aterragem”, esclareceu Otto Arndt, presidente da Comissão Governamental de Inquérito ao acidente aéreo.

  • 16 Dec 1986

    Presidente da República leva crianças carenciadas ao circo

    Por João Pedro Serafim

    Quatro mil crianças de diversas zonas carenciadas de Lisboa, Amadora e de Setúbal assistiram no Coliseu dos Recreios a um espetáculo de circo, agora que se aproxima o Natal e a convite do Presidente da República, Mário Soares.

    Com o Coliseu dos Recreios a abarrotar de gente miúda, 4.000 ao todo, Mário Soares sentou-se na primeira fila junto à pista, ladeado por Maria Barroso, sua mulher, e demais entidades oficiais, com a miudagem a gritar “Soares é fixe!”, descreve o Diário Notícias, lembrando que o espetáculo aconteceu na véspera à tarde.

    Entre os miúdos que vieram dos bairros mais miseráveis e “mais carenciados”, está Zé Manel que veio de Setúbal e que à entrada recebeu um saco de plástico cheio de prendas, entre as quais, chocolates e guloseimas, que se apressou a comer.

    Era de tarde e até àquela hora tinha comido “uma bucha de pão com nada”, mas vingou-se logo da fome que transportava.

    O ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, Afonso Van Dunem (M’Binda), o primeiro chefe da diplomacia angolana a visitar Portugal desde a independência a 11 de novembro de 1975, chegou hoje ao final da tarde, a Lisboa, para uma visita oficial de quatro dias, tendo dito que a iniciativa “é um sinal de que há melhoria das relações entre Angola e Portugal”.

    Durante a visita, em que o chefe da diplomacia angolana será recebido, em separado, pelo Presidente da República, Mário Soares, e pelo primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, serão analisadas as relações bilaterais entre os dois países, a situação na África Austral, e “questões de princípio” relativas, nomeadamente, à renegociação da dívida angolana para com Portugal, que atinge já seis milhões de contos (cerca de 30 milhões de euros) os encargos e à cooperação.

    O ex-imperador da República Centro-Africana, Jean-Badel Bokassa, negou perante o tribunal de Bangui qualquer responsabilidade no massacre de 100 estudantes, em 1979.

    Na sessão que marcou o recomeço do seu julgamento, Bokassa definiu-se como “um ser humano como qualquer outro” e afirmou que pretende “viver em paz”.

    Bokassa está a ser julgado no Palácio da Justiça acusado de assassinato, canibalismo, tortura e de desvio de fundos públicos. O dirigente político foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pela França, na sequência da chacina dos estudantes, tendo o seu regime vigorado entre 1966 e 1979.

    Em 1980, quando estava em França, foi condenado à morte, mas em outubro desse ano regressou ao país, onde foi detido pelas autoridades apesar de estar convencido de que seria bem recebido.

    Na área da ciência da oftalmologia há uma boa notícia. Uma nova cura para a miopia utilizando raios laser foi anunciada em Londres, esperando-se que comece a ser usada dentro de dois anos.

    Segundo o oftalmologista John Marshall, do Instituto de Oftalmologia de uma universidade de Londres, o novo tratamento basear-se-á na reconstrução da córnea. A intervenção terá efeitos rápidos e os míopes poderão deixar de usar óculos ou lentes de contacto.

  • 15 Dec 1986

    Oposição à esquerda fala em eleições

    Por João Pedro Serafim

    Os partidos da oposição, desde PS, PCP e MDP aos renovadores democráticos do PRD, falaram este fim de semana em alternativa ao Governo do PSD liderado pelo primeiro-ministro Cavaco Silva e da possibilidade de haver eleições antecipadas.

    Por parte dos socialistas, o líder do partido, Vitor Constâncio, disse na véspera, em Sintra, que “o primeiro-ministro engana-se se pensa continuar a manter-se como puro Governo de gestão” e avançou que o PS está a preparar-se para ser alternativa a este executivo, em 1987.

    Pela voz de Ramalho Eanes, o PRD também já fala em alternativa ao atual Governo, depois de ter elogiado Cavaco Silva durante bastante tempo: “O PRD entende que o país não deseja eleições, mas a leitura da situação leva-nos a crer que elas são não apenas prováveis, mas possíveis”, salientou.

    Para o PRD, disse Eanes, se o partido tivesse um resultado superior aos 18% que teve nas últimas eleições “constituiria uma alternativa”.

    Carlos Brito, dirigente do PCP, avisou que “a demissão do Governo de direita e a eleição de uma alternativa democrática estão na ordem do dia. Torna-se urgente que os partidos da oposição democrática, com larga maioria na Assembleia da República, apresentem e aprovem uma moção de censura”.

    Na boca de todos está a “exibição de luxo” do Sporting em Alvalade, no domingo, ao vencer o Benfica por 7 a 1, remetendo o líder para o plano de “uma equipa vulgar”. Manuel Fernandes foi o autor de quatro golos dos leões. O FC Porto reassumiu o comando do Campeonato Nacional de Futebol, em igualdade de pontos com as águias.

    Outros temas na ordem do dia são o escândalo “Irangate”, ou a venda secreta de armas ao Irão pelos Estados Unidos, e a caça ao assassino do primeiro-ministro sueco Olof Palme, com a polícia sueca a dizer que está na sua pista.

    O inspetor da polícia sueca que dirige as investigações admitiu que o autor do crime poderia “ser capturado em breve”.

    Esta notícia surge na sequência de detenção de vários imigrantes curdos em Estocolmo, entre os quais dois militantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) tidos como suspeitos, mas a polícia recusou-se a confirmar as prisões noticiadas pela rádio sueca.

    No cinema, o destaque vai para o filme “Ana e as suas Irmãs”, de Woody Allen, que foi considerado o melhor filme de 1986 pela Associação de Críticos Cinematográficos de Los Angeles.

    David Lynch, pelo filme “The Blue Velvet”, foi escolhido como o melhor realizador e o segundo melhor filme do ano, enquanto o britânico Bob Hoskins foi considerado o melhor ator pelo seu papel em “Mona Lisa” e a francesa Sandrine Bonnaire a melhor atriz pelo seu desempenho no filme “Vagabond”.

  • 14 Dec 1986

    General Ramalho Eanes quer novo Governo

    Por João Pedro Serafim

    O PS recusou um acordo com o PRD para derrubar o Governo liderado por Aníbal Cavaco Silva, mas os renovadores insistem em dizer que o executivo se esgotou e deve ser “rapidamente substituído”.

    O Partido Renovador Democrático (PRD) propôs ao Partido Socialista (PS) um acordo com os renovadores que viabilizasse uma “alternativa credível” ao Governo de Cavaco Silva, mas a reunião na sede dos socialistas, no Rato, em Lisboa, há cinco dias, “não correu muito bem”.

    A inflexão tática do PRD deve-se a entender que o Governo tem tido uma ação “globalmente positiva” na gestão corrente, mas mostra-se incapaz de fazer reformas estruturais em tempo útil, segundo a imprensa.

    Para os renovadores do PRD chegou o momento de passarem a uma “oposição mais ativa” e menos “expectante”, com vista à substituição do Governo, enquanto o ministro dos Assuntos Parlamentares, Fernando Nogueira, disse perentoriamente em entrevista ao Expresso que nunca defendeu “uma aliança com o PRD”.

    No meio da tensão política entre o Governo e a oposição, os advogados elegeram o novo bastonário, o portuense Augusto Lopes Cardoso.

    Na eleição, o novo bastonário da Ordem dos Advogados bateu os candidatos José Manuel Galvão Teles e Mário Marques Mendes.

    Augusto Lopes Cardos substituiu no cargo António Osório de Castro, numas eleições que foram muito concorridas, como é costume, até porque se trata de uma das poucas instituições portuguesas em que o voto é obrigatório e não exercê-lo obriga a multa pesada.

    Lá por fora, a polícia sueca anunciou a detenção de dois suspeitos de envolvimento no assassinato do primeiro-ministro Olof Palme, ocorrido em 28 de fevereiro deste ano, após tiroteio no centro de Estocolmo.

    As detenções, que foram feitas por detetives encarregados do caso Olof Palme, ocorreram três horas depois de o procurador-geral ter sido chamado à sede da polícia, onde os dois indivíduos estavam a ser interrogados.

    As autoridades não querem dar mais pormenores, embora a Rádio sueca tenha dito que os dois indivíduos são membros do partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

    Do lado de lá da fronteira, chegou a notícia de que os reis de Espanha iniciam hoje uma viagem de cinco dias à África Subsariana, visitando oficialmente a Nigéria e o Zimbabwe.

    O rei Juan Carlos começa a visita em Lagos, sendo o primeiro chefe de Estado de um país ocidental a visitar a Nigéria depois do golpe de Estado de 28 de agosto de 1985, que derrubou o general Mohamed Buhari.

    A visita à Nigéria realiza-se poucos meses depois de o Governo de Lagos indultar o capitão de navio espanhol José Luís Pecinha, condenado primeiro à morte e depois a pena perpétua acusado de contrabando de petróleo. Já a visita ao Zimbabwe realiza-se um ano e meio depois de o embaixador espanhol José Luís Branco Briones ter sido assassinado em Harare, sem que se conheçam, até agora, os motivos.

    Uma holandesa de 23 anos, a tenente Nelly Speerstra, tornou-se a primeira mulher piloto de combate do sexo feminino da NATO, depois de ter recebido treino e voo durante 55 semanas.

    “Não sinto nada de especial, fiz tudo o que os homens do curso de formação fizeram”, comentou a pioneira, que recebeu formação para pilotar caças supersónicos T-38.

  • 13 Dec 1986

    Cavaco Silva afasta hipótese de se demitir

    Por João Pedro Serafim

    O primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, numa comunicação ao país no dia 12 à noite, transmitida pela televisão e aguardada com expectativa, afastou a hipótese de se demitir e destacou que “em 1986, Portugal deverá ser o país da Europa com maior crescimento da produção, de maior aumento do poder de compra, dos salários e das pensões e em que a taxa de crescimento dos preços mais diminuiu”.

    “Estamos a andar para a frente”, disse Cavaco Silva, que lidera um Governo minoritário com apoio parlamentar do PSD, insistindo na tónica: “Os partidos da oposição que nos deixem governar”.

    Além da crítica aos partidos da oposição, o primeiro-ministro procurou também fazer passar uma mensagem de estabilidade e confiança.

    A imprensa dá conta da assinatura pública constitutiva da Lusa – Agência de Notícia de Portugal, S.A, na sede do Governo na Gomes Teixeira, em Lisboa. A cerimónia foi presidida pelo ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares, Fernando Nogueira, e pelos secretários de Estado da Comunicação Social, Luís Marques Mendes, e das Finanças, Manuel Carvalho Fernandes.

    A Lusa, que entrará em funcionamento em janeiro de 1987, vem substituir as duas agências de notícias existentes, a ANOP e a NP – Notícias de Portugal.

    Sessenta e nove pessoas morreram na queda de um avião Tupolev -134 da companhia aérea Aeroflot que partiu da cidade soviética de Minsk e se preparava para aterrar perto do aeroporto de Schönfeld, em Berlim Oriental.

    No avião da companhia soviética, um birreator parecido com o Boeing 737, viajavam 81 pessoas, oito das quais tripulantes.

    A 19 de outubro passado, um acidente com um avião semelhante cedido pela União Soviética vitimou o presidente Samora Machel, na fronteira de Moçambique com a África do Sul, causando também a morte a mais 33 pessoas.

    O público vibrou com os ritmos cabo-verdianos mal soaram os primeiros acordes na Aula Magna, no I Encontro de Música Luso-Cabo-Verdiana, em Lisboa.

    No palco estiveram Rui Veloso, entre mornas, coladeiras, rock e algum fado, e o violinista cabo-verdiano António Travadinha.

    Também os cabo-verdianos Dany Silva e Celina Pereira, o grupo Sossabe, Ana Firmino, Raul Ouro Negro, Cabo Verde Jazz, António Carlos Martins, natural de Angola mas virado para a música portuguesa, e Pedro Caldeira Cabral, que acompanhou Rui Veloso, fizeram vibrar o público.

    A segunda parte do espetáculo musical teve como pontos altos a atuação José Mário Branco e da Voz de Cabo Verde.

    A iniciativa pertenceu à Associação Portugal-Cabo Verde que procurou neste espetáculo uma saudável troca de culturas e o reforço da amizade entre os dois povos e países.

  • 12 Dec 1986

    Mário Soares propõe dupla nacionalidade com Cabo Verde

    Por João Pedro SerafimFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    O Presidente da República, Mário Soares, propôs a dupla nacionalidade com Cabo Verde, o que constituiu a grande surpresa da viagem que efetuou àquele país.

    A proposta foi feita num almoço de despedida, durante o qual o chefe de Estado português destacou o facto de a sua visita ter terminado no Mindelo, terra que significa “liberdade e cultura”.

    Tanto Mário Soares como o Presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira, realçaram o “papel importante que a iniciativa empresarial pode desempenhar na cooperação bilateral”.

    Mário Soares convidou Aristides Pereira a visitar Portugal, convite que foi aceite pelo seu homólogo cabo-verdiano.

    Por cá, a temperatura política está ao rubro e o primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, anunciou uma comunicação ao país, num clima de expectativa dadas as recentes posições assumidas pelos partidos da oposição, que elevaram o tom das críticas ao Governo.

    O secretário-geral do PS, Vítor Constâncio, na véspera, fez severas críticas ao Governo, mas disse que o seu partido não tomará, a curto prazo, qualquer iniciativa que abra uma crise política.

    O Partido Socialista reafirmou a intenção de que não apresentar uma moção de censura, por agora, enquanto o CDS se juntou, claramente, ao coro dos que advertem o executivo de que não apoiarão uma eventual moção de confiança, como PS, PCP e PRD.

    A precariedade na Função Pública é alta e está a preocupar a federação dos sindicatos do setor.

    Cerca de 81 mil trabalhadores da Função Pública (23,6%) têm vínculo precário, “não obstante a existência de vagas nos quadros”, denunciou o dirigente sindical Carlos Mamede, revelando que os vencimentos líquidos são, em média, inferiores em 15% aos praticados no setor privado para as mesmas categorias.

    Este ano, declarado pela ONU o Ano da Paz foi o período em que se registou um maior número de guerras em todo o mundo, desde a II Guerra Mundial.

    Dados do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Hamburgo, indicam que houve 37 guerras em 1986, incluindo as que duram há mais de 20 anos, como se verifica no Chade, Etiópia, Namíbia e na Birmânia.

    Apenas terminaram a guerra civil no Uganda e nas Filipinas e a guerra contra o movimento de libertação na Guatemala.

  • 11 Dec 1986

    Preços sobem no Ano Novo

    Por João Pedro SerafimFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    Os utentes da ponte sobre o Tejo vão passar a pagar, a partir da meia-noite do último dia do ano, novos preços nas portagens e nas travessias entre Setúbal e Troia os preços também sobem.

    As classes 1 e 2 aumentam o preço na portagem em 5 escudos (o correspondente a 2 cêntimos de euro), passando para 35 e 70 escudos, respetivamente, enquanto a classe 3 passa de 110 para 120 escudos e a classe 4 de 150 para 160 escudos.

    A classe 5 sobe também 10 escudos, para 240 escudos, ao passo que na classe 6 os preços sobem 20 escudos, para 310 escudos.

    Mas nem tudo é mau. Para facilitar o trânsito no verão, uma altura em que há uma maior afluência às praias, não serão cobradas portagens aos sábados, domingos e feriados nos meses de julho, agosto e setembro.

    Na área internacional, ficou a saber-se que o primeiro cessar-fogo em 17 anos de luta armada entre as tropas governamentais e os guerrilheiros rebeldes entrou em vigor nas Filipinas ao meio-dia local.

    Centenas de rebeldes desceram desarmados dos seus redutos nas montanhas até às cidades pouco depois de a trégua ter sido iniciada, com as duas partes a manifestarem confiança em que o cessar-fogo de 60 dias se mantenha e possa levar a uma paz duradoura.

    Mais de 17 mil pessoas morreram desde o início do conflito armado em 1969.

    A UNICEF, Fundo das Nações Unidas para as Crianças, advertiu, entretanto, que cerca de 14 milhões de crianças morrem anualmente devido a doenças evitáveis.

    No relatório, aquela organização internacional refere que é tempo de o mundo fazer um esforço para acabar com uma situação que considera “obscena”.

    “Esta emergência silenciosa” é tão inaceitável como as mortes em consequência da seca e da fome, alerta a UNICEF.

    Em Paris, foi com aplausos e gritos de “bravo” em bom francês que os atores da Companhia do Teatro Nacional D. Maria II fizeram os agradecimentos no Teatro Odéon, no final da interpretação da peça “D. Juan”, de Molière.

    A interpretação da peça do mestre francês, traduzida por Coimbra Martins, levou à apoteose o público presente.

  • 10 Dec 1986

    Cancro poderá matar um em cada três europeus em 2000

    Por João Pedro SerafimFoto LusaFoto Lusa

    Um em cada três europeus morrerá de cancro no ano 2000, caso o atual ritmo de progressão da doença se mantenha, perspetiva que assusta os responsáveis da CEE e que os leva a tomar diversas medidas.

    Nesse sentido, a Comissão Europeia está a preparar um programa de luta contra o cancro que prevê a realização de 75 iniciativas, entre 1987 e 1989, nos domínios da prevenção, informação à população, formação do pessoal sanitário e investigação clínica, explicou hoje Manuel Marin, que ocupa o cargo de vice-presidente da Comissão Europeia para os Assuntos da Saúde.

    O plano de ação foi elaborado por um grupo de especialistas no cancro, representando os vários Estados-membros da CEE, sendo que o representante de Portugal é o professor José Conde.

    No domínio da prevenção, o foco vai estar, entre outros aspetos, na luta contra o tabagismo, responsável por um terço das mortes por cancro.

    Na passagem por Cabo Verde, na Cidade da Praia, o presidente da República, Mário Soares, disse na véspera, que a cooperação com a África de língua portuguesa tem “consenso nacional”.

    Tratou-se da primeira viagem de Mário Soares àquele país africano como Chefe de Estado. Este condenou o “apartheid” na África do Sul e manifestou o interesse de Portugal vir a investir no país. Mário Soares foi recebido pelo seu homólogo Aristides Pereira.

    O Algarve, mais precisamente a Aldeia das Açoteias, é durante toda a semana a “capital” do fundo e meio fundo, dado que está a realizar-se um curso de treinadores, promovido pelo Comité Olímpico Internacional orientado pelo professor Moniz Pereira.

    São 30 os técnicos que participam, 15 portugueses e os restantes de Moçambique, Espanha, Itália, Luxemburgo, Suécia, Dinamarca e Bélgica.

    O professor Moniz Pereira tem sido o treinador de grandes figuras do atletismo português, tais como: Carlos Lopes, Fernando Mamede e os irmãos Castro.

    Lá por fora, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos Robert MacFarlane assegurou na comissão de inquérito encarregada de investigar o escândalo “Irangat”, venda secreta de armas norte-americanas ao Irão, que o dirigente iraniano “ayatollah” Khomeini tinha conhecimento do negócio.

    Na altura, em julho de 1985, segundo noticia o “Daily News” citando fontes da Comissão de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes, MacFarlane começou as conversas secretas com o Irão, pensando que estava a negociar com representantes e dirigentes moderados daqueles país.

    “Acabou por se perceber que o próprio Khomeini estava a par das negociações”, disse.

    Um quarto de século a cantar Deus, Frei Hermano da Câmara recebeu na véspera um “Disco de Platina”, após o seu duplo álbum, com o melhor dos 25 anos de carreira, ter vendido 60 mil unidades.

    Em declarações ao Correio da Manhã, Frei Hermano da Câmara disse que este disco de platina “vem confirmar que as pessoas continuam interessadas pela mensagem, que é a de Jesus da Nazaré”.

    “Um dos meus apostolados concretiza-se através da música. Mais de 60 mil pessoas compraram o meu disco, o que me alegra muitíssimo, pois um dos meus objetivos é tornar Cristo o mais amado de todos os Homens”, salientou.

  • 09 Dec 1986

    Sacos pretos de plástico para o lixo são perigo para a humanidade

    Por João Pedro SerafimFoto HUGO DELGADOFoto HUGO DELGADO

    Os sacos de plástico pretos, cada vez mais usados para o lixo em Portugal, representam uma tragédia para a humanidade, pois estão por todo o lado, adverte um estudo, que faz pensar que a sua proibição talvez venha aconteça.

    O investigador do departamento de Química da Universidade de Aston, em Bermingham, na Inglaterra, Gerald Scott, explica que 1% do “negro de fumo” – um pigmento considerado tóxico que é utilizado na produção de sacos de plástico para lixo doméstico - aumenta em 25 vezes a sua duração.

    A inovação no material de embalagens, com o advento do plástico, parece ter criado problemas de poluição “de muito difícil solução”, diz o cientista, referindo que o apelo ao baixo custo “ignorou comodamente a realidade”.

    No plano internacional ficou a saber-se que os Estados Unidos acabaram de pedir à Suíça ajuda oficial para esclarecerem o problema do desvio de fundos resultantes da venda de secreta de armas norte-americanas para o Irão, caso conhecido como o escândalo “Irangate”.

    Em resposta, a Suíça disse que vai estudar o pedido e, em Berna, na Alemanha, um banco decidiu congelar uma conta que era usada para depositar os lucros resultantes da venda de armas ao Irão, desconhecendo-se se também era utilizada no caso da Nicarágua.

    Entretanto, o Embaixador dos Estados Unidos no Líbano, John Kelly, é mais um dos envolvidos no escândalo “Irangate”.

    Por cá, o presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, anunciou na véspera que a circular regional interior de Lisboa (CRIL) vai crescer em 1987, com a construção do troço entre Monsanto e Algés, e que vai permitir pensar na autoestrada entre o Estádio Nacional e Cascais.

    O autarca referiu ainda que o túnel do Rossio vai ficar integrado na rede de Metropolitano.

    No mesmo dia, o governo francês liderado pelo primeiro-ministro, Jacques Chirac, congelou dois projetos de lei polémicos, o da Nacionalidade, que dificultaria o acesso dos imigrantes à nacionalidade francesa e o da privatização dos serviços prisionais.

    A morte de um jovem estudante argelino Malik Oussekine nos recentes tumultos, e que várias testemunhas dizem ter sido espancado pela polícia de choque francesa, está na base do congelamento do projeto de lei sobre a Nacionalidade, se bem que este projeto e o da privatização dos serviços prisionais já tivessem tido severas reservas por parte do presidente François Mitterrand.

    Um concerto pela meio-soprano britânica Elizabeth Laurence, acompanhada ao piano por Daniel Cadé realizou-se no Grande Auditório da Gulbenkian. A artista interpretou obras de Chausson (Poema do Amor e do Mar), Zemlinsky (Sete Canções op.13) e de Schoenberg (O livro dos jardins suspensos).

  • 08 Dec 1986

    Greve dos cantoneiros em Lisboa deixa 3.000 toneladas de lixo nas ruas

    Por João Pedro SerafimFoto JOÃO PAULO TRINDADEFoto JOÃO PAULO TRINDADE

    Os cantoneiros de limpeza iniciaram hoje em Lisboa uma greve de dois dias à recolha do lixo nas ruas, que deverá afetar as 3.000 toneladas de desperdícios.

    Os lisboetas, apesar dos pedidos da Câmara Municipal de Lisboa para não deixarem o lixo nas ruas, não estão a corresponder ao apelo e é notória a falta de contentores disponíveis.

    A greve, segundo fonte sindical, está a ser cumprida a 100% pelos cantoneiros e a Câmara não tem encontrado alternativas para evitar a acumulação do lixo.

    Num mundo onde a preocupação com a saúde é cada vez maior, o alerta vem de África onde pelo menos um milhão de africanos, incluindo bebés, irá morrer na próxima década devido ao à Síndroma de Imunodeficiência Adquirida (SIDA).

    A advertência vem do Instituto Panos, um grupo que realiza estudos não lucrativos que é financiado por governos europeus e organizações privadas, que depois de fazer testes a 4.710 pessoas em Kinshasa, no Zaire, verificou um aumento da doença em bebés até um ano de idade e nos jovens entre os 16 e os 29 anos.

    “Na Zâmbia, os médicos receiam que 6.000 bebés sejam vítimas da SIDA no próximo ano, quando nos Estados Unidos o número de bebés com a doença se situa abaixo dos 400, e no Ruanda 22% das vítimas são agora crianças”, refere o estudo.

    O relatório de 60 páginas diz que a Ásia também está ameaçada por uma “bomba-relógio chamada SIDA à espera de explodir” e refere que cada bebé que nasce tem 50% de probabilidades de morrer antes do primeiro ano de vida.

    Numa entrevista concedida, em Londres, aos Serviços Portugueses da BBC, que esta noite vai ser transmitida, em onda curta, para Portugal e para a África, o primeiro-ministro Cavaco Silva manifestou apoio ao presidente moçambicano Joaquim Chissano.

    “Tudo aquilo na fase pós-Machel que possa contribuir para maior desestabilização em Moçambique é extremamente grave, porque as opções do Presidente Chissano são muito limitadas. Tudo deve ser feito para ajudar o presidente Chissano e Moçambique, que atravessa uma situação de grave carência em relação à satisfação das mais elementares necessidades”, disse o governante português.

    Na entrevista, Cavaco Silva destacou também que “não se deve deixar de lado o problema da Namíbia”, fundamental para conseguir-se a paz na África Austral.

    Com o aproximar do Natal, os brinquedos espanhóis estão a invadir o comércio português. A adesão à CEE, com a quebra das barreiras alfandegárias e a entrada em vigor do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado) permitiram mudar, em parte, o rosto do comércio, mas o mercado paralelo continua a ser a grande dor de cabeça do setor.

  • 07 Dec 1986

    Papa convidado a deslocar-se a Fátima em 1987

    Por João Pedro SerafimFoto LusaFoto Lusa

    O papa João Paulo II pode fazer uma visita a Portugal, para ir à Cova de Iria, em Fátima, para a Beatificação dos pastorinhos Jacinta e Francisco. O convite já foi enviado, assegurou ao Diário de Notícias (DN) uma fonte do Vaticano.

    O rumor na Igreja de que o papa viria a Portugal no 70.º aniversário da primeira aparição de Nossa Senhora tem vindo a crescer, e agora soube-se que e o Bispo de Leiria e Fátima, D. Alberto Cosmo do Amaral, e a Conferência Episcopal, convidaram João Paulo II a visitar o Santuário de Fátima.

    A ocasião é única para João Paulo II “declarar solenemente bem-aventurados” os videntes de Fátima, embora para já fontes do DN na Secretaria de Estado do Vaticano tenham mostrado surpresa e alegado que a agenda do papa estará muito preenchida nessa altura com viagem a diversos países.

    Na véspera, terminou a Cimeira de Londres com os chefes de Estado e de Governo da CEE a manifestarem o consenso de que se torna cada vez mais urgente encontrar soluções que respondam à crise financeira da Comunidade.

    O primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, mostrou-se satisfeito com os resultados alcançados, nomeadamente, o destaque dado à necessidade de estabelecer Uma ligação íntima entre a formação do mercado interno e a adoção de medidas de coesão económica.

    Em visita a S. Tomé e Príncipe, o presidente da República, Mário Soares, celebra o seu 62.º aniversário, o primeiro enquanto Presidente da República, tendo a visita ficado marcada pela colocação de uma lápide na casa onde viveu oito meses em 1968, quando foi deportado pelo regime de Salazar.

    O mais recente livro de Gabriel García Márquez, “La Aventura de Miguel Littin Clandestino en Chile”, foi proibido pelo regime ditatorial de Augusto Pinochet. Os 15.000 livros importados deverão ser incinerados nas instalações alfandegárias de Valparaíso.

    Entretanto, o realizador de cinema italiano Francesco Rosi terminou, na Colômbia, as filmagens da novela de García Márquez “Crónica de uma morte anunciada”.

    Soube-se neste dia, através da Liga dos Direitos das Mulheres, que as mulheres podem ver cinema a preços reduzidos no Cine 222, em Lisboa, em todas as sessões de terças e sextas-feiras, e ao domingo.

    O preço de cada bilhete será, segundo o acordo celebrado entre a Liga e a gerência do cinema de 150 escudos (0,75 euros) para todas as mulheres, sócias e não sócias da Liga dos Direitos das Mulheres e a iniciativa visa acentuar “um dos direitos das mulheres que é o direito ao lazer e à cultura”.

  • 06 Dec 1986

    Cavaco Silva defendeu reestruturação da política agrícola

    Por João Pedro SerafimFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    Na Cimeira de Londres, Cavaco Silva defendeu a reestruturação da política agrícola comum no próximo ano, para que se canalizem mais verbas para o apoio às infraestruturas do setor, o que não acontece agora.

    Na reunião de dois dias do Conselho Europeu, que hoje termina, Aníbal Cavaco Silva, que na véspera se dirigiu aos chefes de Governo dos Estados-membros da Comunidade Económica Europeia, disse que a CEE deve reforçar os fundos comunitários para as infraestruturas do setor, em detrimento “do apoio aos preços agrícolas”.

    Manifestou-se a favor da criação de um grande mercado interno comunitário, disse que Portugal “não pode aceitar um agravamento das disparidades” já existentes entre os “Doze”, apoiou o reforço da coesão económico-social e criticou uma “certa sonolência” da CEE relativamente à crise financeira com que se depara.

    Por cá, e na ausência do Presidente da República, Mário Soares, que desde a véspera está em visita oficial a São Tomé e Príncipe, 18 anos depois de ali estar deportado por ordem de Oliveira Salazar, o Governo subiu os preços da eletricidade e dos transportes urbanos e suburbanos.

    Ficou também a saber-se que as pequenas e médias empresas (PME) vão ter uma Confederação em maio do próximo ano, a CPME – Confederação das Pequenas e Médias Empresas.

    Muitas centenas de taxistas disseram hoje adeus ao colega que foi assassinado a tiro, de noite, há três dias na serra de Sintra.

    O cortejo fúnebre saiu da Igreja das Fontainhas, em Cascais, para o cemitério de Almaceda, no distrito de Castelo Branco, e muitos foram os táxis que ao longo do percurso se incorporaram no cortejo fúnebre até à saída de Lisboa, pela autoestrada Norte.

    Lá fora, na Colômbia, na cidade de Bogotá, um homem de 51 anos matou 29 pessoas. Colombiano, engenheiro e antigo combatente da guerra do Vietname feriu ainda gravemente 15 pessoas num dos mais sangrentos massacres individuais, mas acabou por ser abatido pela polícia.

    O assassino, Campos Elias Delgado começou por matar primeiro a mãe e a irmã e depois seis mulheres que residiam no edifício, para mais tarde entrar num restaurante, beber uma bebida e após ter ido ao quarto de banho, disparar 300 tiros contra os clientes.

    O pianista norte-americano David Northington, de 37 anos, deu hoje um concerto no salão nobre da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital

    Numa digressão de dez dias por Portugal, o pianista já esteve no Funchal, em Portalegre e na Guarda indo ainda ao Porto e a Lisboa onde atuará no Teatro Nacional de São Carlos.

    A música de Northington combina a mestria técnica de um virtuoso com a sensibilidade musical de um poeta.

  • 05 Dec 1986

    Orçamento de Estado para 1987 aprovado no Parlamento

    Por João Pedro Serafim

    Neste dia, nublado, carca das 08:30, o Governo do PSD liderado por Cavaco Silva viu o Orçamento do Estado aprovado no parlamento, após uma madrugada de críticas duras por parte da oposição (PS, PCP e MDP).

    O PSD e o CDS votaram favoravelmente a proposta de orçamento para o próximo ano, o PRD absteve-se e os votos contra vieram dos partidos da oposição à esquerda.

    Com Cavaco Silva a voar, entretanto, para Londres, o país ficou a saber que a partir de janeiro a maioria dos utentes deixará de pagar as taxas moderadoras para acesso aos serviços de saúde.

    Na véspera, milhares de trabalhadores, empunhando archotes, concentraram-se ao princípio da noite em frente ao parlamento, numa manifestação “pelo emprego, pelo salário e pela justiça social no Orçamento do Estado para 1987”.

    Organizada pela União de Sindicatos de Lisboa e pelo Secretariado da Cintura Industrial da capital, esta ação de luta foi antecedida, à tarde, por uma manifestação de trabalhadores do distrito de Setúbal que estiveram junto da residência do primeiro-ministro, Cavaco Silva, em São Bento.

    Em Madrid e em Paris, na véspera, milhares de estudantes envolveram-se em confrontos com as forças governamentais.

    Noventa pessoas ficaram feridas nos incidentes entre estudantes, que estão contra o projeto de reforma universitário aprovado pelo Governo de Jacques Chirac, e as forças policiais, enquanto em Espanha milhares de jovens entraram em greve e manifestaram-se em Madrid, Barcelona e Sevilha contra a política do Ministério da Educação.

    O grupo inglês de heavy-metal Iron Maidon (nome de um instrumento de tortura medieval) dá hoje à noite um concerto em Cascais, para o qual trouxe 72 toneladas de material e uma comitiva de 52 pessoas.

    Este grupo esteve em Portugal há dois anos, iniciou a sua carreira em 1977, editou até hoje 16 ‘singles’ e fez quatro vídeos, sendo que o seu álbum mais recente chama-se “Somewhere In Time”.

  • 04 Dec 1986

    Pena máxima pedida para Otelo

    Por João Pedro SerafimFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    A acusação pediu a pena máxima para Otelo Saraiva de Carvalho e Mouta Liz, que pode ir até aos 20 anos, considerando que está entre os mentores e fundadores da “organização terrorista FP-25”.

    Um dos mais conhecidos capitães da Revolução de 25 de abril de 1975 foi acusado na véspera pelo Ministério Público de estar entre os mentores e fundadores das FP-25, sendo que a acusação solicitou ainda ao tribunal a isenção de pena para os quatro réus “arrependidos” e a absolvição para dois réus revela o Diário de Notícias de hoje.

    Neste dia ficou a saber-se que o PCP apresentou no parlamento um projeto de lei que prevê a suspensão das expropriações e entregas de reservas na zona da Reforma Agrária.

    Este projeto de lei, para o qual o PCP solicitou urgência, foi apresentado pelo deputado João Amaral, sendo que a suspensão proposta visa facilitar a continuação do inquérito parlamentar “às ações ilegais” do Ministério da Agricultura no que respeita à Reforma Agrária.

    No III Congresso dos Economistas, que hoje termina, o economista Xavier Pintado advertiu para o facto de os empresários portugueses apostarem pouco na investigação e lembrou que 27% da população portuguesa é analfabeta e apenas 2,5% tem curso superior, o que condiciona o processo de desenvolvimento tecnológico do país.

    Na área internacional, o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Poindexter recusou-se a testemunhar perante a comissão do Senado que investiga o escândalo da venda secreta de armas Irão, mas foi de novo convocado.

    “Os membros da comissão reagiram furiosamente e decidiram voltar a convocá-lo”, diz o Washington Post, indicando que “os lucros das vendas das armas norte-americanas ao Irão foram canalizados para uma conta da CIA num banco suíço, que os distribuía por guerrilheiros nicaraguenses e afegãos”.

    Com a presença do príncipe Carlos, a pianista Maria João Pires vai estar no dia 16 de dezembro, no Queen Elizabeth Hall, em Londres, num concerto com a Orquestra de Câmara Inglesa para assinalar o encerramento das comemorações do Sexto Centenário do Tratado de Windsor, o documento que consagra a aliança entre Portugal e a Inglaterra.

    A Fundação Anglo-Portuguesa, uma instituição constituída no ano passado para promover a cultura portuguesa na Grã-Bretanha, é a entidade organizadora.

  • 03 Dec 1986

    Portugal surpreende na Olimpíada de Xadrez no Dubai

    Por João Pedro SerafimFoto PAUL VICENTEFoto PAUL VICENTE

    Portugal surpreendeu na XXVII Olimpíada de Xadrez, que terminou na véspera no Dubai, Emirados Árabes Unidos, ao classificar-se em 17.º lugar, ex aequo com a Polónia e a Jugoslávia, sendo o primeiro dos países sem grandes mestres.

    A União Soviética ganhou pela quarta vez consecutiva a medalha de ouro da Olimpíada de Xadrez, mas a vitória não foi fácil, apesar de ter quatro dos melhores jogadores do mundo, o primeiro dos quais é o campeão Garry Kasparov.

    Portugal ficou à frente da Roménia, Brasil, Canadá, Espanha, Itália e Indonésia, com 32 pontos, mais dois que em Salónica em que ficou no 25.º lugar, classificação que não estava nas previsões dos mais otimistas.

    Integraram a equipa portuguesa os mestres-internacionais António Fernandes, António Antunes e Luís Santos e os mestres FIDE António Fróis, João Sequeira e Jorge Guimarães.

    Sob o lema “Emprego certo para a juventude”, a CGTP - Intersindical vai promover nesta quinta-feira, em seis distritos de Portugal um dia de luta para “sensibilizar a opinião pública para as situações de trabalho precário, despedimento e uso abusivo dos contratos a prazo”, que segundo a organização sindical têm vindo a afetar a vida dos jovens no país.

    Segundo a organização da juventude da CGTP existem em Portugal cerca de 300.000 jovens desempregados (9.000 dos quais licenciados só na área das Letras, sendo nesta faixa etária que se faz sentir a contratação a prazo.

    Na área internacional, numa altura em que se fala do escândalo da venda de armas dos Estados Unidos ao Irão, ficou-se também a saber-se que na véspera, o presidente norte-americano, Ronald Reagan, nomeou Frank Carlucci para o cargo de conselheiro nacional de Segurança, substituindo o vice-almirante Pointdexter, recentemente demitido.

    Reagan, que se dirigia ao país através da rádio, destacou o papel de Carlucci como embaixador em Lisboa e considerou-o “altamente qualificado” para o novo cargo, dizendo ainda que “saberá servir bem” os Estados Unidos.

  • 02 Dec 1986

    Bacalhoeiros portugueses à espera de Bruxelas para serem abatidos

    Por João Pedro Serafim

    Os primeiros nove bacalhoeiros da frota portuguesa vão ser abatidos, falta que Bruxelas desbloqueie os fundos comunitários para que as empresas de armadores da pesca industrial tenham “luz verde” para avançarem já em janeiro.

    A Associação dos Armadores das Pescas Industriais (ADAPI) e os organismos oficiais ligados ao setor garantem, em declarações ao Diário Popular, que a política de abate de navios não vai por em causa os postos de trabalho.

    Uma lista de 147 projetos nacionais foi entregue em maio a Bruxelas para concorrer aos fundos da Comunidade Económica Europeia (CEE), entre os quais se inclui o abate de nove bacalhoeiros, que pertencem a nove armadores: “O objetivo é o de reestruturar e modernizar a frota portuguesa”, asseguram os responsáveis.

    Neste dia, o papa João Paulo II despediu-se na véspera da Austrália e visitou as Seychelles antes de voltar para Roma, numa visita que durou 32 dias e durante a qual passou pelo Bangladesh, Singapura, ilhas Fidji e Nova Zelândia.

    Esta foi a 32.ª deslocação mais longa do papa João Paulo II desde a sua eleição para a cadeira de São Pedro, em 1978, tendo ficado cerca de seis horas em Vitória, capital das Seychelles, de onde regressou ao Vaticano.

    Hoje ficou a saber-se que o Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa e o de Fomento foram autorizados pelo Banco de Portugal a abrir escritórios e representações em Espanha, cumprindo-se as resoluções da cimeira luso-espanhola, que decorreu em outubro, em Guimarães.

    O Banco Português do Atlântico solicitou também ao banco central português autorização para operar em Espanha, através de uma filial, mas para já aguarda por uma resposta.

    Em defesa do aproveitamento e do desenvolvimento das “imensas potencialidades da Serra da estrela”, o presidente da República, Mário Soares, fez eco desse desafio que se coloca ao país ao visitar a Covilhã, na véspera.

    Soares falou nos Paços do Concelho na sessão solene comemorativa do VIII Centenário do Foral da Covilhã e do V Centenário da Morte de Pêro da Covilhã.

  • 01 Dec 1986

    MDP quer concorrer às legislativas mas sem o PCP

    Por João Pedro Serafim

    O Encontro Nacional do MDP [Movimento Democrático Português], reunido no fim de semana, em Lisboa, decidiu que o partido deve concorrer autonomamente às próximas eleições legislativas, pondo fim à “aliança preferencial” dos últimos dez anos com o PCP.

    A política continua ao rubro e o partido liderado por José Manuel Tengarrinha, diz que quer preparar-se para “concorrer autonomamente” às eleições para a Assembleia da República, apesar de defender a manutenção da “coligação APU [Aliança Povo Unido de que o PCP é a principal força política] para as autarquias”.

    Há ainda perspetivas de favorável convergência do MDP com o PCP, PS e PRD, “aliados potenciais” no quadro parlamentar para uma alternativa ao atual Governo de Cavaco Silva e ao Partido Social Democrata (PSD).

    Por cá, esteve a “mulher sem rosto” do Fundo Monetário Internacional, Teresa Terminasean, a chefe da missão do FMI, encarregada de acompanhar a evolução da economia portuguesa e analisar a política do Governo de Cavaco Silva.

    Se a vinda de uma missão do FMI é notícia, a visita de rotina da economista do FMI, não poderia deixar de o ser. “É evidente que as coisas vão bem”, diz ao Diário de Notícias a economista. Dentro de dias o relatório anual do FMI poderá ser divulgado e os funcionários do Fundo trabalham depressa.

    Por cá, a restauração da Independência de Portugal comemora-se hoje em Lisboa e noutros pontos do país.

    O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Abecasis, está presente na tradicional deposição de coroas de flores junto ao Monumento dos Restauradores que evoca o movimento de 1640, que restaurou a independência de Portugal face ao domínio espanhol.

    O projeto do monumento, com cerca de 30 metros de altura, é da autoria do professor de Belas-Artes António Tomás da Fonseca e foi inaugurado há 100 anos.

    A nível internacional, o presidente norte-americano, Donald Reagan, enfrenta a crise mais grave do seu mandato, relacionada com a venda de armas para o Irão no conflito que trava com o Iraque.

    Depois ter passado o fim de semana e o feriado do Dia de Ação de Graças no seu rancho na Califórnia, Reagan regressou à Casa Branca.

    O presidente enfrenta as pressões do partido Republicano e as do partido Democrata quando está em curso uma investigação à Administração norte-americana por vender armas ao regime de Khomeini e a Teerão.

    Os amantes da sétima arte estão de luto com a morte de um dos últimos galãs da “era de ouro” do cinema norte-americano. Soube-se hoje que Cary Grant morreu na véspera, com 82 anos, num hospital de Davenpot, no Estado de Iowa onde foi internado no sábado de urgência.

    Afastado há 20 anos dos estúdios, Cary Grant, inglês radicado nos Estados Unidos, rodou em 1966 último filme “Walk, Dont’t Run” (Passeia não Corras).

    Cary participou em mais de 70 filmes. Era um ator carismático. Nasceu em Bristol, Inglaterra, a 18 janeiro de 1904 e o seu nome verdadeiro era Alexander Archibald Leach. Passou por Lisboa uma única vez, em 1965, numa escala de barco a caminho de Inglaterra.

  • 30 Nov 1986

    Parlamento aprova dois milhões de contos para lei dos salários em atraso

    Por João Pedro Serafim

    A lei dos salários em atraso vai poder ser posta em prática com a aprovação na Comissão de Economia da Assembleia da República, na véspera, de uma dotação orçamental para 1987 de dois milhões de contos [9.975.957,94 de euros].

    Tal montante não afetará a relação entre as despesas e as receitas prevista na proposta inicial de Orçamento de Estado para o próximo ano, pois foram igualmente retirados dois milhões de contos da rubrica “despesas em encargos com juros da dívida pública”.

    Os consumidores portugueses vão ter uma boa notícia lá mais próximo do Natal, uma vez que o preço da carne bovina vai baixar 100 (50 cêntimos de euros) a 150 escudos (75 cêntimos de euros) o quilograma.

    Os preços da carne “dispararam” há pouco mais de um mês para valores proibitivos, que se situam entre 1.100 (5,49 euros) a 1.500 escudos (7,48 euros) o quilograma consoante se trate de carne de vaca de primeira ou de carne do lombo.

    A importação por parte de Portugal de carne fresca refrigerada (com três ou quatro dias de abate) da Holanda, República Federal da Alemanha e da França, pois nesta altura a produção nacional não consegue responder à procura, pois é uma altura em que o consumo aumenta no país, levaria a que o preço baixasse.

    A CEE, lamentou na véspera o fim das emissões da Europa TV, projeto de Televisão via satélite em que colaboravam as cadeias públicas de Portugal, Holanda, Itália, Alemanha Federal e Irlanda.

    De acordo com fontes da comissão Europeia, a CEE poderá vir a exigir aos responsáveis da Europa TV a devolução de 140 mil contos (698.317.055,9 euros) que atribuiu para financiar o projeto.

    A Europa TV começou a emitir em outubro de 1985 e em Portugal em janeiro de 1986 e as suas emissões terminaram na quinta-feira passada.

  • 29 Nov 1986

    Apreendidos 33 milhões de contos [164 mil euros] de droga desde o início do ano

    Por João Pedro SerafimFoto ACÁCIO FRANCOFoto ACÁCIO FRANCO

    A droga apreendida em Portugal já atingiu os 3,3 milhões de contos [16.460.330,6 de euros] desde o início do ano, representando 10% do valor total dos estupefacientes que entraram no país (33 milhões de contos [164.603.306,03 de euros], anunciou hoje a Direção-geral das Alfandegas (DGA).

    Ao longo deste ano, realizaram-se 98 apreensões de droga, num total de 1.600 quilogramas, o que em valor corresponde aos 3,3 milhões de contos [16.460.330,6 de euros], refere aquele organismo, que destaca o aeroporto de Lisboa como “o principal ponto” de apreensão com 80 carregamentos.

    Soube-se também, que a Polícia Judiciária desmantelou uma rede ilegal de emigração para os Estados Unidos, a qual operava há já algum tempo no país.

    A Polícia judiciária prendeu cinco indivíduos da rede criminosa que extorquia entre 200 [997,6 contros a 650 contos [3.242,19 euros] para os candidatos chegarem aos Estados Unidos e tivessem um emprego naquele país.

    Os emigrantes saiam do aeroporto de Lisboa para Madrid e daqui para o México. Lá chegados era-lhes tirada toda a documentação e bagagem e exigido pelo chefe da rede o pagamento em dólares, acabando por serem levados por mexicanos até à fronteira com os Estados Unidos e sujeitarem-se a toda a sorte de privações.

    Por cá, mas na área da construção e habitação, a Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) vai lançar 600 fogos em Telheiras no primeiro semestre do próximo ano.

    Em 1987, a EPUL anunciou que vai lançar 2.000 fogos em diversas zonas de Lisboa, sendo que as candidaturas já estão abertas.

    O couraçado norte-americano “Missouri”, que a 2 de setembro de 1945foi palco da assinatura do tratado de rendição incondicional do Japão, que pôs fim à II Grande Guerra Mundial, esteve até à véspera em Lisboa, dia em que foi visitado pelo presidente da República, Mário Soares.

    O governo não aceita a proposta salarial do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Lemos Ferreira que prevê um aumento da ordem dos 30% sobre os atuais vencimentos dos militares. A “reivindicação do CEMGFA foi considerada por alguns meios políticos de “grosseira provocação” e mal recebida pelo governo de Cavaco Silva.

  • 28 Nov 1986

    Violentos protestos põem Brasília a ferro e fogo

    Por João Pedro Serafim

    Uma manifestação de protesto em Brasília contra as recentes medidas económicas aprovadas pelo Governo brasileiro terminou, na véspera à noite, em confrontos violentos de que resultaram uma centena de feridos.

    No final da marcha, convocada pela Central Única de Trabalhadores (CUT) e que não foi autorizada pelo Governo, quando milhares de manifestantes já dispersavam, 35 lojas e escritórios comerciais foram saqueados e destruídos e vinte veículos incendiados junto à central de transportes de Brasília, a três quilómetros do palácio (do Planalto) presidencial.

    O presidente do Brasil, José Sarney, enfrenta a mais grave crise desde que o Executivo assumiu o poder em 1985,

    Os brasileiros e alguns setores políticos estão contra o “Plano Cruzado”, que se destina “a salvar o país da insolvência”, pois impõe, nomeadamente, o aumento dos preços da energia, dos combustíveis, dos automóveis e das bebidas alcoólicas, sem que haja uma correspondente subida dos salários da população, o que significa “a expulsão do paraíso” em que o país vivia nos últimos tempos.

    Com Brasília a ferro e fogo, cerca de 200 mil estudantes franceses protestavam contra a proposta de reforma do ensino superior que estava a ser debatida na Assembleia Nacional, em Paris.

    O debate do projeto-lei prevê alterar as condições de ingresso no ensino superior e aumentar as propinas o que levou a que 49 das 78 faculdades e institutos universitários em Paris estejam em greve e que 30 de um total de 67 escolas secundárias aderissem à contestação.

    O novo campeão do mundo de “boxe”, na categoria de pesados, tem 20 anos e é o norte-americano Mike Tyson que arrebatou o título ao canadiano Trevor Berbick, por “KO”, ao segundo assalto de um combate previsto de 12 “rounds”, disputado em Las Vegas.

  • 27 Nov 1986

    Automóvel dá milhões ao Estado

    Por João Pedro SerafimFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    O setor automóvel rendeu ao Estado entre 139 milhões (693.329.076,92 euros) e 150 milhões de contos (748.196.845.6 euros) em 1985, segundo cálculos da Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) e da Associação dos Industriais de Montagem de Automóveis (AIMA), hoje divulgados.

    As duas associações referiram também que o Estado arrecadou 34 milhões de contos (169.591.285 de euros) com o imposto sobre as vendas, mais de 700 mil contos (3.491.585,28 de euros) com a sobretaxa de importação, três milhões de contos (14.963.936,91 de euros) com os impostos de circulação e seis milhões de contos (29.927.873.82 de euros) com imposto de compensação.

    No estudo elaborado pela ACAP e AIMA, os impostos sobre peças, acessórios, pneus e máquinas industriais terão gerado receitas para o Estado entre 5,5 milhões (27.433.884,34 de euros) e seis milhões de contos (29.927.873,82 de euros), enquanto os impostos diferenciais sobre os combustíveis deverão ter atingido entre 90 milhões (448.918.107,36 de euros) a 100 milhões de contos (498.797.897,07 euros).

    O valor médio das receitas geradas pelo setor automóvel para o Estado (144,5 milhões de contos [720.762.961,26 euros), representa 40,8% do total dos impostos indiretos.

    O governo decidiu hoje em Conselho de Ministros acabar com o papel selado nos atos e contratos realizados com a administração pública e entre os particulares e criar um gabinete coordenador da prestação do serviço cívico dos objetores de consciência.

    Pretende, assim, garantir aos jovens objetores de consciência a prestação de um serviço eminentemente civil, embora em condições de paralelismo com a prestação do serviço militar obrigatório.

  • 26 Nov 1986

    Carlos e Diana vão visitar Portugal em fevereiro

    Por João Pedro SerafimFoto MARCEL MOCHETFoto MARCEL MOCHET

    Os príncipes de Gales, Carlos e Diana, vão visitar o país entre 13 a 17 de fevereiro do próximo ano, disse na véspera o Embaixador da Grã-Bretanha em Portugal.

    Embora o anúncio da visita já tivesse sido anunciado, desconhecia-se a data certa da visita dos príncipes a Portugal.

    Para já, da agenda real, é conhecido que Carlos e Diana vão inaugurar, no Palácio de Cristal, no Porto, uma exposição de comércio britânico, exclusivamente de empresas deste país ou radicadas em Portugal.

    Até ao momento não se conhecem mais pormenores da visita de Carlos e Diana a Portugal, mas o mediatismo da “Princesa do Povo” não está a passar despercebido junto da população.

    Por cá, o ministro do trabalho, Mira Amaral, anunciou na véspera que o abono de família vai aumentar em janeiro de 1987, mas escusou-se a dizer qual o aumento previsto.

    As verbas despendidas, no final deste ano, para o abono de família situam-se entre 24 milhões (119.711.495,3 euros a 25 milhões de contos (124.699.474,27 euros e para 1987 estão previstos 28 milhões de contos (139.663.411,18 euros).

    A cantora lírica espanhola Teresa de Berganza, um dos maiores vultos femininos da ópera, celebre pelas suas interpretações, entre outras, de Rossin e Mozart ou as oratórias de Vivaldi e Haendel, participou hoje com a Orquestra da Gulbenkian, dirigida pelo maestro Sir Alexandre Gibs, num concerto em Lisboa.

    No concerto, realizado no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, foram apresentadas obras de Haydn (Sinfonia n.º 61, em ré menor) e Mahler (Canções de um Vidente) e de Mendelssohn (sinfonia n.º4 em lá maior, op.90).

  • 25 Nov 1986

    Captura dos irmãos Cavaco põe fim à sangrenta evasão de Pinheiro da Cruz

    Por João Pedro SerafimFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    A evasão mais sangrenta da história da cadeia de Pinheiro da Cruz, terminou na véspera com a captura dos irmãos Cavaco numa casa de Cruz da Assumada, um pequeno lugarejo entre Loulé e a aldeia de Salir, no Algarve.

    José Faustino Cavaco, de 26 anos, Vitor Clemente Cavaco, de 32 anos, fugiram da prisão do Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, perto de Grândola, a 28 de julho passado, tendo sido os únicos de entre os seis cadastrados evadidos que não tinham sido capturados (um deles suicidou-se antes de ser preso).

    Na ocasião, os dois irmãos, que mantinham há mais de um mês sequestrado o jardineiro da Câmara Municipal de Loulé Rogélio Brito e a sua família, na casa onde vivia, não resistiram à ordem de rendição da Polícia Judiciária.

    Durante a evasão, os reclusos mataram três guardas prisionais e feriram outros dois, tendo a fuga dos irmãos Cavaco durado 130 dias.

    Ainda em viagem por seis países da Ásia e da Oceânia, João Paulo II já está na Austrália, onde chegou a Camberra na véspera, tendo exortado os australianos preocuparem-se com “as pessoas que foram empurradas para as margens da vida”.

    Depois de se ter ajoelhado e beijado o solo, à semelhança do que faz quando “pisa terra visitada”, o Diário de Notícias escreve que João Paulo II, ao falar com o Governo australiano, apelou ao desarmamento e à paz e manifestou a oposição da Igreja à prática do aborto e à fecundação “in vitro”, por “respeito da vida humana, a partir do momento da conceção”.

  • 24 Nov 1986

    Tribunais do Trabalho demoram 19 meses a fazer justiça

    Por João Pedro SerafimFoto ANTÓNIO COTRIMFoto ANTÓNIO COTRIM

    Os processos desencadeados pelos trabalhadores nos Tribunais do Trabalho portugueses demoram 19 meses, em média, a ser resolvidos, situação insatisfatória onze anos passados sobre a reconquista da democracia, revelam hoje as últimas estatísticas disponíveis.

    Apesar da melhoria observada face à “situação calamitosa” anteriormente registada, uma vez que a morosidade baixou para cerca de metade da verificada nos anos anteriores, a justiça laboral leva ainda tempo a concluir os processos.

    O estudo da Direção-geral dos Serviços Judiciários indica também que entraram nos Tribunais do Trabalho portugueses 72.636 processos em 1985, tendo sido dados como findos 76.447 processos, tendo ficado pendentes 75.129 processos para este ano.

    De visita a Portugal, desde hoje e por dois dias, o Comissário Europeu responsável pela coordenação dos Fundos Estruturais, Grigoris Varflis, faz um balanço positivo do primeiro ano de adesão do país à Comunidade Económica Europeia (CEE).

    “É difícil fazer nesta altura um balanço de um ano de adesão de Portugal à CEE, mas baseando-nos apenas nos números podemos dizer que é satisfatório”, esclareceu Varflis numa conferência de imprensa na véspera em Bruxelas.

    A jornalista brasileira Dulce Damasceno, que viveu 16 anos em Hollywood lançou um livro “O ABC de Carmen Miranda”.

    Amiga e confidente da atriz luso-brasileira, a jornalista reproduz depoimentos de Carmen Miranda, que nasceu em Marco de Canavezes (Portugal), viveu no Rio de Janeiro e brilhou em Hollywood.

  • 23 Nov 1986

    Arquivo da Torre do Tombo vai para o novo edifício na “Cidade Universitária”, em Lisboa

    Por João Pedro SerafimFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    As novas instalações do Arquivo Nacional da Torre do Tombo vão situar-se em plena “Cidade Universitária”, em Lisboa, prevendo-se a sua inauguração no final de 1989, disse na véspera o respetivo diretor, José Pereira da Costa.

    Mais de seis dezenas de sócios do grupo “Amigos de Lisboa”, visitou durante duas horas o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, localizado no edifício onde funciona a Assembleia da República, tendo conhecido parte das 35 divisões, repartidas por quatro pisos, no total de 25 quilómetros de prateleiras que estão cheias de documento históricos.

    A nova Torre do Tombo, edifício que se localizará no Campo Grande, terá uma área coberta de 54.000 metros quadrados e terá 200 funcionários, cinco vezes mais do que os que atualmente trabalham nas instalações onde funciona o Parlamento português e onde estão arquivados 40 milhões de documentos, alguns deles de valor incalculável.

    Num mundo composto de mudança, a União Soviética iniciou, com alguma prudência, o estímulo à abertura de pequenas empresas privadas num pequeno leque de atividades de bens e serviços, sem seja posta em causa a via económica socialista centralizada.

    A nova lei sobre atividades individuais de trabalho, aprovada esta semana pelo Soviete Supremo, autoriza e estimula as famílias em 29 atividades diferentes, desde as reparações domésticas e de automóveis, ao fabrico de brinquedos e à alfaiataria.

    Esta lei é uma de um conjunto de reformas inspiradas por Mikhail Gorbatchov, mas o planeamento económico central mantém-se e o Estado continua a deter as grandes atividades.

  • 22 Nov 1986

    “Selo” de Património Mundial transformou e colocou Évora no “mapa” turístico

    Por Rita RanholaFoto NUNO VEIGAFoto NUNO VEIGA

    A classificação do centro histórico de Évora como Património da Humanidade, pela UNESCO, transformou a cidade e colocou-a no “mapa” do turismo cultural, mas, 30 anos depois, o grande desafio passa pela revitalização desta zona intramuralhas. “Há um antes e um depois da classificação. Évora deu um salto qualitativo, até para se interiorizar a valia

    Ver Reportagem
  • 22 Nov 1986

    Desfile de moda portuguesa no Hotel Ritz

    Por João Pedro Serafim

    Um dos salões do Hotel Ritz encheu-se de muitos colunáveis e do “jet set” da alta finança para ver uma passagem de modelos de alta-costura do português Paulo Matos que se inspirou em Lisboa.

    Tratou-se de um êxito tão grande como importante se está a tornar-se a alta-costura portuguesa, refere um artigo no Diário Popular, em que se diz que dezenas de manequins desfilaram “numa envolvente demonstração capaz de asfixiar as mais nobres linhas e tendências estrangeiras”.

    Lisboa com esta passagem de moda do estilista Paulo Moura, dificilmente esquecerá o evento em que dois estilos diferentes surpreenderam: O “classic nouveau”, num retorno às gloriosas “stars” e o “lisboeta atual”, inspirado no revivalismo do “new-look” (anos 40) e nas caudas de Balenciaga (anos 50).

    Na cerimónia de encerramento das bodas de diamantes da Associação de Estudantes de Agronomia, em Lisboa, ficou a saber-se que a capital do país vai ter mais de 15 mil árvores nos próximos quatro anos e que até meados de 1987, irão ser plantadas cerca de 4.000 árvores nas suas ruas.

    Um boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS) manifesta a preocupação em relação ao vírus da SIDA e revela que se registaram 34.448 casos até 14 de novembro, dos quais 77% nos Estados Unidos.

    A França é o segundo país com 977 casos, enquanto o Canadá e o Brasil ocupam os lugares seguintes com 755 e 754 casos, respetivamente.

    Desde agosto de 1985, altura em que a OMS começou a divulgar estatísticas, o número de países onde se detetou a doença passou de 35 para 77, sendo que em Espanha se registaram 214 casos.

  • 21 Nov 1986

    Deputados aprovam Orçamento e rejeitam Grandes Opções do Plano para 1987

    Por João Pedro SerafimFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    O “suspense” sobre a votação do Orçamento de Estado para 1987 e das Grandes Opções do Plano durou até ao final, mas os deputados acabaram por aprovar, já na madrugada da véspera, o orçamento e “chumbar” o Plano.

    Ramalho Eanes, presidente do Partido Renovador Democrático (PRD), foi uma das “vedetas”, pois compareceu no Parlamento para definir a estratégia e o sentido de voto do seu partido que deixou o primeiro-ministro, Cavaco Silva, governar, mas chumbou o Plano.

    Hoje ficou a saber-se que, na véspera, em carta aberta enviada João Paulo II, assinada por Abel Guterres, presidente do Centro Timorense de Informação e Cultura de Melbourne, os timorenses que residentes na Austrália pedem o seu apoio ao direito à autodeterminação de Timor-Leste.

    Alegam que a mensagem é “uma última alternativa”, pois os bispos australianos declinaram convidar monsenhor Belo, Bispo de Timor, a estar presente durante a visita de João Paulo II à Austrália na próxima segunda-feira.

    Os portugueses, para regozijo dos que apreciam as aguardentes bagaceiras nacionais, vão ter de esperar seis meses para terem a garantia de que estas não contêm teores excessivos de produtos reconhecidamente nocivos para a saúde, como o butanol 2 e o metanol.

    O diploma, hoje publicado em Diário da República, entra em vigor a partir de junho de 1987.

  • 20 Nov 1986

    João Paulo II inicia no Bangladesh viagem mais longa desde que é papa

    Por João Pedro Serafim

    O Papa João Paulo II iniciou hoje, no Bangladesh, a mais longa viagem feita até agora durante o seu Pontificado, um périplo de quase 50 mil quilómetros, passando por Singapura, ilhas Fiji, Nova Zelândia, Austrália e ilhas Seychelles.

    Esta distância inclui as viagens de avião entre as cidades incluídas no programa, mas exclui as deslocações em automóvel entre os aeroportos e os lugares onde João Paulo II celebrará as missas campais e visitas pastorais.

    Naquela que é a 32.ª deslocação ao estrangeiro desde que foi entronizado Papa, há oito anos, João Paulo II regressa à Oceânia e à Ásia, depois de ter visitado, em 1981, as Filipinas, o Paquistão e o Japão, além da breve escala que fez então em Guam, nas ilhas Salomão.

    Os jornais matutinos de hoje escrevem também sobre o debate no Parlamento da proposta de Orçamento do Estado e das Grandes Opções do Plano para 1987, destacando o estilo “polémico e contundente” das intervenções do ministro das Finanças, Miguel Cadilhe.

    O Governo minoritário de Cavaco Silva teve um “passeio político” nestes três dias de debate do Orçamento de Estado, pois a oposição por recear que o Executivo caia e possa haver eleições, direcionou os seus ataques para as Grandes Opções do Plano que “não fazem cair Governos”, alvitrou um governante.

    Já Cavaco Silva, numa conferência de imprensa ao princípio da tarde de hoje e no dia em que o Governo (:OOOOOOO) faz um ano desde que tomou posse, elogiou o Executivo e disse ter combatido as mais graves situações de injustiça social, prometendo melhores dias.

    O ator Eugénio Salvador, aos 78 anos, e depois de um enfarte sem consequências graves, regressa na sexta-feira ao papel do “Avô Cantigas”, um dos quadros mais divertidos da revista “Isto É Maria Vitória”, em cena no Teatro Maria Vitória.

  • 19 Nov 1986

    Miguel Cadilhe promete vida melhor com Orçamento do Estado para 1987

    Por João Pedro SerafimFoto LUíS VASCONCELOSFoto LUíS VASCONCELOS

    O ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, apresentou na véspera o Orçamento de Estado para 1987 na Assembleia da República, manifestando um otimismo prudente, mas garantiu que pelo segundo ano consecutivo pretende evitar “derrapagens”.

    Estratégia, progresso e controlo foram as três ideias mais marcantes do ministro no discurso proferido no Parlamento.

    Miguel Cadilhe referiu que “1986 foi o primeiro ano de efetivo cumprimento da nossa estratégia de progresso controlado”, o que na sua opinião “raramente aconteceu” ou mesmo nunca aconteceu nos 12 anos de democracia.

    Enquanto decorria a sessão no Parlamento, a Frente Comum de Sindicatos da Função Pública, afeta à CGTP-Intersindical, manifestou-se em frente ao Palácio de São Bento para exigir o direito à negociação coletiva e “uma revisão salarial justa”.

    Afinal, Kim Il-soung, o “grande líder” não foi assassinado. Apareceu no aeroporto de Pyongyang, na véspera, a receber o líder da Mongólia, Jambyin Ratmonh, que se deslocou ao país em visita oficial.

    Com a adesão à CEE, Portugal vai construir ou melhorar até 1989 cerca de 1.300 caminhos rurais, numa distância equivalente à de Lisboa a Bruxelas, beneficiando 290 explorações agrícolas.

    Em Portugal, estreou-se o filme RAN – “RAN - Os Senhores da Guerra”. Trata-se de uma obra-prima do japonês Akira Kurosawa, premiada em 1986 com um óscar pela Academia de Hollywood.

  • 18 Nov 1986

    Cunhal acusa Governo do PSD de capitular face à CEE

    Por João Pedro Serafim

    O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, afirmou hoje que o Governo do PSD “é de capitulação nacional” face à Comunidade Económica Europeia (CEE) e acusou a diplomacia portuguesa de “atrelar-se vergonhosamente” ao Executivo do presidente norte-americano Ronald Reagan.

    “(…) Quem decide são as instâncias superiores da CEE e dos Estados Unidos (…)”, disse Cunhal numa entrevista ao Diário de Notícias, alegando que a visita do Presidente da África do Sul, Pieter Botha, à Madeira é uma atitude “abertamente” antinacional.

    Álvaro Cunhal rompeu também o silêncio sobre a polémica aberta pelo líder do MDP, José Manuel Tengarrinha, sobre uma possível rutura no seio da Aliança Povo Unido (APU) para dizer que se o MDP a provocar “corre o risco” de perder grande parte do apoio popular que ainda tem no país.

    Na véspera, o representante do Ministério Público no julgamento do primeiro processo das “FP-25” no Tribunal de Monsanto disse que Otelo Saraiva de Carvalho fundou e dirigiu esta “associação terrorista, pelo que incorre numa pena que pode ir até 25 anos de prisão.

    Ao final da tarde, em Lisboa, o público poderá voltar a ver o filme “Kilas, o Mau da Fita” realizado em 1980, por José Fonseca e Costa, pode ser hoje visto no Instituto Franco-Português, em Lisboa.

    Neste filme, que se integra no âmbito do ciclo “A Descoberta de Lisboa”, participam, entre outros, os atores Mário Viegas e Lia Gama.

  • 17 Nov 1986

    Presidente da Coreia do Norte Kim Il-sung assassinado?

    Por João Pedro SerafimFoto LusaFoto Lusa

    Ao princípio da madrugada de hoje, hora de Lisboa, a BBC anunciou que o presidente da Coreia do Norte, Kim Il-sung, tinha sido assassinado, baseando-se em fontes do Ministério da Defesa da Coreia do Sul.

    Horas mais tarde, as forças norte-americanas estacionadas na Coreia do Sul desmentiram o atentado.

    As informações contraditórias sobre um atentado contra o líder da Coreia do Norte têm-se sucedido.

    O presidente da Coreia do Norte, Kim il-sung, ascendeu ao poder há 38 anos como primeiro-ministro e líder do partido dos trabalhadores.

    Nasceu em Pyongyang, a 15 de abril de 1912 e, entre 1931 e 1945 chefiou a resistência contra a ocupação japonesa, tendo tido como “O Grande Patriota”.

    Em 1973, o seu filho Kim Jong-iI, hoje com 44 anos foi promovido na hierarquia do partido e é tido como seu sucessor natural.

    Por cá, um estudo da Direção-Geral de Comércio Interno revela-nos uma alteração de hábitos em relação à carne consumida.

    Apesar dos portugueses consumirem menos carne do que os seus parceiros da Comunidade Económica Europeia (CEE), devido ao seu poder de compra inferior, há zonas em Lisboa onde estão a comprar carne fresca e da melhor.

    “Embora menos cara, a carne de bovino congelada está a perder clientes”, esclarece o estudo.

    Num mundo da literatura, a boa nova vai para “O livro do Desassossego” de Bernardo Soares - Fernando Pessoa que foi editado na Alemanha.

    O acontecimento literário mereceu um extenso artigo, sobre a vida e obra do poeta português, no jornal alemão “Frankfurter Rundschau”.

    E para alegrar ainda mais os portugueses, Rosa Mota venceu a oitava edição da Maratona de Tóquio para senhoras, batendo o recorde da prova.

  • 16 Nov 1986

    Novos salários dos funcionários públicos já são conhecidos

    Por João Pedro Serafim

    Os vencimentos dos funcionários públicos vão aumentar 11,7% em termos médios globais já em janeiro próximo, após o Governo ter alcançado há dois dias um acordo com a Frente Sindical da Administração Pública (FESAP), afeta à UGT.

    A atualização das pensões será também idêntica, de acordo com os jornais de hoje, que assinalam o facto de a CGTP-Intersindical ainda não ter chegado a um acordo.

    O acordo entre o Governo e os sindicatos da Função Pública afetos à União Geral dos Trabalhadores UGT), corresponde, segundo uma fonte governamental, ao entendimento obtido no Conselho Permanente de Concertação Social pelo Executivo, empresários e sindicatos.

    O aumento apontado para os vencimentos está em linha com a taxa de inflação esperada para 1987.

    No âmbito da cultura, o Diário de Notícias escreve que a atribuição do Prémio Nobel de 1986, ao nigeriano Wole Soyinka não constitui “a consagração de um escritor”, representa o reconhecimento da “cultura africana” ainda “tão mal compreendida e estudada” na Europa.

    Herdeiro de duas culturas, a africana e a inglesa, Soyinka, que nasceu em 1934, em Abeokuta, uma cidade próxima de Lagos, sempre recusou o casamento da “emoção negra com a razão branca”, sendo o primeiro africano a receber tal galardão.

  • 15 Nov 1986

    Funcionários públicos vão ser proibidos de fumar nos serviços

    Por João Pedro SerafimFoto INÁCIO ROSAFoto INÁCIO ROSA

    Os funcionários públicos vão deixar de poder fumar nos locais de trabalho, revela um diploma hoje difundido, sendo que se prevê que a medida entre em vigor a 1 de janeiro do próximo ano.

    O diploma, já elaborado, mas que aguarda a aprovação em Conselho de Ministros, assumirá a forma de Despacho Conjunto dos Ministérios do Plano e Administração do Território, Indústria e Comércio, Educação e Cultura, Transportes e Comunicações, e da Saúde, proíbe também a venda de tabaco a menores de 18 anos.

    Este conjunto de medidas que constam do “Plano de Prevenção Antitabágico”, elaborado pelo Conselho de Prevenção do Tabagismo e aprovado por Carlos Pimenta, atual secretário de Estado do Ambiente, deverá ser implementado faseadamente e a sua plenitude será alcançada apenas a partir de 1989.

    Ao nível da saúde pública, a Câmara de Lisboa, vai investir um milhão de contos nas infraestruturas destinadas a receber lixo da capital portuguesa, o que permitirá resolver o problema do tratamento do lixo na próxima década.

    Na política nacional, uma sondagem hoje publicada no Expresso indica que Ramalho Eanes (do Partido Renovador Democrático - PRD) é o líder com maior destacado entre os partidos da oposição ao PSD, tendo ultrapassado Vitor Constâncio.

    A sondagem, apesar da notoriedade de Eanes sobre Constâncio sinaliza que o PS continua à frente do PRD.

  • 14 Nov 1986

    Governo autoriza Estado a participar em 50% no capital da Lusa

    Por João Pedro Serafim

    O “pacote” de medidas governamentais para a Comunicação Social do Estado é já conhecido, sendo que o Conselho de Ministros, reunido na véspera, autorizou que a nova agência de notícias Lusa seja detida em 50% por capitais públicos.

    Neste sentido, a Lusa, cooperativa de interesse público, resultante da fusão entre a ANOP e a NP, será criada em substituição das duas agências de notícias atualmente existentes, com um capital total de 60 mil contos (299.278.74 euros), dividido em partes iguais pelo Estado e restante conjunto dos utentes da Comunicação Social.

    Do conjunto de medidas aprovadas consta ainda a venda do parque gráfico do “Diário Popular” e da quota que esta empresa tem no jornal desportivo “Record”, a alienação das oficinas do Anuário Comercial propriedade da Empresa Pública do Notícias e Capital (EPNC), a autonomia de decisão e programação da onda curta da RDP e o investimento de três milhões de contos (CONVERSÃO) na Televisão, a realizar entre em 1987 e 1988, por forma a cobrir todo o país.

    A venda dos bens públicos no setor da Comunicação Social Público contou com a oposição parlamentar à esquerda do PSD.

    O centro e norte do país, mas sobretudo a capital portuguesa, acordaram hoje varridos pela chuva e fortes ventos, que não causaram mortes, numa noite em que “Os Heróis do Mar” acompanhados da Orquestrada da Felicidade e do Brilho e da Glória atuaram no Jardim Cinema Loucuras, em Lisboa.

    O Diário Popular escreve, a propósito, “Tudo foi de loucura: a assistência e os artistas, o “jet-set” e a orquestra, os heróis e “A Canção do Mar”.

  • 13 Nov 1986

    Baixa de Lisboa muito vulnerável a sismos

    Por João Pedro SerafimFoto ANTÓNIO COTRIMFoto ANTÓNIO COTRIM

    Um estudo inédito a nível mundial no que respeita a cidades, a nova Carta Geográfica, permite hoje conhecerem-se as zonas mais vulneráveis a riscos sísmicos e a vulnerabilidade às cheias em Lisboa.

    A baixa lisboeta, com o seu subsolo de areias e aluviões, é mais perigosa em caso de um tremor de terra do que Monsanto, assente numa camada de calcário, sustenta um estudo da Direção-Geral de Geologia e Minas, que faz depender também o risco de perigo à qualidade da construção e da estrutura dos terrenos.

    A polémica política sobre a visita privada à Madeira do presidente sul-africano, Pieter Botha, que já está no Funchal, juntou agora o protesto da UGT e do MDP/CDE. O Parlamento aprovou um voto de protesto, mas o PSD e o CDS votaram a favor.

    A dar sinais positivos está a economia portuguesa, com o Inquérito Trimestral de Conjuntura ao Comércio do Instituto Nacional de Estatística (INE) a indicar que a atividade comercial, a retalho e por grosso, está a registar “uma reviravolta sensacional” do primeiro para o segundo trimestre deste ano.

    Pela negativa, está a saúde, com os especialistas preocupados sobretudo com vírus da SIDA: “A luta contra a doença será longa e, provavelmente, durará até à próxima geração”, diz Jonathan Mann, diretor do programa de Controlo da SIDA da Organização das Nações Unidas.

    No sábado, Plácido Domingo (tenor) e Gian Carlo Menotti (compositor) estreiam no Centro Kennedy, em Washington, a ópera “Goya”, baseada no lado romântico da vida do pintor, incluindo a “suposta ligação” à duquesa de Alba.

  • 12 Nov 1986

    Soares não foi ouvido sobre visita de Botha à Madeira

    Por João Pedro SerafimFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    O chefe de gabinete do presidente da República, Nunes Barata, disse hoje que Belém não foi informada da visita do presidente da África do Sul à Madeira e que “quaisquer excessos de afetividade” a Pieter Botha “não serão oportunos”.

    O embaixador e assessor diplomático do presidente Mário Soares recordou que a condução da política externa do país é da competência do Governo, liderado por Cavaco Silva, e que Belém ao ter conhecimento pelos jornais da estada na Madeira de Pieter Botha, manifestou ao primeiro-ministro a sua opinião sobre a matéria.

    Para o Governo Regional, chefiado por Alberto João Jardim, as comunidades portuguesas na África do Sul justificam o convite a Pieter Botha para uma visita de dois dias, após ter estado em Paris.

    Num dia de céu muito nublado em todo o país, há uma boa notícia. Os sinos dos carrilhões de Mafra voltam hoje às torres do convento, volvidos cerca de 13 anos de “silêncio forçado”.

    Terminados os trabalhos de restauro na oficina de um especialista em Asten, na Holanda, 31 dos sinos da torre sul do monumento, os sinos já chegaram ao Convento - afinados e limpos – sendo que quatro tiveram de ser refundidos.

    A montagem estará concluída no final do ano e o concerto inaugural está previsto para a primavera de 1987, pondo assim fim aos já apelidados “Carrilhões do Silêncio”.

    A possível exploração de petróleo no Algarve está a preocupar o deputado do PSD Mendes Bota, que diz estar em causa o turismo da região.

  • 11 Nov 1986

    Pieter Botha e a visita polémica à Madeira há 30 anos

    Por Emanuel Correia

    A ilha da Madeira recebeu há 30 anos, sob protestos da esquerda portuguesa, o então Presidente da África do Sul, Pieter W. Botha, que visitou a ilha a convite de empresários madeirenses e do ex-presidente do Governo Regional. Nesta deslocação, Pieter Botha fez-se acompanhar pela mulher, Elize Botha, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano, Roloef

    Ver Reportagem
  • 11 Nov 1986

    Adriano Moreira alerta para sinais de degenerescência do regime político

    Por João Pedro SerafimFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    O presidente do CDS, Adriano Moreira, alertou hoje para a existência de sinais de degenerescência do regime político em Portugal e que diz que há uma consolidação “de um corporativismo de gestores”.

    Em entrevista ao Diário de Notícias, Adriano Moreira referiu que um dos sinais é o da “personalização do Poder, esquecendo as instituições – pensar só em pessoas é um sinal sério”.

    Preocupada está também a União Distrital das Associações de Comerciantes, mas com o comércio alimentar dos pequenos lojistas e, por isso, vai debater e ouvir a sua situação e as suas queixas durante dois dias.

    Apesar do mal-estar, o comércio alimentar continua em Portugal a ser dominado pelas pequenas mercearias e não pelos supermercados: “As últimas estatísticas sinalizam que as mercearias vendem 51% do toral, enquanto os supermercados apenas 26%, embora nos comparemos mal com restantes países da Comunidade Económica Europeia (CEE).

    Na saúde, a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal, diz que a “diabetes mellitus” passou a ser uma “epidemia” e avisa que há 20 mil diabéticos ameaçados de cegueira.

    “Há 15 anos tínhamos 300 mil diabéticos, agora há 500 mil, e os especialistas apontam para o milhão em 2000”, refere um estudo da associação.

    O escritor José Saramago lança, na terça-feira, no Fórum Picoas, em Lisboa, o novo romance-fábula “A Jangada de Pedra”.

    A fábula anti-integração europeia, cita Galileu: “E pur si muoeve” (“E no entanto ela move-se”), neste caso Portugal e a Espanha e é tão só o reencontro com o seu destino ibérico, à deriva.

  • 10 Nov 1986

    Capucho diz que PSD está cada vez mais perto de uma maioria absoluta

    Por João Pedro SerafimFoto GUILHERME VENÂNCIOFoto GUILHERME VENÂNCIO

    O líder parlamentar do PSD, António Capucho, disse que o presidente da República, Mário Soares, tem exercido “um mandato excelente” e referiu que o partido persegue “uma maioria absoluta” para poder cumprir o seu programa.

    Entrevistado no programa “Nem mais nem menos” da RDP/Antena 1, Capucho afirmou que o PSD não quer eleições antes do fim da legislatura, rejeitou coligações e realçou que “o grau de popularidade de [Ramalho] Eanes é maior do que o de [Vitor] Constâncio, o que é mau para o PS”.

    “As sondagens recentes revelam que estamos a aproximar-nos rapidamente da maioria absoluta”, salientou o dirigente social-democrata.

    Em alta, está também o negócio de venda de material de guerra português ao Irão, com a Associação dos Países Árabes a lamentar hoje que o aeroporto de Lisboa “sirva, agora, para carregamento de armas” para o regime de Khomeni.

    Um avião “Jumbo” iraniano carregou esta semana material bélico no aeroporto de Lisboa e, nos últimos três anos, as vendas atingiram 20 milhões de contos [99.759.579,41 euros], pelo que a associação pede a “neutralidade” de Portugal no conflito irano-iraquiano.

    A partir de hoje e até sexta-feira, os 5.000 candidatos à carta do caçador podem fazer os exames exigidos pela nova Lei da Caça, juntando-se, caso “não levem chumbo”, aos 400 mil que têm licenças emitidas.

  • 09 Nov 1986

    Aurora Cunha conquista “tri” no Mundial de Estrada e Rosa Mota a prata

    Por João Pedro SerafimFoto ALFREDO CUNHAFoto ALFREDO CUNHA

    A atleta Aurora Cunha sagrou-se hoje campeã mundial pela terceira vez, reeditando os triunfos de Madrid (1984) e de Gateshead (1985), num lindo dia e num circuito à beira-Tejo, entre a Torre de Belém e a Estação Fluvial.

    Aurora Cunha percorreu os 15 quilómetros em 48 minutos e 31 segundos e Rosa Mota arrecadou a prata (48 minutos e 35 segundos), ambas sob os aplausos da multidão, enquanto a holandesa Carla Beurskens levou para casa a medalha de bronze.

    A nível internacional, o presidente sul-africano, Pieter Botha, endereçou ao novo presidente moçambicano, Joaquim Chissano, uma mensagem em que diz que o seu país quer melhorar as relações com Moçambique, à luz do acordo de Incomati, firmado em 1984.

    O Jornal de Notícias do Maputo, que divulgou na véspera esta mensagem, explica que o acordo de Incomati prevê que os dois países se comprometem a respeitar “um clima de boa vizinhança e não ingerência” e escreve que o Governo moçambicano exige que da África do Sul deixe de apoiar “o banditismo armado” da Renamo.

    Os “Pink Floyd” vão acabar. Roger Waters, um dos líderes da banda, tida como uma das mais influentes da música popular anglo-saxónica, iniciou no tribunal o processo de dissolução do grupo. As obras mais conhecidas, “Dark Side of the Moon” e “The Wall”, permanecem no tempo.

  • 08 Nov 1986

    Provedor da Justiça sueco faz relatório final sobre Olof Palme em Cascais

    Por João Pedro Serafim

    O Provedor da Justiça sueco, Per-Erik Nilson, passou esta semana num hotel de Cascais a elaborar o relatório final sobre as investigações do assassinato do primeiro-ministro da Suécia Olof Palme, baleado em Estocolmo em fevereiro deste ano.

    O semanário Expresso, que cita fonte bem colocada, diz que Nielson irá produzir “um relatório surpreendente” e que escolheu Portugal “por motivos de segurança” e para uma missão que “obriga a uma total discrição”.

    A polícia sueca desencadeou uma gigantesca operação de investigação para descobrir o autor do assassinato de Olof Palme, sendo que a imprensa sueca tem dito tratar-se de uma “conspiração chilena” e de envolvimento de um grupo de extremistas religiosos, quer de organizações de extrema-direita, quer de emigrantes curdos do partido clandestino PKK que vivem na Suécia.

    Ainda por cá, após dois dias de visita a Trás-os-Montes, o primeiro-ministro, Cavaco Silva, diz que “a situação de crise está a ser substituída por um clima de confiança” e que os capitais estrangeiros estão a afluir ao país.

    Portugal está a já vibrar com o 4.º Campeonato do Mundo Feminino de Estrada (15 quilómetros), que se realiza no domingo de manhã na zona de Belém, em Lisboa, onde participam as atletas portuguesas Aurora Cunha e Rosa Mota.

  • 07 Nov 1986

    Pensões vão subir 13% a partir 1 de dezembro

    Por João Pedro Serafim

    As pensões de invalidez e de velhice sofrem um aumento médio de 13% a partir de 1 de dezembro, incluindo o subsídio de Natal, revelou o Governo liderado por Cavaco Silva na véspera.

    Ao comemorar o primeiro ano de funções e num ambiente político em que a oposição fala numa remodelação do X Governo Constitucional, liderado por Cavaco Silva, este mostrou-se “satisfeito com todos os ministros”.

    Aos críticos garantiu que “se não estivesse plenamente satisfeito com algum dos ministros, já os tinha substituído”.

    Sobre o valor do aumento das pensões assegurou que “excede o nível da inflação de 9%” previsto para 1987.

    O valor da pensão mínima de invalidez e velhice do Regime Geral de Segurança Social é de 11.500 escudos (57,36 euros), mais 15%, e a do Regime Especial dos Trabalhadores Agrícolas é de 8.500 escudos (42,4 euros), mais 13,3%. E cerca de 510 mil trabalhadores agrícolas passam, a partir de 1 de janeiro, a integrar o Regime Geral da Segurança Social.

    Uma comissão presidida pelo economista Sousa Franco apresentará dentro de seis meses um livro branco sobre os regimes remuneratórios da Administração Pública Central, Regional e local.

    Na sua coluna de opinião “Espelho Mágico” Guilherme d’Oliveira Martins diz que “começa a ser tempo de falar de revisão Constitucional”, chamando a atenção para que a partir de finais de 1987 o parlamento ver-se-á investido de poderes para “introduzir aperfeiçoamentos” na lei fundamental. “Há, pois, que aproveitar o momento (…) para fortalecer o regime (…)”, concluiu.

  • 06 Nov 1986

    Portugal é um dos países na Europa mais desiguais no consumo

    Por João Pedro SerafimFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    Portugal é dos países da Europa onde a desigualdade é maior no consumo entre famílias mais pobres e mais ricas, uma diferença de rendimento que hoje é 33 vezes superior no caso das mais abastadas.

    Isabel Castro, do Instituto de Defesa do Consumidor, não tem dúvidas: “Em Portugal, as famílias de mais baixo rendimentos consomem 34 contos [169.59 euros] anuais, enquanto as mais ricas gastam 1.141 contos [5691,28 euros], ou seja, 33 vezes mais”.

    O que está em causa nesta comparação não é o rendimento, mas os gastos familiares, nomeadamente, em alimentação e renda de casa, de acordo com um estudo em que figuram a França, Itália, Grã-Bretanha e a Alemanha Federal (RFA).

    A queda de um jato da Força Aérea Portuguesa, a cerca de 17 quilómetros de Beja, veio ensombrar as notícias e a vida da pacata região alentejana.

    O avião, um “T-37”, idêntico aos que compõem a esquadrilha Asas de Portugal, sediado na base de Sintra, de onde partiu, para um voo de treino, circulou a baixa altitude o Monte da Zambujeira, Bringel, tentando depois uma aterragem de emergência.

    O capitão piloto-aviador Gil Afonso e o tenente piloto-aviador César Morais morreram no embate que causou a explosão do jato.

    Na área internacional, Joaquim Chissano foi investido no cargo de Presidente da República Popular de Moçambique, tendo afirmado o seu propósito de “dedicar todas as suas energias à defesa, promoção e consolidação das conquistas da Revolução e bem-estar do povo”.

    Sob uma chuva torrencial e uma grande multidão, o ato de posse foi marcado por uma salva de 21 tiros.

    Em Portugal, o X Governo Constitucional, com 49 membros e liderado por Cavaco Silva, completa hoje um ano. É já o quarto com maior longevidade desde o 25 de abril de 1975.

    Finalmente, o paquete Infante D. Henrique chegou ao Jardim do Cais do Tabaco, em Lisboa, cerca de nove meses depois de ter sido depositado numa lagoa artificial em Sines. Com o mesmo nome vai ser convertido em navio de cruzeiro para 800 passageiros. Os trabalhos de reparação deverão demorar cerca de dois anos.

    O realizador português Artur Ramos, a propósito do FesTróia, disse já ter passado por alguns festivais de cinema e de televisão, mas garantiu que “encontro um ambiente bonacheirão e despretensioso que me põe feliz. É uma excelente dosagem de fitas, conversas praia e sol”, salientou.

  • 05 Nov 1986

    Código de Barras está para ficar

    Por João Pedro Serafim

    O Código de Barras já anda por Portugal e hoje começou a ser debatido na Associação Portuguesa de Identificação e Codificação de Produtos, pois no futuro todos os produtos transacionados serão identificados desta forma.

    No dia em que se conheceu o plano de desenvolvimento do Governo para Setúbal que vai criar 45 mil postos de trabalho, José Maria Barroso, dirigente da Confederação da Agricultura Portuguesa (CAP) queixou-se que Portugal vai importar borregos da Nova Zelândia.

    E explica, “(…) chegarão a Portugal a 290 escudos [1,4 euros], peso morto (já em carcaça), quando o preço no mercado interno ultrapassa os 300 escudos [1,5 euros], peso vivo)”.

    Na véspera, o robalo custava mais de 2.000 escudos [10 euros] e se houvesse um livro Guiness nos mercados retalhistas de Lisboa, escreve o Diário Popular, o robalo passaria a constar nas suas páginas.

    Um simples quilo de robalo vendeu-se no “Mercado 24 de Julho” a 2.100 escudos [10,5 euros]. O robalo foi a primeira espécie de peixe que consta na informação da Câmara Municipal de Lisboa, ultrapassar a barreira dos dois contos. Nem a carne mais cara, o lombo de vaca, se aproxima.

    Em tempo de crise na Península de Setúbal, 18 meses é o tempo previsto pelo ministro do Plano e Administração do Território, Valente de Oliveira, para por a rolar o plano de desenvolvimento na região.

    Na área da comunicação social, a Igreja Católica fez constar que deseja ter um canal de televisão, a TV Católica, que só terá capital da Igreja.

    Mas, o país não para e o Governo liderado por Cavaco Silva decidiu que as reformas vão passar a ser pagas através de conta bancária.

    Vale do Lobo, no Algarve, entretanto, comemora as “Bodas de Prata”. Um dos mais conceituados polos de lazer do mundo tem, atualmente, mais de 700 proprietários e recebe anualmente mais de 150 mil visitantes de todo o mundo.

    Na música, o jazz está de luto. Morreu Eddie “Lockjaw” Davis, o saxofonista que tocou com Count Basie e com Ella Fitzgerald. Tinha 65 anos e sofria de cancro.

  • 04 Nov 1986

    Grande parte dos reclusos nas cadeias portuguesas são drogados

    Por João Pedro Serafim

    Cerca de 40% dos reclusos nas cadeias portuguesas tem ou teve contacto mais ou menos intenso com a droga, revela hoje o presidente do Instituto de Reinserção Social (IRS), Luís Miranda Pereira, em entrevista ao Correio da Manhã.

    Miranda Pereira adverte para o facto de este valor “não ser rigorosamente absoluto” por falta de estatísticas e diz que entre aqueles que consomem drogas ou tiveram contacto com elas, 10% a 15% têm problemas de drogas duras.

    A libertação no domingo, no Líbano, do refém norte-americano David Jacobsen, de 55 anos, após 17 meses de cativeiro é ainda notícia.

    Jacobsen, diretor do hospital da universidade de Beirute, esteve na base da Força Aérea norte-americana em Wiesbaden, na República Federal da Alemanha, depois de passar por Chipre e viajar para os Estados Unidos, tendo o grupo pró-iraniano Jihad Islâmica já reivindicado o sequestro.

    Os jornais falam de Joaquim Chissano, destacam a sua eleição por aclamação para presidente da FRELIMO e, por inerência, para presidente da República Popular de Moçambique, decisão que coube ao Comité Central da FRELIMO que se reuniu na véspera.

    Chissano falou, na ocasião, da construção do socialismo e do combate, bem como da erradicação ao “banditismo armado”, numa alusão à RENAMO, e defendeu “a restauração da paz no país”.

    Joaquim Chissano nasceu em 1939, em Chibuto, na província de Gaza, onde nasceu Samora Machel e tem atualmente 47 anos. No discurso reiterou ainda o combate contra “a fome, a corrupção, o mercado negro, a má gestão e a improdutividade”.

    Há oito anos retido numa baía artificial de Sines, o paquete “Infante D. Henrique” acabou por não ser libertado, pois o canal que lhe vai proporcionar a saída não tem os 4,5 metros de profundidade que são exigidos.

    O “Infante D. Henrique” vai ser um navio de cruzeiros. Lançado à água a 29 de abril de 1960, na Bélgica, é o maior paquete jamais encomendado por armadores portugueses. Agora foi comprado Giorgio Potamianus, representante da companhia panamiana Star Sea, que em 1985 comprou o navio Funchal por meio milhão de contos (2.493.989,49 euros).

  • 03 Nov 1986

    Maior prémio de sempre do Totoloto, mais de 140 mil contos (698.317 euros)

    Por João Pedro SerafimFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    O maior prémio de sempre no Totoloto saiu a dois apostadores, que graças ao “Jackpot” da semana passada, vão receber cada 70.955.071 escudos (353.922,4 euros).

    Os felizardos são Manuel Encarnação Silva, de 42 anos, pedreiro e residente na Póvoa de Santo Adrião e Moisés Novo Moreira, de 46 anos, comerciante de ferro-velho e morador na Batalha.

    Mas se uns ganham, outros mostram-se apreensivos com os negócios na Bolsa de Lisboa. O alerta vem do presidente da comissão diretiva da bolsa, Carlos Alberto Rosa, que declara na véspera haver “grande” pressão de investidores estrangeiros sobre o mercado português.

    Ao falar à noite no programa “Diretíssimo” do Rádio Clube de Leiria, no auditório D. Dinis, Carlos Rosa alerta para “a falta de confiança do investidor português” e diz que seria triste que por, tal motivo, que as empresas portuguesas “viessem a ficar nas mãos dos estrangeiros”.

    “Portugal é um país onde há muito dinheiro, mas também muita falta de iniciativa”, diz o responsável, apelando aos pequenos aforradores portugueses para investirem em ações, “um mercado que está em franca expansão”.

    A falta de confiança dos aforradores prende-se com o “crash” bolsista de 1974 onde muitos perderam as suas aplicações.

    No plano internacional, o Diário Popular diz que o “sucessor” de Samora Machel para presidência da República Popular de Moçambique é o ministro dos Negócios Estrangeiros, Joaquim Chissano. Machel morreu quando o avião em que seguia, um “Tupolev 134”, de fabrico soviético, se despenhou a 72 quilómetros de Maputo ao regressar da Zâmbia.

    A euforia no desporto Rei, o futebol, marca o dia, com o FC Porto a vencer na véspera o Sporting por dois golos. Entrada fulgurante de Dragão, num ambiente empolgante no Estádio das Antas e dois golos do “Bota de Ouro” Fernando Gomes, que põe o FC Porto a um ponto da Águia que tem 16 pontos.

    No próximo domingo, na Aula Magna da Reitoria de Lisboa, e pelo segundo ano consecutivo da Lisboa Jazz, herdeira do Cascais Jazz, atuarão o guitarrista Kevin Eubanks e o número um do saxofone alto Phill Hoods, que esteve no Festival de Cascais em 1980.

  • 02 Nov 1986

    Avião de Machel era velho e pilotos tinham bebido

    Por João Pedro Serafim

    O avião em que viajava o presidente da República de Moçambique, Samora Machel e que se despenhou perto de Maputo causando a sua morte, era velho e havia vestígios de álcool no sangue dos pilotos.

    A tripulação teve o seu trabalho dificultado por “instrumentos obsoletos”, pois pensava que estava a aterrar em Maputo quando se encontrava a 72 quilómetros de distância do aeroporto, disse na véspera o ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano, Pieter Botha, baseando-se em declarações prestadas por sobreviventes e outras fontes.

    O “Tupolev 134”, um avião de fabrico soviético, não estava equipado com um sistema automático de aviso de aproximação ao solo, revelou Botha, adiantando que havia vestígios de álcool no sangue de alguns tripulantes.

    Pieter Botha referiu também que não havia provas de qualquer explosão ou atividade anormal em qualquer momento, quando o avião se encontrava no ar de regresso a Maputo vindo da Zâmbia.

    Neste domingo, soube-se que Bettino Craxi, primeiro-ministro da Itália, de visita à China, se encontrou com o líder chinês Deng Xiaoping com quem debateu assuntos internacionais e que sete mulheres japonesas da seita “Amigos da Verdade” se imolarem pelo fogo, após a morte do seu líder espiritual Seija Miyamato.

    Miyamato morreu aos 61 anos vítima de cirrose hepática e sete das suas mais fiéis seguidores, uma das quais a sua mulher, imolaram-se pelo fogo, sendo escolhida para o dramático ritual a praia de Wakayama, a cerca de 650 quilómetros de Tóquio.

    A seita tem 70 pessoas e as mulheres chamam-se a si próprios as “noivas de Deus”.

    No ano em que Portugal e a Espanha aderiram à Comunidade Económica Europeia (CEE), apenas 1% dos televisores estão legalizados, o parque de televisões é de 2,5 milhões de unidades e 80% dos três milhões de lares no continente têm televisão. Os que têm aparelhos a cores são cerca de um milhão.

    Para deleite dos cinéfilos, no cinema Las Vegas do Pão de Açúcar de Alcântara passa o filme “Ana e as suas Irmãs” com Woody Allen, Micheael Caine e Mia Farrow, onde pontua o riso, a crítica, a ternura e o amor.

  • 01 Nov 1986

    Crise na Península de Setúbal é fruto da estatização diz Cavaco Silva

    Por João Pedro Serafim

    A crise económica e social na Península de Setúbal preocupa o primeiro-ministro português, Aníbal Cavaco Silva, a ponto de declarar, na véspera, que o distrito foi “afetado pela estatização”, o que originou a desconfiança dos empresários.

    Na visita de trabalho ao Montijo, o líder do Governo do PSD disse que “a Península de Setúbal atravessa uma situação de rutura porque, nos últimos dez anos, o Estado quis tomar conta dos meios de produção” e fazer aquilo que “não era da sua vocação”.

    Na ocasião, a contestação é protagonizada pelos reformados e trabalhadores da Centrel, mas Cavaco incita a iniciativa privada a voltar a investir e apela ao Estado para fazer, “aquilo que lhe compete”, administrar no interesse público.

    A atividade sindical está ao rubro e o Conselho Nacional da CGTP – Intersindical não só elege o novo secretariado formado por Manuel Carvalho da Silva, Manuel Correia Lopes, José Luís Judas, Jerónimo Rodrigues e Rosa Maria Marques, mas dá a conhecer o calendário das “jornadas de luta” para novembro.

    Na reunião do Conselho Nacional, a CGTP critica a ofensiva contra o setor empresarial do Estado e a reforma agrária, além de condenar o aumento do desemprego e utilização do trabalho infantil.

    A entrevista de 19 páginas que Cavaco Silva deu à revista trimestral francesa Politique Internationale de outubro de 1986 merece destaque nos jornais nacionais e nela se diz que o governante “é um homem que merece ser conhecido em França”.

    Ao jornalista Jean-Jacques Lafaye, Cavaco fala dos problemas da social-democracia e dos sindicatos e quando questionado sobre se era um tecnocrata respondeu que o tratavam assim porque era o primeiro dirigente de um partido português que não era advogado.

    Pedida a sua opinião sobre o regime salazarista, respondeu: “Salazar cometeu um grande erro de querer a todo o custo manter-se no poder” e “se tivesse a sabedoria de se retirar a tempo, teria ficado na lembrança dos portugueses como um grande homem”.

    Neste dia, a atriz Eunice Muñoz, com um elenco que integrava Rui Carvalho, Irene Cruz e Rogério Paulo, atuava no teatro D. Maria II e interpretava a peça “Mãe Coragem e os Seus Filhos”, de Bertolt Brecht, mas encenada por J. Lourenço.

  • 31 Out 1986

    Mota Amaral desafiado a demarcar-se de separatismo nos Açores

    Por Pedro FigueiredoFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    No Parlamento, o presidente do Governo Regional dos Açores, Mota Amaral, é desafiado a demarcar-se claramente dos movimentos separatistas da região autónoma e a mover um processo-crime contra o líder separatista açoriano José de Almeida que, em entrevista a um semanário, o classificou como “um agente duplo”, com quem manteve “vários encontros a sós”. José de Almeida admitiu ainda haver na sua organização quem preconizasse o “afrontamento ao nível das armas”. “Com efeito, José de Almeida revela na citada entrevista ter tido vários encontros secretos com Mota Amaral que, segundo o líder separatista, redigiu os estatutos da Frente de Libertação dos Açores (FLA)”, pode ler-se no Diário de Notícias (DN). Em conferência de imprensa na Assembleia da República, o socialista Almeida Santos lembrou que “é crime propor a separação de uma parcela do território da mãe-pátria”. Antes, o deputado do PCP José Magalhães envolveu-se no hemiciclo numa acesa polémica com o deputado açoriano Vargas Bulcão.

    Em Lisboa, o candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais apresenta em conferência de imprensa a “Fundação Portugal Século XXI”, um projeto que o próprio Freitas do Amaral encabeça e que se apresenta como um “centro de debate, fábrica de ideias, foco de informação, elemento revitalizador da sociedade e instrumento ativo de promoção cívica”.

    Quatro anos depois da guerra das Malvinas, que opôs o Reino Unido à Argentina pelo controlo das ilhas situadas no Atlântico Sul, a Argentina reacende o conflito com Londres, considerando “a decisão britânica de criar uma zona de exclusão em redor das Malvinas como uma agressão a um território de um país membro do TIAR [Tratado Interamericano de Assistência Recíproca]”, escreve o DN. A Argentina ameaçou levar o tema da “nova crise com a Grã-Bretanha aos organismos internacionais como as Nações Unidas, o Movimento dos Países Não Alinhados e a Organização dos Estados Americanos”.

  • 30 Out 1986

    Constâncio promete “programa de governo” do PS

    Por Pedro FigueiredoFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    Os sinais de que o governo minoritário de Cavaco Silva poderia estar a prazo avolumam-se. Em entrevista ao Diário de Notícias (DN), o líder do PS, Vitor Constâncio assegurava que até fevereiro de 1987 os socialistas estariam dotados de “um programa de governo”, que já começara a ser elaborado por um “gabinete sombra”, embora dissociando a iniciativa do espetro de eventual derrube do governo. “Esta preocupação dos socialistas denota que o maior partido da oposição se prepara para um confronto eleitoral a breve prazo ou para a substituição do governo no quadro parlamentar atual ? Vitor Constâncio não afasta nenhuma das possibilidades. Esclareceu, porém, que o objetivo essencial do programa a elaborar é diverso: ele pretende que as soluções para as grandes questões nacionais sejam debatidas e votadas nos órgãos do partido, de modo a prevenir eventuais situações de pressa eleitoral em que tal documento acabe por ser redigido em escassas duas semanas”, pode ler-se no DN.

    Em África sobem também de tom as acusações de responsáveis políticos à África do Sul relativamente à queda do avião que vitimou o presidente moçambicano, Samora Machel. O presidente zambiano Kenneth Kaunda tornara-se o primeiro chefe de Estado africano a acusar diretamente Pretória pelo sucedido – “devemos sublinhar que existem provas circunstanciais suficientes para responsabilizarmos diretamente a África do Sul”, disse, citado no DN.

    O Departamento de Estado norte-americano afirmou, por seu turno, “não ter provas que impliquem a África do Sul” na morte de Samora Machel.

  • 29 Out 1986

    Mário Soares convida José Eduardo dos Santos para visitar Portugal

    Por Pedro FigueiredoFoto LusaFoto Lusa

    Em Maputo para participar nas cerimónias fúnebres do presidente moçambicano Samora Machel, Mário Soares manteve com o seu homólogo angolano, José Eduardo dos Santos, o “primeiro encontro na qualidade de Presidente da República”. No final, Soares congratular-se-ia por estarem “criadas condições muito favoráveis para desenvolver as relações entre Portugal e Angola”. “A reunião, que durou cerca de 45 minutos, foi considerada por Soares como ´muito significativa´ pelo facto de não envolver apenas os dois chefes de Estado mas também os responsáveis pelas respetivas diplomacias, Pires de Miranda e Afonso Van Dunen. No final, Soares anunciou ter renovado o convite a Eduardo dos Santos para uma visita oficial a Portugal, referida como “muito provável” por fontes diplomáticas.

    Em Paris para “contactos com os setores mais conservadores de França”, o líder da UNITA, Jonas Savimbi, “reuniu-se com alguns correspondentes portugueses a quem informou que da recusa de visto por parte da embaixada portuguesa para se deslocar a Portugal”.

    Na Assembleia da República, Fernando Amaral era reeleito presidente da instituição, com 131 votos favoráveis, dos 187 deputados que participaram no escrutínio. “O deputado social-democrata é o primeiro parlamentar a ser eleito para terceiro mandato desde o 25 de abril de 1974 e necessitava de que os votos favoráveis fossem mais de metade dos expressos”, noticiava o Diário de Notícias.

  • 28 Out 1986

    Frelimo promete construir o país sonhado por Machel

    Por Pedro Figueiredo

    O vespertino Diário de Lisboa (DL) pôde reproduzir na sua edição os momentos mais marcantes das cerimónias fúnebres do presidente moçambicano, Samora Machel. “Juramos construir o Moçambique que sonhaste”, titula o diário a toda a largura da primeira página, reproduzindo as palavras do “número dois” da Frelimo, Marcelino dos Santos, a quem coube fazer o “elogio fúnebre do presidente. “Durante a leitura, Marcelino dos Santos comoveu-se por diversas vezes ao recordar a ação e a figura de Samora Machel. O número dois da Frelimo apontou como objetivos de ação a liquidação do ´banditismo armado´ e da ´agressão externa´. ´Juramos construir o Moçambique com que sonhaste, desenvolvido e próspero, a pátria socialista moçambicana´”, começa por relatar o enviado do DL, José António Cerejo. “O cortejo fúnebre começou a movimentar-se do Palácio do Conselho Executivo para a Praça dos Heróis, que será a última morada de Machel quando faltavam cinco minutos para as 11 horas locais. O céu estava cinzento e caía uma chuva miudinha: um tempo que faz recordar o que diz o povo do Sul de Moçambique, ou seja, se chove nas vésperas ou no dia em que alguém vai a enterrar é porque essa pessoa só podia ser boa”, escreve o jornalista.

    Em Portugal, a subcomissão parlamentar para a TV privada ouvia o ex-primeiro-ministo Francisco Pinto Balsemão, “uma das partes interessadas na concessão de um canal à iniciativa privada”. “O consórcio representado por Balsemão, denominado SIC (Sociedade Independente e de Comunicação) é constituído por empresas jornalísticas, entre elas as que editam o semanário ´Expresso´ e ´O Jornal´, a que se deverão juntar outras do setor audiovisual”, escreve o DL.

  • 27 Out 1986

    Governo reduz empresas públicas de comunicação social

    Por Pedro FigueiredoFoto ANTÓNIO COTRIMFoto ANTÓNIO COTRIM

    “Jornais, rádio e TV: governo cede ao setor privado”, titula o Diário de Lisboa (DL), noticiando o decreto-lei governamental “que regula a reprivatização das empresas públicas de comunicação social”. “O referido diploma, hoje publicado em Diário da República, manifesta a intenção governamental de reduzir o setor público de comunicação social a um jornal diário, um canal de TV e um canal de rádio”, pode ler-se. “No preâmbulo ao presente diploma, assinado pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro, o governo destaca ser seu objetivo prioritário a redução do setor público de comunicação social de forma que ao Estado passe a pertencer apenas um jornal, um canal de televisão, um canal de rádio e uma agência noticiosa”, escreve o DL. “Quanto às agências noticiosas, o processo de fusão da Anop com a NP está praticamente concluído, pelo que ficam cumpridas as intenções governamentais. No que se refere aos jornais, a intenção de manter apenas um diário na dependência do Estado aponta para a reprivatização do ´Jornal de Notícias´, do ´Comércio do Porto´, de ´A Capital´ e do ´Diário Popular´, devendo ficar o ´Diário de Notícias´ como único jornal estatizado”, refere ainda o vespertino.

    O Presidente da República tinha chegado entretanto à capital moçambicana, encabeçando uma “delegação de 40 elementos” de que também fazia parte o ex-Presidente português Ramalho Eanes, para participar nas cerimónias fúnebres de Samora Machel. “Os restos mortais de Samora Machel encontram-se desde sexta-feira em câmara ardente no salão nobre do Conselho Executivo da capital moçambicana, por onde passaram já centenas de milhar de pessoas. O luto não faz esquecer, contudo, as dúvidas existentes quanto às causas do desastre que vitimou Machel, tendo as autoridades moçambicanas responsabilizado a África do Sul pela morte do seu líder”, escreve o DL.

  • 26 Out 1986

    Portugal e Espanha ultrapassam “pequenos contenciosos”

    Por Pedro Figueiredo

    Em Guimarães, na primeira cimeira entre os dois países desde a adesão à CEE, Portugal e Espanha “superam ´pequenos contenciosos´”, como titula o Diário de Notícias (DN). “Os primeiros-ministros de Portugal e Espanha ultrapassaram ontem [sábado] em reunião cimeira na cidade de Guimarães, ´pequenos contenciosos existentes entre ambos os Estados´, os quais eram impeditivos de um relacionamento normal, segundo as palavras de Felipe González, corroboradas por Cavaco Silva, no final do encontro”, escreve o DN, em notícia de primeira página ladeada por uma fotografia dos dois responsáveis políticos num intervalo do encontro, aproveitado para “observar o panorama da cidade de Guimarães”. O comunicado oficial da cimeira sublinha ainda que os dois países concordaram “na necessidade de reduzir os desequilíbrios financeiros existentes ao nível das trocas comerciais, no quadro de um crescimento harmónico”.

    À margem da cimeira foi também notícia a tentativa de manifestação de “uma centena” de trabalhadores têxteis com salários em atraso”, reprimida com uma “carga policial, da qual resultou um ferido com alguma gravidade”. O Sindicato dos Jornalistas aproveitou também a oportunidade para divulgar um documento comparando a situação salarial dos jornalistas portugueses e dos seus congéneres espanhóis. “O órgão representativo dos jornalistas portugueses diz, num documento distribuído no final da cimeira luso-espanhola, que os profissionais de informação de Portugal ´ganham em média seis vezes menos que os seus camaradas europeus”.

  • 25 Out 1986

    Portugal e Espanha reúnem-se pela primeira vez após adesão à CEE

    Por Pedro Figueiredo

    Na primeira página do Diário de Notícias (DN), o destaque é atribuído para a “barreira de silêncio” em torno dos “temas a tratar durante a cimeira luso-espanhola, a decorrer em Guimarães” – “a primeira que se realiza depois da adesão de Portugal e da Espanha à CEE e em que os dois países, a nível de chefes de governo, procuram novos caminhos para o futuro”, pode ler-se. “Não se trata de negociações propriamente ditas, mas da análise de dossiers sobre várias áreas que vão desde a cooperação no setor industrial, às relações comerciais e culturais. Temas como as pescas e as regras de origem não serão abordados”, afiança ainda o jornal.

    Em Setúbal, os “trabalhadores rurais dos distritos da zona da Reforma Agrária” concentraram-se em frente ao Governo Civil “e procederam à distribuição de um documento em que sob o título ´Apelo ao Povo Português´, chamam a atenção para o que consideram a ´ilegalidade dos assaltos do governo contra a Reforma Agrária”. “As ilegalidades do governo vão ao ponto de desprezar e recusar a aplicação de 356 acórdãos do Supremo Tribunal Administrativo favoráveis às unidades coletivas de produção e cooperativas, chegando-se a pretender retirar áreas de reserva superiores às que restam às UCP”, pode ler-se no DN.

    Em Maputo, começa a ganhar corpo a tese de que a queda do avião em que seguia o presidente moçambicano fora provocada por um atentado. “A imprensa oficial moçambicana atribui a Pretória a responsabilidade pelo acidente aéreo que vitimou o Presidente Samora Machel. Segundo os observadores, esta tese é perfilhada pelas autoridades de Maputo, que não aceitam a hipótese de acidente”, escreve o DN.

  • 24 Out 1986

    Eanes admite que PRD desperdiçou “capital de esperança”

    Por Pedro FIgueiredo

    Numa entrevista premonitória publicada pelo Diário de Notícias (DN), o recém-eleito líder do Partido Renovador Democrático (PRD), Ramalho Eanes, admitia que partido tinha “cometido erros” e desperdiçado “capital de esperança”. “Julgo que o PRD desperdiçou algum capital de esperança. A população exigiu muito dele ao oferecer-lhe 18 por cento [dos votos, mas eleições legislativas de 1985]”, comentou então o ex-Presidente da República. Nas eleições legislativas de 1987, que deram ao PSD e a Cavaco Silva a sua primeira de duas maiorias absolutas consecutivas, o PRD perderia o apoio de mais de 760 mil eleitores em relação ao escrutínio de 1985, ficando reduzido a 4,91 por cento dos votos e a uma bancada parlamentar de sete deputados (contra os 45 mandatos de que ainda dispunha no hemiciclo de São Bento).

    Em Pequim, terminava a terceira ronda de conversações entre delegações governamentais portuguesas e chinesas sobre o futuro de Macau, com o DN a noticiar a existência de uma “ampla convergência de posições”. “As delegações dos dois países decidiram criar um grupo de trabalho delas dependente, que iniciará o seu funcionamento em Pequim, ´num futuro próximo´ (…) com o objetivo de ´proceder à discussão e revisão pormenorizada dos projetos de acordo apresentados nas conversações sino-portuguesas”, escrevia o DN.

    A imprensa do dia retomava ainda o tema incontornável da morte do presidente moçambicano, indicando não existirem “indícios de explosão no ´Tupolev´ em que viajava” Samora Machel”. “A hipótese de a torre de controle do aeroporto de Maputo ter tido alguma influência no desastre de aviação que vitimou o presidente de Moçambique está absolutamente afastada. Também não existem indícios de que se tenha registado qualquer explosão no aparelho ou que tenha sido atingido por projéteis”, escrevia o DN. “De acordo com fontes moçambicanas não oficiais, tudo aponta para que tenha havido um erro humano na causa do acidente, embora restem por esclarecer muitos pormenores”, pode ainda ler-se. O nome de Joaquim Chissano começa a surgir como a hipótese mais provável para suceder a Samora Machel na chefia do Estado moçambicano.

  • 23 Out 1986

    Mário Soares nas cerimónias fúnebres de Samora Machel

    Por Pedro FigueiredoFoto LusaFoto Lusa

    A imprensa do dia noticia que Portugal se fará representar nas cerimónias fúnebres do presidente moçambicano, Samora Machel, por uma delegação chefiada pelo chefe do Estado, que integra ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros, Pires de Miranda, além de “convidados pessoais de [Mário] Soares e as delegações partidárias”, como escreve o Diário de Notícias (DN). Paralelamente, o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) estava a analisar um pedido de Otelo Saraiva de Carvalho “para assistir ao funeral” de Samora Machel. “Romeu Francês [advogado de Otelo] disse que o tribunal que, há um ano, está a julgar o caso FP-25 considerou que “qualquer saída precária que venha a ter lugar é da competência das autoridades militares”, pode ler-se no DN. Entretanto, a embaixada sul-africana em Lisboa adiantou que “a investigação preliminar da queda do avião” em que seguia Samora Machel “será efetuada por representantes da África do Sul, Moçambique e União Soviética”.

    A recente reunião entre delegações governamentais de Portugal e China sobre o futuro de Macau continuava a ser notícia, com o DN a avançar que Lisboa e Pequim “terão já chegado a acordo em que a transferência da administração de Macau se verifique em data posterior à da integração na soberania chinesa de Hong Kong, fixada, por acordo entre as autoridades chinesas e britânicas, para 1997”. “A pretensão portuguesa acerca da diferenciação dos processos negociais de Hong Kong e Macau era já conhecida, havendo indicações anteriores de que Pequim estaria em princípio de acordo em distanciar as datas de transferência de poder, embora rejeitando a proposta de Lisboa de que fosse dilatada para além do ano 2000”. A transferência acabaria por se realizar a 20 de dezembro de 1999.

  • 22 Out 1986

    Funeral de Samora Machel marcado para 28 de outubro

    Por Pedro Figueiredo

    Em Maputo preparam-se as cerimónias fúnebres do presidente moçambicano e das restantes vítimas do acidente aéreo. O funeral de Samora Machel, noticia o DN, foi agendado para dia 28. Começam entretanto a emergir os primeiros pormenores dos acontecimentos e a acender-se a querela sobre as causas. A imprensa sul-africana, citada pelo DN, admite que o acidente se deveu a um “provável erro de localização” por parte do “piloto soviético que dirigia o Tupolev 134A” onde seguia Samora Machel. Terá “tomado erradamente as luzes de uma pequena cidade sul-africana pelas de Maputo, momentos antes de embater contra uma montanha”. “Aparentemente, o piloto tomou erradamente as luzes de Komatipoot pelas de Maputo (…) em vez de virar para leste, em direção a Maputo, voltou para ocidente, rumo ao espaço aéreo sul-africano”, refere o DN. “Investigadores dizem que o despenhamento aconteceu após uma tentativa falhada para aterrar em Maputo. Acrescentaram que o piloto falhou a primeira tentativa de aproximação para aterrar e fez um voo em círculo para efetuar uma nova. Um controlador de tráfego aéreo em Maputo afirmou que o piloto havia comunicado que já avistava a pista quando pretendia fazer a segunda tentativa e momentos depois comunicou que a ´havia perdido´”, pode ainda ler-se. “Os controladores disseram-lhe, então, para fazer uma aproximação com base nas indicações fornecidas pelos instrumentos, mas o piloto respondeu que não podia captar os rádio-faróis do aeroporto de Maputo. Pilotos que operavam na faixa aérea próxima de Komatipoort revelaram que o acidente ocorreu durante uma violente trovoada, o que poderá ter afetado os instrumentos do aparelho”, prossegue o DN. O Diário de Lisboa (DL) adiantava, por seu turno, que o presidente da Zâmbia, Kennet Kaunda, responsabilizava a África do Sul pelo acidente e em Harare “milhares de negros zimbabueanos desfilaram pelas ruas e atacaram escritórios sul-africanos e malauianos”.

    Em Portugal, Freitas do Amaral falava pela primeira vez à imprensa desde a derrota nas últimas eleições presidenciais frente a Mário Soares, admitindo um “regresso à atividade política”. “Freitas do Amaral disse não pretender ´ficar reduzido´ à perspetiva de se candidatar de cinco em cinco anos à Presidência da República, admitindo outras formas de intervenção na vida política ativa”, escreve o DN.

  • 21 Out 1986

    Samora Machel morre em acidente aéreo

    Por Pedro FigueiredoFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    A morte trágica do presidente moçambicano, Samora Machel, num acidente de avião faz manchete em toda a imprensa nacional do dia. “Consternação em todo o mundo pela morte de Machel”, escreve o Diário de Lisboa (DL), “Frelimo reunida em Maputo procura sucessor de Machel”, noticia o Diário de Notícias (DN). “O avião que transportava o presidente moçambicano, Samora Machel, de regresso da reunião da Linha da Frente, na Zâmbia, despenhou-se domingo à noite na província sul-africana de Natal, revelou ontem [segunda-feira] um comunicado governamental. O aeroporto de Maputo foi encerrado a todo o tráfego aéreo na sequência da queda do avião”, podia ler-se no DN. As informações eram ainda escassas, sabendo-se apenas que Samora Machel viajava juntamente com 37 pessoas num “bimotor ´Tupolev´ de fabrico soviético, que “fazia a rota Beira-Maputo através da costa”, “utilizada frequentemente no regresso da Zâmbia”. Os corpos das vítimas do acidente, entre os quais o do presidente moçambicano, tinham começado a chegar a Maputo e uma delegação moçambicana tinha já partido para a África do Sul com o intuito de “apurar as causas do despenhamento”. O DN cita uma fonte anónima que fala numa “coincidência muito estranha”, apesar de admitir que os elementos disponíveis apontam para “um acidente”. Em Londres, o Presidente da República, Mário Soares, dava conta da sua consternação pelo desaparecimento de “um amigo de Portugal e um homem que soube ultrapassar todos os ressentimentos”. “Mário Soares indicou que ontem [segunda-feira] de manhã esteve em contacto telefónico com o primeiro-ministro, Cavaco Silva, para se inteirar da situação”, adianta o DN.

    Em Pequim iniciava-se a terceira fase das conversações entre delegações governamentais portuguesas e chinesas sobre o processo de transferência de Macau para a China. “Fontes diplomáticas têm indicado como provável que até final do ano fique concluída a negociação sobre parte significativa do futuro acordo, o qual deverá ser formalmente assinado em 1987”, noticia o DN.

  • 20 Out 1986

    Ramalho Eanes contra “crises artificiais”

    Por Pedro FigueiredoFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    "Usando pela primeira vez da palavra" como líder do PRD, perante "uma assembleia completamente presa das suas palavras" no encerramento da II Convenção renovadora, Ramalho Eanes declarou a indisponibilidade do seu partido para "promover crises artificiais", afirmando o empenho dos renovadores em que avolumem crises "criadas por terceiros". Numa intervenção "longa e com duas partes distintas", o ex-Presidente da República lembrou que o PRD "viabilizou o executivo chefiado por Cavaco Silva" e salientou "que tem consentido na sua manutenção por ser 'oposição responsável'". "Depois, acrescentaria que os renovadores 'não desejam eleições antecipadas por serem nocivas à democracia e ao país' e não 'por terem dúvidas' ou 'falta de confiança no resultado' de uma consulta ao eleitorado", pode ler-se no DN.

    No encerramento do congresso da JSD, Cavaco Silva "fez a análise da atual política governamental" e afirmou o PSD como "o partido do diálogo", mas que não receia o veredicto popular. "Portugal não precisa de mais crises políticas. Se esses que anunciam as crises insistirem nos seus intentos, aguardaremos com serenidade que se faça o apuramento da vontade generalizada do povo português", declarou o líder do PSD.

    De partida para uma viagem de oito dias à Áustria, Hungria, Roménia, Bulgária e Checoslováquia, o líder do PCP, Álvaro Cunhal, assegurou: "a luta em defesa da democracia e por uma alternativa democrática em Portugal vai intensificar-se".

  • 19 Out 1986

    Convenção do PRD decide “restrição à liberdade de voto” dos deputados

    Por Pedro Figueiredo

    Na convenção do PRD, a decorrer no Porto, foram necessárias "sete horas de debate" para aprovar os estatutos do partido, que alargaram o âmbito das matérias em que passaria a ser observada a disciplina de voto. "A restrição à liberdade de voto dos deputados e as questões da autonomia das organizações de juventude e dos trabalhadores do partido foram os pontos que mais polémica desencadearam entre os participantes. Até agora, os deputados do PRD só não tinham liberdade de voto em questões como programas de governo, moções de censura e de confiança, grandes opções do plano e orçamento e, mesmo assim, só no caso de governo de que o PRD fizesse parte", escrevia o DN.

    À margem da "visita particular" que efetuava ao Reino Unido, o Presidente da República, Mário Soares tinha agendado um encontro no início da semana com a primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher. "Admite-se que os dois dirigentes abordem questões ligadas à situação na África Austral e troquem informações sobre a cimeira de Reiquejavique [entre o presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o seu homólogo soviético, Mikhail Gorbachev]", escrevia o correspondente do Diário de Notícias em Londres, Fernando de Sousa. Na semana seguinte, Soares seguiria para Paris, onde tinha já agendada um encontro com o seu homólogo francês, François Miterrand.

  • 18 Out 1986

    Constâncio diz que PS está “pronto para assumir suas responsabilidades”

    Por Pedro FigueiredoFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    A escalada verbal que sinalizava já o fim prematuro do governo minoritário chefiado por Cavaco Silva intensifica-se. "O líder socialista, Vítor Constâncio, disse ontem [sexta-feira] que, em caso de crise, o PS ' está preparado para assumir as suas responsabilidades, incluindo responsabilidades governativas. O secretário-geral do PS, que falava à chegada a Lisboa, vindo da Alemanha Federal, reafirmou que a situação do governo 'é precária e não se pode prolongar por muito tempo'", escreve o Diário de Notícias (DN). Na mesma ocasião, Vítor Constâncio admitia que antecipar as eleições não era "a única saída". "Adiantou que os socialistas 'não têm receio de eleições, pois as sondagens dão um aumento de votação no PS".

    No Porto, Cavaco Silva criticava asperamente a obstaculização à ação do executivo verificado no Parlamento. "Ao inviabilizar o diploma do governo, certa oposição pretende que continuem a verificar-se os desperdícios de milhões de contos que poderiam ser aplicados na criação de postos de trabalho", lamentou então Cavaco Silva.

    Há 30 anos, em Budapeste, numa "reunião de pilotos espaciais" o antigo astronauta norte-americano Russel Schweikart salientava a sua convicção de que "o homem poderá viver e trabalhar no planeta Marte num futuro não muito distante. "Segundo Schweikart, que tripulou a nave Apolo 8, o nível já atingido pela técnica humana permitirá brevemente aos jovens de hoje viver e trabalhar amanhã em Marte", asseverou o astronauta, citado pelo DN.

  • 17 Out 1986

    Orçamento para 1987 privilegia investimento e redução da inflação

    Por Pedro Figueiredo

    A proposta de Orçamento do Estado para 1987, entregue na véspera na Assembleia da República, começava a ser esmiuçada pela imprensa, que falava na aposta do governo em “reduzir a inflação e reforçar o investimento produtivo”. “O défice previsto no Orçamento atinge 434,5 milhões de contos, o que equivale a 8,9 por cento do PIB (...) Em 1987, as necessidades de financiamento, incluindo juros, elevam-se a 617,1 milhões de contos 12,6 por cento do PIB), enquanto as amortizações de dívida ascendem a 182,6 milhões de contos. A dívida pública no próximo ano está estimada em 3365,3 milhões de contos, o equivalente a 68,9 por cento do produto interno bruto”, escrevia o DN. No documento, o executivo previa uma inflação entre oito e nove por cento e uma ligeira aceleração do crescimento do PIB, para quatro por cento.

    O executivo minoritário chefiado por Cavaco Silva somava revezes na Assembleia da República no arranque da nova sessão legislativa. Na mesma sessão foram chumbados pela oposição o decreto-lei que extinguia a Companhia Nacional de Petroquímica, o diploma que desmembrava a Empresa Pública de Abastecimento de Cereais (EPAC) e o decreto-lei que criava a nova empresa de silos portuários, a Silopor.

    Partido sensação das eleições legislativas de 1985, o PRD iniciava no Porto a sua II Convenção, conclave em que foi apresentado o programa do partido "contemplando oito grandes capítulos, da organização político-administrativa do Estado (que inclui a reforma constitucional) à política externa e de defesa, passando pelo modelo de desenvolvimento socioeconómico, pelas questões da regionalização, de trabalho e relações laborais, política social e educação, ciência e tecnologia e cultura e comunicação social" - como se pode ler no Diário de Notícias (DN). O momento alto da reunião magna do PRD estava agendado para domingo, dia em que o ex-Presidente da República Ramalho Eanes iria ser eleito para a presidência do partido.

  • 16 Out 1986

    Cavaco pede “estratégia de ataque à oposição”

    Por Pedro Figueiredo

    No encerramento das jornadas parlamentares do PSD, Cavaco Silva endurecia o discurso e propunha uma “estratégia de ataque à oposição” – como titula o Diário de Notícias (DN). “O primeiro-ministro considerou que a atual oposição da Assembleia da República representa “a esquerda arqueológica” e que “a esquerda moderna está no Partido Social Democrata. O presidente do PSD disse que a AR ‘será o palco privilegiado da oposição’ nos próximos tempos, acrescentando que essa oposição procurará ‘chamar a atenção sobre si própria’, frisando que a sua preocupação “não serão os portugueses”. A menos de um ano do derrube do governo minoritário que então chefiava, Cavaco Silva frisou ainda que os sociais-democratas só admitiam um novo executivo “após a atualização da vontade popular, através do voto”.

    “Agência de Notícias Lusa arranca dia 01 de Janeiro”. O título do DN reproduzia a garantia deixada pelo secretário de Estado da Comunicação Social, Marques Mendes, na cerimónia de posse da comissão instaladora da Lusa, que começaria a funcionar em pleno a 01 de janeiro de 1987. “Marques Mendes considerou que a solução encontrada para o problema das agências foi ‘a melhor’, insistindo na existência de ‘consenso’ e no ‘diálogo’ entre as duas partes”, escreve o DN.

    Três soldados soviéticos sorridentes com o anunciado regresso a casa, de arma a tiracolo, diante de um veículo blindado ilustravam em foto de primeira página no Diário de Notícias (DN) a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão. “A União Soviética deu início à prometida retirada de seis batalhões das suas forças militares no Afeganistão, cerca de oito mil homens, conforme fora previamente anunciado por [Mikhail] Gorbachev”, regista o DN.

  • 15 Out 1986

    Cavaco elogia Soares e ataca oposição

    Por Pedro Figueiredo

    “Cavaco ´cola-se´ à popularidade de Mário Soares e ataca oposição”. A manchete do Diário de Lisboa (DL) traduz os “elogios ao Presidente da República” e o “ataque cerrado a toda a oposição” feito pelo então primeiro-ministro e líder do PSD, Cavaco Silva, no encerramento das jornadas parlamentares sociais-democratas. “Se sobre o PCP a atuação esperada será ´muito clara´ visando a substituição do governo, ´mas sem eleições´, já quanto ao PS a ideia é de que ´procurará conquistar o direito a ser polo da oposição´. Para tal, prossegue Cavaco, ´o PS inventará todos os dias a sua pequena crise´ e ´vai exigir todos os dias a presença do governo na Assembleia da República para lhe dificultar as suas funções”, escreve o DL. ”Assistiremos a uma luta entre o PS, PRD e PCP pela liderança da esquerda”, vaticinou ainda Cavaco Silva, criticando também o CDS por “não identificar os seus adversários”. Apresentando o PSD como “um referencial de estabilidade e progresso”, o então primeiro-ministro elogiou o Presidente da República, Mário Soares, e a “correspondência no diálogo” que por aqueles dias evidenciavam as boas relações com Belém.

    Na véspera, na habitual “reunião semanal com os jornalistas acreditados em Belém”, o chefe da Casa Civil de Mário Soares, Alfredo Barroso, aproveitou para esclarecer que o Presidente da República “não emite juízos de valor sobre a atuação do governo” e “não fará pública ou privadamente qualquer apreciação à política do executivo”. “Se o fizer, fá-lo-á diretamente ao primeiro-ministro nos momentos adequados”, disse. A clarificação surgiu após uma “inconfidência do Presidente da Venezuela”, Jaime Lusinchi, que terminara dias antes uma visita oficial a Portugal. “Segundo Alfredo Barroso, o Presidente Soares informou o seu homólogo venezuelano do ´clima de apreciável estabilidade política que atualmente se vive em Portugal, da conjuntura económica favorável à criação de melhores condições de bem estar social e das melhores relações institucionais que mantém com os demais órgãos de soberania”.

  • 14 Out 1986

    Constâncio diz que PS pode “desencadear crise política”

    Por Pedro FigueiredoFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    A escassos meses de o governo ser derrubado através da aprovação de uma moção de censura no Parlamento, o líder socialista intensifica a pressão sobre o executivo minoritário chefiado pelo social-democrata Cavaco Silva. “O PS está disposto a desencadear uma crise política”, disse Vitor Constâncio, de partida para Madrid, onde iria encontrar-se com o primeiro ministro espanhol e líder do PSOE, Felipe Gonzalez. O líder socialista justificou a posição do PS com uma situação política nacional que considerou “precária” e que não podia “durar por muito mais tempo”. “O secretário geral do PS disse que a crise será provocada ´se o governo continuar com estes procedimentos de distorção dos mecanismos democráticos´, ou seja, ´o secretismo das decisões, o controlo da informação e a passividade e a falta de transparência na política externa”, podia ler-se no diário. “A situação política agravou-se ultimamente, o Governo acentuou a guerrilha institucional com o Parlamento e existem índices de descoordenação de política, com os ministros a utilizarem critérios diferentes”, afirmou então Vitor Constâncio.

    Na sua edição, o DN regressa ao tema internacional do momento – a cimeira de Reiquejavique entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchev – para noticiar as palavras do secretário de Estado norte-americano, George Schultz, para quem o encontro entre os dois protagonistas da Guerra Fria tinha sido afinal um “tremendo sucesso”. “Foi um tremendo sucesso, na medida em que, apesar da falta dos acordos, foi possível colocar todas as questões de uma forma tão precisa que não deixará de ter consequências para a continuidade das conversações”, declarou então o responsável norte-americano, numa reunião na sede da Aliança Atlântica, em Bruxelas.

  • 13 Out 1986

    “Guerra das Estrelas” compromete cimeira da Islândia

    Por Pedro Figueiredo

    “´Guerra das Estrelas´ impede êxito na Islândia”. A manchete do Diário de Notícias dava conta da deceção perante os resultados da cimeira que, durante 11 horas, juntou na capital da Islândia o presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o seu homólogo soviético, Mikhail Gorbachev. “Quase chegaram a acordos de amplo alcance sobre controlo de armas, mas abandonaram o esforço devido a um conflito sobre a Iniciativa de Defesa Estratégica”, podia ler-se no DN. “Tornou-se cada vez mais claro que o objetivo da União Soviética era acabar, efetivamente, com o programa SDI (Iniciativa de Defesa Estratégica, mais conhecida por Guerra das Estrelas), procurando ao mesmo tempo, uma alteração do Tratado ABM (Tratado de Mísseis Balísticos)”, afirmou o secretário de Estado norte-americano George Schultz, citado pelo DN. Também em conferência de imprensa, o líder soviético falava num impasse internacional, que não pôde ser ultrapassado em Reiquejvique. “Todos estamos a aproximar-nos de um ponto de não regresso, no qual uma nova fase da corrida às armas poderá começar com consequências militares e políticas imprevisíveis”, advertiu.

    Em Portugal “milhares de pessoas, indiferentes ao temporal” acorreram ao Santuário de Fátima para a peregrinação internacional do 13 de outubro. Procurando ilustrar o crescimento constante do número de peregrinos que rumam ao Santuário de Fátima por esta altura, o DN contabilizava em 23.647 o número de refeições servidas em 1985, em contraste com as 15.039 servidas em 1976. “Como nos referiu um grupo de peregrinos do concelho de Coimbra, ´hoje já não é a promessa ou a falta de recursos económicos que nos fazem meter a caminho, rumo a Fátima, mas mais espírito de sacrifício”, escreve o DN.

  • 12 Out 1986

    Mota Amaral defende “Portugal no Atlântico”

    Por Pedro FigueiredoFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    Nas comemorações dos dez anos da autonomia regional, o então presidente do Governo Regional, Mota Amaral, disse pretender que os Açores deixem de ser “um território de Portugal, para serem cada vez mais Portugal no Atlântico”. Em Toronto, perante uma plateia de cerca de 400 pessoas, “na grande maioria emigrantes açorianos”, Mota Amaral declarou: “não há que ter medo da identificação cultural das gentes dos Açores”.

    Em Portugal, prosseguia a visita do presidente venezuelano, que chamou a atenção para a “ignorância mútua das potencialidades” como um dos maiores entraves à existência de “mais acordos entre Portugal e a Venezuela”. “O presidente venezuelano enumerou as áreas económicas onde pode ser encontrada uma relação de complementaridade entre Portugal e o seu país”, pode ler-se no Diário de Notícias (DN). Acompanhado pelo seu homólogo português, Mário Soares, Jaime Lusinchi recebeu o título de sócio honorário da Associação Industrial Portuguesa (AIP) e almoçou em seguida com o então primeiro ministro, Cavaco Silva.

    O Diário de Notícias assinalava também o aprazado nascimento da nova agência noticiosa portuguesa. “Lusa é o seu nome. Parece uma marca de sabonete, mas é uma agência noticiosa. Instala-se para a semana. O seu objetivo é o de tentar lavar as nódoas deixadas por desastrosas políticas de informação anteriores que permitiram a insólita coexistência de duas agências custeadas pelo Estado ? Não apagará, porém, o nome daqueles que, tendo da política a noção de um exercício de irresponsabilidade, se impuseram nos rodapés das páginas da história da informação em Portugal”, escrevia o diário.

  • 11 Out 1986

    Sismo em San Salvador arrasa “meia cidade”

    Por Pedro Figueiredo

    A capital de El Salvador foi sacudida por um violento sismo que “arrasou meia cidade” e fez “centenas de mortos”, como noticia o vespertino Diário de Lisboa (DL) – os matutinos impressos nesse sábado só no dia seguinte haveriam de noticiar o assunto. “Mais de metade dos edifícios de San Salvador terá ficado destruída na sequência de dois abalos sísmicos registados ao fim da manhã de ontem [sexta-feira], tendo o primeiro atingido o grau sete da escala de Richter (…) Os primeiros cálculos apontam para duas centenas de vítimas e o estado de emergência declarado em todo o país”, podia ler-se no DL.

    Na Guarda, 93 crianças do Instituto do Outeiro de São Miguel foram assistidas no hospital da cidade por suspeita de intoxicação alimentar. Em declarações ao Diário de Notícias, um responsável pelo Instituto colocava em dúvida que a intoxicação pudesse ter sido causada pela “refeição de frango” servida ao almoço. “´Se fosse esta a origem do problema, então todos os alunos se tinham queixado´, disse, sugerindo uma possível contaminação das águas”, pode ler-se.

    A edição do DN publicava um especial sobre Jacques Cousteau, “o homem das missões impossíveis”. Cousteau, então com 76 anos era então “aplaudido em França” e “idolatrado nos Estados Unidos”. ”No ano passado, desembarcando num helicóptero privado nos jardins da Casa Branca, recebeu das mãos de Ronald Reagan a medalha presidencial da Liberdade (…) Para além dos seus encontros em privado com o presidente dos Estados Unidos, reuniu-se recentemente com o presidente do Brasil e com Fidel Castro. Este último, aliás, libertou em maio último 27 presos políticos a seu pedido”, observada o DN. Em entrevista anexa, o “comandante Cousteau” confessava: “Mergulho com o mesmo prazer de há 50 anos. Adoro aquela sensação de voar na ausência de gravidade, flutuar num líquido que parece penetrar na minha pele. O mergulho para mim é a forma última de amar”,

  • 10 Out 1986

    Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev reúnem-se na Islândia

    Por Pedro Figueiredo

    Os primeiros sinais de degelo da Guerra fria passavam, por estes dias, pela capital da Islândia, Reiquiavique, onde o presidente norte-americano, Ronald Reagan, se haveria de encontrar no dia seguinte com o seu homólogo soviético, Mikhail Gorbachev. “O êxito do encontro não está garantido, mas estou cheio de esperanças”, declarou à partida de Washington o líder norte-americano, que já tinha entretanto chegado à Islândia. “Entretanto, não foi ainda anunciada a hora exata da chegada de Mikhail Gorbachev a Reiquejavique, mas fontes oficiais indicaram que o líder soviético estará na Islândia antes do meio dia de hoje”, noticiava o Diário de Notícias.

    À chegada a Portugal para uma visita de três dias, o presidente venezuelano, Jaime Lusinchi, propôs a criação de uma “confederação ibero-americana”, baseada na “comunidade de interesses que unem Portugal e Espanha aos Estados da América Latina” – a primeira cimeira ibero-americana haveria de realizar-se em 1991, na cidade mexicana de Guadalajara.

    A criação de uma nova agência de notícias no país continuava a ser notícia, com o PS a sinalizar a sua disponibilidade para viabilizar o nascimento da Lusa. “Em conferência de imprensa, Arons de carvalho adiantou que se a nova agência for uma empresa de serviço público; se forem garantidos os direitos dos trabalhadores e do conselho de redação; se ficar subordinada ao Conselho de Comunicação Social, e se os estatutos garantirem ´uma efetiva desgovernamentalização´, o PS não se oporá à criação da nova agência”, escrevia o DN.

    Ainda nos media, a assinatura do protocolo que formalizava a criação do Centro de Formação de Jornalistas (Cenjor) motivava críticas do Sindicato dos Jornalistas ao executivo chefiado por Cavaco Silva. “O sindicato critica a ´publicidade extemporânea feita pelo ministro adjunto, Fernando Nogueira, à institucionalização do projeto e a soberba de o apresentar como feito governamental´, que, em seu entender, evidenciam ´que o eleitoralismo andou desde o princípio de braço dado com o apoio dispensado à iniciativa”, pode ler-se.

  • 09 Out 1986

    César Torres presidente da nova Lusa

    Por Pedro FigueiredoFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    O processo de criação da nova agência noticiosa nacional, a Lusa, continua a ser notícia. O Diário de Notícias (DN) noticia com base em “boa fonte” que César Torres será o presidente da comissão instaladora da nova agência, resultado da fusão entre a Anop e a NP. “César Torres, que tomará posse do cargo para a semana, em cerimónia presidida por Marques Mendes [secretário de Estado da Comunicação Social], vai estar até aos fins de novembro na presidência da referida comissão, uma vez que a entrada em funcionamento da Lusa verificar-se-á, se tudo correr como o previsto, em 01 de janeiro de 1987”, escrevia do DN.

    A televisão pública, por seu turno, inaugurava o seu novo centro de emissão na avenida 05 de outubro, em Lisboa, numa concorrida cerimónia em que o então presidente do conselho de gerência da RTP se referiu com otimismo ao “advento da televisão privada” em Portugal. “Emissoras privadas portuguesas de televisão, mais do que rivais da RTP, deverão ser seus naturais aliados na luta pela defesa da língua portuguesa e dos valores fundamentais da nossa cultura”, afirmou Coelho Ribeiro, citado pelo DN. Na cerimónia, Fernando Nogueira, ministro Adjunto e para os Assuntos Parlamentares, criticou a Assembleia da República pela “demora na aprovação de propostas legislativas relativas à abertura da TV a entidades não públicas ou estatais e ao licenciamento de estações de rádio”.

    No Reino Unido, nascia o “primeiro jornal ´de qualidade´” lançado no país no século XX, como escrevia o correspondente do DN em Londres, Fernando Sousa. “O público britânico passou ontem [quarta-feira] a ter mais um jornal à sua disposição, o ´Independent´ que, tal como o nome indica, se apresenta como politicamente neutral”, escrevia o jornalista.

  • 08 Out 1986

    Parlamento reinicia trabalhos

    Por Pedro Figueiredo

    Uma semana antes da “abertura regimental da sessão legislativa”, o Parlamento iniciou os seus trabalhos para ouvir intervenções que “chegaram a aquecer” o hemiciclo de São Bento “na sequência do veto presidencial relativo ao Estatuto dos Açores”.

    “No entanto, às 18:00 a polémica já estava esbatida e porque ninguém requereu a confirmação do veto do Presidente da República, nem nenhum partido apresentou propostas de alteração ao Estatuto vetado, a questão foi remetida e agendada para o próximo dia 23, ocasião em que serão debatidas alterações entretanto já anunciadas, nomeadamente pelo CDS, PSD, PS, MDP e PCP”, escrevia o Diário de Notícias, que fazia manchete com o assunto, ilustrada com uma fotografia sorridente do então presidente da Assembleia da República, Fernando Amaral. A exceção foi o PRD, que considerou não existirem motivos para alterar a posição já assumida pelo partido, já que “todas as dúvidas” sobre o diploma eram passíveis de clarificação “através de regulamentação adequada”.

    Na ´rentrée´ política de há 30 anos, os comunistas voltaram a eleger o governo minoritário chefiado por Cavaco Silva como o alvo principal, defendendo a necessidade de o substituir por outro de “alternativa democrática”. “A direção comunista considera existirem condições para ´passar à ofensiva´ e para que seja retomada a palavra de ordem ´a luta continua, o governo para a rua´”, noticiava o DN, a propósito da reunião do Comité Central do PCP. O PS foi também visado na reunião de cúpula dos comunistas, que lamentaram a “recusa de partidos democráticos a considerarem a convergência indispensável para a demissão do governo PSD de Cavaco Silva e a formação de um governo democrático”.

  • 07 Out 1986

    PSD denuncia “aliança” para derrubar governo

    Por Pedro FigueiredoFoto GUILHERME VENâNCIOFoto GUILHERME VENâNCIO

    No reinício dos trabalhos parlamentares desse ano, 12 meses após a vitória do partido nas eleições legislativas, o PSD convocou os jornalistas para denunciar o que considerava ser uma “aliança” em preparação entre o PS e o PCP. “O PSD considera que o PS é ´um aliado objetivo´ do PCP, ao assumir posições que os comunistas vêm defendendo de contestação ao governo”, escrevia o Diário de Notícias (DN). Em conferência de imprensa, o vice-presidente social-democrata Correia Afonso acusou ainda o PS de criar artificialmente “pequenas crises com o intuito de fomentar um ambiente de crise política”. O dirigente do PSD assegurava que, se PS e PCP desencadearem qualquer crise política “como anunciam”, os sociais-democratas avançariam de imediato para eleições antecipadas – que se viriam a realizar em julho do ano seguinte, com Cavaco Silva a conquistar a sua primeira maioria absoluta.

    Em Bruxelas, a Comissão Europeia pedia a Portugal “explicações satisfatórias” sobre a forma como estava a ser liberalizada a importação de cereais, na sequência de uma queixa apresentada por importadores privados portugueses. De acordo com os importadores privados a EPAC (Empresa Pública de Abastecimento de Cereais) teria nesse ano recebido uma parte das 470 mil toneladas de cereais superior ao que lhe caberia, em face da legislação europeia, que previa um desmantelamento progressivo do monopólio de importação de cereais. Em declarações ao DN, o ministro da Agricultura Pescas e Alimentação, Álvaro Barreto assegurou que Portugal “não abdica da sua posição”, tendo informado a Comissão Europeia não ver “nenhuma razão plausível para que a EPAC deixe de concorrer aos concursos públicos”.

  • 06 Out 1986

    Mário Soares defende descentralização

    Por Pedro FigueiredoFoto António CotrimFoto António Cotrim

    Nas comemorações do 05 de outubro, Mário Soares fez da descentralização o tema da sua intervenção. Ladeado pelo primeiro-ministro, Cavaco Silva, e pelo presidente da câmara lisboeta, Krus Abecassis, o Presidente da República “defendeu que o Estado deve procurar substituir-se cada vez menos à iniciativa dos cidadãos e tornar-se cada vez mais o verdadeiro garante da solidariedade nacional e social”. “É necessário saber compatibilizar a justiça com a iniciativa, o risco pessoal com a solidariedade, a liberdade com a segurança”, afirmou Soares, citado pelo Diário de Notícias (DN). “Neste final do século XX, Portugal, assumindo o seu destino europeu e a modernidade científica, tecnológica e cultural tem de saber estar à altura da sua generosa vocação universalista, honrando a sua gloriosa história de Nação afetivamente repartida por vários continentes”, afirmou ainda o chefe do Estado.

    Nas páginas do Diário de Lisboa (DL), merecia ampla cobertura a “segunda conferência internacional de prostitutas”, realizada dias antes em Bruxelas. “Uma prostituição de sonho, diríamos nós, ao assistir à segunda conferência internacional de prostitutas”, escrevia, embevecido, o vespertino, especificando que o tema da reunião era “alcançar a despenalização da prostituição”. O encontro teve lugar no edifício do Parlamento Europeu, em Bruxelas, motivando “a cólera de certos deputados europeus”. “Mas são bem espertas estas 120 representantes da mais velha profissão do mundo. Muitas delas não se sentiram sequer deslocadas no ambiente fofo e tecnocrático do Parlamento”, anotava o DL.

  • 05 Out 1986

    João Paulo II apela a “um dia de tréguas”

    Por Pedro Figueiredo

    No início da sua visita de quatro dias a França, João Paulo II apelou a “todas as partes em conflito no mundo” que observassem a 27 de outubro “um dia de tréguas” para “pensar seriamente nas razões que as conduziram à violência”. “O Pontífice disse esperar que tal trégua leve todas as partes em conflito ´a iniciar ou a prosseguir uma reflexão sobre os motivos que os levam a procurar pela força, com o seu cortejo de misérias humanas, aquilo que podia ser obtido por negociação sincera e recurso a outros meios facultados pela lei”, escrevia então o Diário de Notícias (DN). As primeiras palavras de João Paulo II foram também para defender que os fiéis de então enfrentavam “ameaças mais insidiosas à sua fé do que os primeiros cristãos”. Em Lyon, “capital da gastronomia francesa”, o Sumo Pontífice tinha à sua espera uma pródiga ementa local. “João Paulo II poderá ter de vigiar o seu peso durante a sua visita a Lyon (…) As ementas para os quatro dias de visita do Papa ao sueste da França vão proporcionar-lhe refeições com o que há de melhor na cozinha de Lyon, em contraste com a simplicidade dos seus aposentos e da capela do seminário”, escrevia o DN.

    O incêndio a bordo de um submarino nuclear soviético que navegava a mil quilómetros a nordeste das ilhas Bermudas fazia também as manchetes do dia. “Três pessoas morreram num incêndio a bordo de um submarino nuclear soviético que transportava mísseis intercontinentais (…) uma comissão de especialistas reunida em Moscovo concluiu que não havia perigo de uma explosão nuclear ou de contaminação do ambiente”, escrevia o DN. A divulgação do acidente pelas autoridades soviéticas mereceu o elogio das autoridades norte-americanas.

  • 04 Out 1986

    João Paulo II visita França

    Por Pedro FigueiredoFoto Daniel JaninFoto Daniel Janin

    Há 30 anos, o Papa João Paulo II desembarcava em Lyon para iniciar uma visita de quatro dias a França. “Esta visita, a terceira que faz a França, assumirá a forma de uma peregrinação a alguns dos sítios mais famosos da cristandade neste país: Lyon, Taize, Paray-le-Monial, Ars e Annecy. Todos estes lugares lhe permitirão evocar algumas das grandes figuras do passado e do presente e abordar os temas que lhe são caros: a santidade, a pobreza, a unidade dos cristãos, a cultura e principalmente a vocação do sacerdócio”, escrevia do Diário de Notícias (DN). Face à onda de atentados terroristas que se tinham registado em França em setembro, a visita do Sumo Pontífice esteve rodeada de medidas de segurança extremas, com a mobilização de “oito a dez mil homens dos diversos serviços de Polícia”. “Em termos de quilómetros percorridos, as ´peregrinações´ do Papa totalizaram uma distância superior àquela que vai da Terra à Lua…”, calculava o DN.

    Destaque também na edição de sábado do diário para o depoimento prestado pelo ex-Presidente da República Ramalho Eanes no julgamento de Otelo Saraiva de Carvalho. “O general Ramalho Eanes afirmou ontem [sexta-feira] aos jornalistas em Monsanto, que uma das razões que o levou a depor como testemunha abonatória de Otelo Saraiva de Carvalho foi mostrar que ´julgar Otelo não é julgar o 25 de abril´ e reafirmou a sua amizade pessoal pelo antigo comandante do COPCON [Comando Operacional do Continente], embora, segundo disse, essa relação nunca o tenha impedido de tomar atitudes contra ele”, escrevia o DN.

  • 03 Out 1986

    Vitor Constâncio anuncia Convenção da Esquerda democrática

    Por Pedro FigueiredoLusa António CotrimLusa António Cotrim

    Num mês de intensa agitação política, Vitor Constâncio fazia a apologia da Convenção da Esquerda democrática, agendada para 22 e 23 de novembro desse ano. O recém-eleito secretário-geral do PS assegurava que a convenção, uma “ideia antiga do imaginário da esquerda portuguesa”, serviria para “produzir um trabalho muito sério para fornecer respostas aos problemas da sociedade” de então, não sendo uma forma sub-reptícia de “captar independentes avulsos para o partido”.

    O Partido Renovador Democrático (PRD), que nas eleições legislativas de 1985 tinha emergido como a terceira força política nacional (alcançado 17,92 por cento dos votos, a que corresponderam 45 mandatos no Parlamento) preparava a sua Convenção Nacional, na qual estariam em discussão 33 moções de estratégia. Preconizando o combate à hegemonia de PSD e PS na política nacional, a moção apresentada pelo líder do PRD, Hermínio Martinho, defendia: “a bipolarização, tal como tem sido formulada, representaria, nas circunstâncias presentes, a guerra civil gerida politicamente”.

    No Porto, o então líder do CDS, Adriano Moreira, defendia a necessidade aproveitar uma futura revisão constitucional para criar uma segunda câmara no Parlamento. Esta nova instância, advogava, “poderá servir a unidade nacional, eliminar o vazio de coordenação de interesses, evitar que instituições como as Forças Armadas tenham de assumir a voz que constitucionalmente pertencia ao governo”. “Tudo embaraços escusados nascidos no caminho da institucionalização definitiva da nossa vida pública”, afirmou.

  • 02 Out 1986

    Mário Soares quer ”justiça célere, competente e humanizadora”

    Por Pedro Figueiredo

    Na sessão solene de abertura do ano escolar no Centro de Estudos Judiciários, Mário Soares defendeu a necessidade de “uma justiça célere, competente e humanizadora”. “A justiça constrói-se no dia-a-dia. Quanto melhor soubermos organizar os tribunais e formar os juízes, os magistrados do Ministério Público e os advogados, melhor saberemos responder aos novos desafios que tanto nos preocupam, uma vez que está em causa a proteção da liberdade e da segurança dos cidadãos, ameaçados pelo preocupante eclodir de uma violência cega, arbitrária e injusta”, salientou então o Presidente da República.

    Há três décadas os media eram também notícia, com a extinção da Anop a ser contestada na Assembleia da República (AR) por PS, PCP e PRD. “É ilegal face ao atual quadro legislativo”, afirmou então o deputado do PS Jorge Lacão, numa reunião da sub-comissão permanente da AR para a comunicação social em que participou o diretor-geral da agência de notícias pública Horta Lobo. “Existe uma disposição normativa que reserva ao Conselho da Comunicação Social o parecer vinculativo sobre a extinção de uma empresa pública do setor”, frisou ainda Jorge Lacão.

    Ainda nos media, a necessidade de encontrar uma solução para a “rádios livres” era também objeto de aceso debate. “Não creio que a existência de rádios livres seja negativa, embora ilegal, mas agora vai ser difícil impor regras, até porque se pode correr riscos de injustiça”, afirmou então o jornalista Mário Mesquita, citado pelo DN, numa mesa redonda promovida pelo Secretariado das Comunicações da Conferência Episcopal.

  • 01 Out 1986

    Islândia acolhe cimeira entre Reagan e Gorbachev

    Por Pedro Figueiredo

    O anúncio de uma cimeira, em data a anunciar, entre o presidente norte-americano, Ronald Reagan, e o seu homólogo russo, Mikhail Gorbachev, faz manchete em toda a imprensa nacional. A cimeira, foi também hoje noticiado, será antecedida de um encontro a 11 e 12 de outubro na capital da Islândia, Reiquejavique, entre os dois responsáveis políticos. “A decisão foi tomada na sequência das conversações que levaram à libertação, em Moscovo, de Nicholas Daniloff e Yuri Orlov e, em Nova Iorque, de Gennady Zakharov”, escreve o Diário de Notícias (DN). Em setembro, Moscovo tinha concedido liberdade condicional ao jornalista norte-americano Nicholas Daniloff, correspondente da revista norte-americana ´US News and World Report´, detido pelo KGB depois de aceitar um pacote entregue por um cidadão soviético seu conhecido. A secreta russa afirmou na altura que o pacote continha documentos secretos. Por sua vez, Washington libertara no mesmo mês o físico soviético Gennady Zakharov, detido pelo FBI quando alegadamente procedia à compra de segredos militares dos Estados Unidos.

    O reinício das aulas para “um milhão e 800 mil alunos”, distribuídos por “13.518 escolas dos ensinos pré-escolar, primário, preparatório e secundário” merece também chamada de primeira página no DN. “Segundo estimativas fornecidas pelo ministério, mais de 58 mil alunos vão frequentar o ensino pré-primário, cerca de 750 mil o primário, mais de 343 mil o preparatório e mais de 535 mil o secundário”, pode ler-se.

  • 30 Set 1986

    EUA e Rússia libertam presos acusados de espionagem

    Por Pedro FigueiredoFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    Na imprensa de hoje era notícia a libertação definitiva por Moscovo do jornalista norte-americano Nicholas Daniloff, detido no início do mês em Moscovo pelo KGB, acusado de espionagem. Simultaneamente, Washington libertava Gennadi Zakharov, funcionário da missão soviética nas Nações Unidas, detido na posse de documentos confidenciais do governo norte-americano. “Esta troca de ´espiões´ desbloqueia, parcialmente, a cimeira Reagan-Gorbatchev, seriamente ameaçada desde a prisão do jornalista norte-americano”, escrevia o Diário de Lisboa.

    Em Portugal, a visita a Portugal do rei da Suécia era o grande destaque do dia, com o assunto a merecer ampla cobertura fotográfico nas páginas do Diário de Notícias. Na sua intervenção durante o banquete oficial oferecido a Carlos VXI Gustavo, Mário Soares aproveitou para recordar a situação em Timor-Leste, “onde se tem negado sistematicamente o direito à autodeterminação do povo maubere, perante a indiferença incompreensível de muitos Estados que deveriam estar na vanguarda da defesa dos direitos [do homem]”, relatava o DN.

    O clima de crispação na Saúde, prosseguia, desta vez com a Ordem dos Médicos a cortar relações com a ministra da tutela, Leonor Beleza. A OM, presidida por Gentil Martins, declinava “qualquer responsabilidade passada ou futura nos efeitos altamente negativos da orientação” seguida pelo governo, “objetivamente contrária aos mais elementares interesses dos doentes”.

  • 29 Set 1986

    Banco de Portugal vê luz ao fundo do túnel na economia portuguesa

    Por Pedro Figueiredo

    “Luz ao fundo do túnel depois de penosa austeridade”. A manchete é do suplemento de economia do Diário de Notícias publicado na edição de segunda-feira do jornal, numa análise ao relatório anual do Banco de Portugal. “A economia portuguesa começou a ver a luz ao fundo do túnel, depois de dois anos de penosa austeridade, sendo os resultados obtidos a melhor resposta que o ex-ministro das Finanças Ernâni Lopes pode agora dar aos que o criticaram acerbamente nesse período”, escrevia o DN. Um governo de bloco central PS-PSD liderado por Mário Soares pediu em 1983, pela segunda vez desde abril de 1974, a intervenção do FMI, que emprestou ao país 750 milhões de dólares em troca de cortes nos salários da função pública, aumentos dos preços, redução do investimento público e cortes nos subsídios de Natal, entre outras medidas.

    Em Bruxelas, os ministros da Agricultura da CEE iniciam uma reunião de dois dias “para debater as alternativas de uma política agrícola comum, capaz de fazer frente ao problema dos excedentes”. “Todos estão conscientes de que, com o atual sistema, se estão a criar excedentes sem possibilidade de escoamento”, disse à chegada à capital belga o ministro da Agricultura português, Álvaro Barreto.

    No desporto era notícia a caminhada imparável do Belenenses, que era novamente líder do campeonato de futebol depois de impor ao Sporting em casa uma derrota por 2-0.

  • 28 Set 1986

    Governo quer antecipar pagamento da dívida externa

    Por Pedro FigueiredoFoto LUíS VASCONCELOSFoto LUíS VASCONCELOS

    Num domingo de intensa atividade política, Cavaco Silva prosseguia o seu périplo pelo Alentejo sublinhando a intenção do governo de “pagar antecipadamente a dívida externa contraída no passado” e anunciando que até ao final de 1986 seriam destinados a esse fim 1500 milhões de dólares. “Não queremos um Estado caloteiro, mas um Estado de boas contas (…) Os trabalhos mais difíceis dos próximos meses serão contra os desperdícios dos dinheiros públicos (…) precisamos que todo o escudo seja bem gasto, numa luta contra os grupos de privilegiados a favor dos mais carenciados”, afirmou o chefe do governo, citado pelo Diário de Notícias.

    No encerramento das VII jornadas parlamentares do PS, o líder socialista, Vitor Constâncio, proclamava que “o governo faz muita propaganda, mas é escasso o seu mérito”. “Para o secretário-geral do PS, o executivo, embora tenha algum mérito, está sobretudo a beneficiar das conjunturas nacional e internacional”, escreve o DN, recuperando ainda as críticas de Vitor Constâncio ao governo minoritário do PSD – “é preciso reabilitar a noção de governo minoritário, que implica designadamente a necessidade de negociar, contrariamente àquilo que o gabinete liderado por Cavaco Silva tem vindo a fazer”, defendeu Constâncio.

    No Escoural, onde tinha ido evocar “a morte de dois trabalhadores da reforma agrária, Casquinha e Caravela, o líder comunista, Álvaro Cunhal, avisou que o PCP não esperaria que o governo “caia de podre”. “No dia em que os partidos democráticos decidam que o governo deve cair, o governo cairá e nem Santo António lhe poderá valer”, declarou.

  • 27 Set 1986

    Cavaco diz que agricultura será a prioridade do Orçamento para 1987

    Por Pedro FigueiredoFoto LUÍS VASCONCELOSFoto LUÍS VASCONCELOS

    Em visita ao Alentejo, o primeiro-ministro, Cavaco Silva anunciava que a agricultura será a “prioridade da ação” do governo e que “as verbas destinadas para aquele setor no Orçamento de Estado de 1987 será superior em 77 por cento à do ano passado”, relata o Diário de Notícias. “O primeiro-ministro, que ontem [sexta-feira] e hoje visita a província alentejana, revelou ainda que a correção dos desequilíbrios económicos, o reforço da economia e da solidariedade social, bem como a língua, cultura e património portugueses são alguns dos nove pontos das Grandes Opções do Plano”, escreve o jornal. “Passados 12 anos sobre a revolução de abril, já era tempo de um governo pensar no futuro”, apontou Cavaco Silva. A propósito da passagem de Cavaco Silva pelo Alentejo, o Diário de Lisboa dava conta das “manifestações de hostilidade” com que o chefe do governo foi recebido em Évora “por parte de assalariados agrícolas”. “Em Évora estas manifestações assumiram maiores dimensões, tendo a PSP reprimido com violência os manifestantes que gritavam ´queremos trabalho e pão, Cavaco não”.

    No mundo era notícia a reativação da central nuclear de Chernobyl, “após cinco meses de encerramento em consequência do maior acidente atómico do mundo”. “O reator danificado foi isolado e o primeiro dos outros três vai ser agora ligado”, de acordo com o jornal soviético ´Pravda´, citado pelo DN.

    Em Assembleia Geral, Amado de Freitas foi eleito presidente da direção do Sporting, sucedendo a João Rocha, há 13 anos presidente do clube de Alvalade.

  • 26 Set 1986

    Governos da CEE decidem endurecer combate contra o terrorismo

    Por Pedro FigueiredoFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    Em Londres, os ministros do Interior dos países membros da CEE, entre os quais o português, Eurico de Melo, decidiam endurecer o combate ao terrorismo, sobretudo “face aos últimos acontecimentos em França”. “Os atentados em Paris, que causaram nove mortos e mais de 150 feridos, geraram uma onda de ansiedade na Europa sobre a capacidade de os grupos terroristas se moverem facilmente de país para país e poderem atacar, com toda a liberdade, cidades deste continente”, escrevia o DN. O Diário de Lisboa dava conta da decisão tomada pelos “12 ministros do Interior da Comunidade” de “exigir vistos de entrada mais rigorosos para os que não sejam oriundos do velho continente”. Na mesma reunião foi ainda decidido, como noticia o DN, “estabelecer uma nova rede telefónica direta entre as polícias respetivas”. “Os ministros da CEE mostraram-se convencidos de que, só com uma troca mais rápida e eficiente de informação entre os Estados-membros e a criação de novos esquemas para uma análise atualizada permanente das ameaças terroristas se tornará possível reprimir os responsáveis por tais atividades violentas”, escrevia o correspondente do DN em Londres Fernando Sousa.

    No mesmo dia, Mário Soares concluía ao 11º dia, em Lamego, a sua primeira presidência aberta. Na região de Entre Douro e Minho, o Presidente da República defendia a regionalização “como um dos grandes motores do desenvolvimento nos próximos anos”, embora ressalvando que a criação de regiões administrativas “é um problema delicado, pois suscita rivalidades” – “e certo tipo de rivalidades não é salutar num país como o nosso”, afirmou.

    Há 30 anos, um “grupo de portugueses” – entre os quais “João Soares do PS, Manuel Monteiro, presidente da Juventude Centrista” – dava conta em conferência de imprensa da sua participação no VI Congresso da UNITA, na Jamba, Angola. “O que vimos nessas áreas ocupadas pela UNITA é surpreendente e não há palavras para o descrever. Existe liberdade religiosa, hospitais, escolas, uma economia sem moeda, que funciona, uma arquitetura urbana original e uma sociedade aberta onde se pode ouvir o que as emissões radiofónicas internacionais dizem, incluindo a Rádio Nacional de Angola”, disse o dirigente socialista Duarte Teives. “O que ficou claro nesta visita é que Jonas Savimbi é um grande líder político contemporâneo na África de hoje, que apresenta em Angola uma experiência original de luta política e militar”, salientou, por seu turno, João Soares.

  • 25 Set 1986

    Constâncio desafia Cavaco Silva para debate televisivo

    Por Pedro FigueiredoFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    Na apresentação pública do “gabinete de porta-vozes do PS”, o líder socialista, Vitor Constâncio desafiava o então primeiro-ministro para um debate televisivo “sobre as grandes questões da política nacional” e deixou em aberto a possibilidade de os socialistas convergirem para “desencadear uma crise política mais cedo do que se previa”. “O líder do PS afirmou que tal posição será tomada ´se o governo persistir no abuso da sua situação de poder para distorcer certos mecanismos de funcionamento democrático. Considerou ´intolerável o clientelismo avassalador do PSD de norte a sul do país´ e particularmente ´o secretismo, o controlo e a manipulação da informação por parte do governo”, escrevia o DN. Na ocasião, Vitor Constâncio sublinhou a disponibilidade dos socialistas para “qualquer solução governativa”, “embora manifestando preferência por eleições antecipadas”.

    A economia era também notícia neste dia, com um relatório do Banco de Portugal a dar conta de um crescimento em 1985 de 3,3 por cento (acima dos três por cento previstos), “essencialmente devido ao aumento das exportações e a um crescimento reduzido da procura interna”. A inflação “desacelerou significativamente” para 19,3 por cento, “resultado mais favorável do que o inicialmente previsto” (22 por cento).

    Na sessão de abertura da 41ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o ministro português dos Negócios Estrangeiros reafirmava a intenção de Lisboa de “tudo fazer para a autodeterminação do povo de Timor. “Pires Miranda lançou novo apelo à comunidade internacional para que atente sobre a situação de Timor e reafirmou os propósitos de Portugal na defesa dos interesses do povo maubere”, podia ler-se.

  • 24 Set 1986

    Cavaco defende diálogo profícuo com os restantes órgãos de soberania

    Por Pedro FigueiredoFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    Em destaque na primeira página do DN, uma foto a preto e branco de Mário Soares e Cavaco Silva, sorridentes, distendidos, longe ainda da crispação que viria a marcar a relação institucional entre dois dos protagonistas maiores da história política recente do país. Um chegara a Belém há apenas uns meses, o outro chefiava um instável governo minoritário que seria derrubado no ano seguinte, abrindo caminho às duas maiorias absolutas que viria a alcançar. Em Guimarães, na reunião semanal com o Presidente da República, realizada à margem presidência aberta que Soares realizava ao norte do país, Cavaco falava aos jornalistas para dar conta de “um encontro normal com o sr. Presidente da República”. “Em jeito de elogio a Mário Soares, Cavaco Silva ainda acrescentou, relacionado com o mesmo assunto: ´defendemos um diálogo profícuo com os órgãos de soberania. Tem sido possível entre o governo e o Presidente da República e gostávamos que fosse assim com a Assembleia da República”, disse Cavaco, comentando o diferendo que opunha o executivo e o Parlamento em torno do “Orçamento Suplementar do Estado para 1987”.

    Neste dia era também notícia o debate na subcomissão parlamentar de Comunicação Social da Assembleia da República, com a presença do secretário de Estado Marques Mendes, sobre a “implementação da nova agência noticiosa”. “Interrogado por José Magalhães (PCP) sobre a forma como o executivo pretende extinguir uma empresa pública (a Anop), Marques Mendes torneou a questão, garantindo apenas que o governo nada fará que desrespeite qualquer mecanismo legal”, podia ler-se no DN. Na reunião “resultou claro” que PRD, PCP e MDP “pretendem chamar ao Parlamento a decisão final sobre o assunto”.

  • 23 Set 1986

    Reagan disponível para reduzir armas defensivas na Europa

    Por Pedro FigueiredoFoto LUÍS VASCONCELOSFoto LUÍS VASCONCELOS

    Há 30 anos era notícia a disponibilidade do então presidente norte-americano, Ronald Reagan, para assinar com as autoridades soviéticas um acordo, “adiando por sete anos a implementação do sistema de defesa de mísseis Guerra das Estrelas”. Numa intervenção perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Reagan “declarou-se pronto a assinar imediatamente um acordo sobre redução de armas estratégicas defensivas na Europa”. “O presidente norte-americano disse que tinha pensado numa redução de 50 por cento do arsenal, acrescentando: ´mas se os soviéticos quiserem uma redução menor, estamos dispostos a considerar o caso de maneira provisória”, podia ler-se no Diário de Notícias.

    De Nova Iorque surgiam outros sinais de desanuviamento internacional, com o então primeiro-ministro israelita, Shimon Peres, a abordar “os passos necessários para a normalização das relações” bilaterais com o chefe da diplomacia soviética, Eduard Shevardnaze – Moscovo tinha cortado relações diplomáticas com Israel na sequência da guerra do Médio Oriente de 1967.

    Em Lisboa, 88 “empresas desintervencionadas” (restituídas aos proprietários depois de terem sido nacionalizadas após a revolução de 25 de abril de 1974) pedem “medidas de fundo” para evitar a falência generalizada “até ao final do ano”. “A nomeação de uma comissão interministerial para proceder ao apuramento dos prejuízos provocados pelas intervenções estatais nas empresas entretanto desintervencionadas, o fim da contagem de juros e da exigibilidade dos créditos concedidos para liquidar situações criadas pelas mesmas intervenções e a formulação de uma ´conta-corrente entre o Estado e a banca´ são algumas das condições postas para a garantia de laboração”, escrevia o DN.

  • 22 Set 1986

    Ayrton Senna perde hipótese de ser campeão em Portugal

    Por Pedro FigueiredoFoto LusaFoto Lusa

    “Deus não quis ser brasileiro”. O Diário de Lisboa (DL) titulava assim há 30 anos a oportunidade perdida pelos pilotos brasileiros Ayton Senna e Nelson Piquet de vencerem o Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1. “Na mesma pista onde venceu o primeiro grande prémio da sua carreira, o dia de ontem [domingo] foi dececionante para o brasileiro Ayrton Senna que ali enterrou todas as esperanças de ser campeão do mundo, frente a um Nigel Mansell em forma superior, servido por um carro extraordinário sob todos os pontos de vista. Colocado na grelha de partida atrás de Ayrton Senna, Mansell ultrapassou-o logo nos primeiros metros e comandou a corrida do princípio ao fim nunca deixando pôr em causa a sua posição”, relatou o DL.

    De Timor-Leste chega a denúncia de “elementos da comunidade timorense em Sidney”, ouvidos pela agência Anop, de que a Indonésia estaria a “adotar novas táticas repressivas numa tentativa de neutralizar os guerrilheiros da Fretilin e os seus simpatizantes”. “Membros da população de Timor-Leste estão a distribuir panfletos de propaganda da Fretilin que, de acordo com aquelas fontes, são da autoria dos serviços secretos e da polícia indonésia. Todos aqueles que aceitarem os panfletos são posteriormente denunciados e interrogados pelas forças indonésias”, escreve o DN. Esta ação “provocou já o desaparecimento de dezenas de pessoas nas últimas semanas em diversos pontos do território de Timor”.

    Fernando Nogueira, que enquanto ministro adjunto e para os Assuntos Parlamentares tutelava a comunicação social, garantia que a agência noticiosa Lusa “será um facto consumado a partir de 01 de janeiro de 1987”. Pelo PS, António Guterres defendia a necessidade de qualquer solução para as agências noticiosas salvaguardar “a existência de uma agência oficiosa cujo objetivo é o interesse do país”.

  • 21 Set 1986

    Soares prossegue primeira presidência aberta em Gondomar

    Por Pedro Figueiredo

    Mário Soares prosseguia a sua primeira presidência aberta enquanto Presidente da República, apelando a um desenvolvimento mais rápido do país. “Estamos numa fase em que o período da democracia difícil foi ultrapassado e, hoje, somos um país moderno, que tem de procurar rapidamente desenvolver-se para colmatar os atrasos em relação às outras nações”, disse então Soares, durante uma sessão solene na Câmara Municipal de Gondomar. “No breve improviso que proferiu [Soares] abriu uma exceção e fez declarações de cariz mais político do que vem sendo habitual. Assim, o Presidente da República diria ser necessário manter um ´diálogo profundo´ entre todas as instituições num ´esforço conjugado´ para que as ´populações retirem daí rendimento pleno´”, relatava o DN.

    No Uruguai, responsáveis da CEE, Estados Unidos e “do grupo Cairns” (20 países, entre os quais a Austrália, a Indonésia e o Canadá) chegavam a acordo “sobre a questão agrícola, fundamental para a realização de um novo ´round´ comercial do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT)”, noticiava o DN. “O acordo definitivo, alcançado após 48 horas de acesa discussão, foi bem aceite pelos principais protagonistas (CEE, EUA e Austrália), com exceção da Argentina, que manifestou publicamente as suas reservas ao documento”. “Quanto à posição comunitária, o acordo evitou que fossem abandonados os subsídios agrícolas e que se fechassem as negociações num calendário rigoroso – duas importantes vitórias sobre a proposta conjunta da Suíça e Colômbia”, adiantava o DN.

  • 20 Set 1986

    Mansell pulverizou tempo de Senna no grande prémio de Portugal

    Por Pedro Figueiredo

    No Autódromo do Estoril, após a sessão de treinos cronometrados, o Britânico Nigel Mansell completava o melhor tempo entre os 27 pilotos que no dia seguinte disputariam o Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1, 14ª prova do campeonato do mundo da modalidade. “Mansell registou 1.19,047 e pulverizou o ´record´ de Ayrton Senna, estabelecido há um ano, com 1.21,007. O seu companheiro de equipa, Nelson Piquet, contribuiu também para marcar a supremacia dos Williams, com o segundo melhor tempo”, escrevia o Diário de Notícias.

    A guerra de palavras entre o PSD e a oposição conhecia novo episódio, com o PS a responder ao “nervosismo” dos sociais-democratas. “O PSD apenas veio confirmar aquilo que as sondagens já demonstravam. O PS faria melhor que o PSD. Vitor Constâncio faria melhor que Cavaco Silva”, declarou o porta-voz do PS, Arons de Carvalho. Também o CDS não gostou de ser qualificado pelos sociais-democratas como um partido “equivocado e confuso” e reagiu pela voz do seu secretário-geral, Fernando Seara: “Não deixa de ser surpreendente que o secretário-geral do PSD pretenda possuir informações, aliás falsas, sobre a vida interna do CDS e sobre elas se pronuncie publicamente. O comentário de Dias Loureiro era perfeitamente dispensável para quem pretende construir uma maioria política alternativa aos partidos socialistas e queira, para isso, manter relações corretas e dignas”, sublinhou Fernando Seara.

    Notícia do dia era também a aprovação pelo Conselho Geral da Anop dos estatutos “de uma nova agência de informação”, bem como “uma série de recomendações a enviar ao governo”. “Entretanto, o secretário de Estado da Comunicação Social, Marques Mendes, vai reunir-se terça-feira de manhã com a comissão parlamentar para o setor (…) para prestar esclarecimentos acerca da questão da criação da agência noticiosa Lusa”, podia ler-se no DN.

  • 19 Set 1986

    Diplomata francês assassinado em Beirute

    Por Pedro Figueiredo

    O terrorismo na Europa continua a fazer manchetes em Portugal, com o Diário de Notícias (DN) a dar conta de que o adido militar francês “foi assassinado em Beirute” e que as autoridades francesas conseguiram identificar “os dois presumíveis autores dos atentados bombistas registados ultimamente em Paris”. “Enquanto isso, em Tuebingen, na Alemanha Federal, duas bombas explodiram ontem [quinta-feira] no exterior de um instituto científico, sem provocarem vítimas mas causando prejuízos avaliados em cem mil marcos”, prosseguia o DN. “Em Itália, por outro lado, as forças de segurança foram colocadas em estado de alerta máximo em todas as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas, desde que foram recebidas ameaças de que a vaga de terrorismo que se tem estado a registar na França iria alastrar a território italiano”, pode ainda ler-se.

    Em Portugal, prosseguia a formação pelo PS do seu “governo sombra”, cuja divulgação oficial deveria acontecer na semana seguinte em cerimónia aberta à comunicação social, como indicava o DN. “Enquanto falta ainda atribuir ´pastas´ - para o que prosseguem os contactos – eram dados como certos no ´governo sombra´ de Vitor Constâncio os nomes de Jorge Sampaio (Negócios Estrangeiros), António Guterres (Indústria), João Cravinho (Economia e Finanças), Jaime Gama (Defesa), Vera Jardim (Justiça), Ferro Rodrigues (Trabalho e Segurança Social) e António Barreto (Agricultura ou Educação)”, indicava o DN.

    Há 30 anos era também conhecida a decisão do governo de substituir as notas de 20 e 50 escudos por “moedas do mesmo valor”. “Entretanto, as moedas de um, cinco e dez escudos passarão a ser feitas em liga de latão-níquel, de cor amarela. As de 25 escudos vão deixar de circular”, informava o DN.

  • 18 Set 1986

    Cinco atentados em Paris em nove dias

    Por Pedro Figueiredo

    O “quinto atentado em Paris nos últimos nove dias”, ocorrido na véspera na capital francesa, fazia manchete em toda a imprensa nacional do dia. “Cinco mortos e, pelo menos, 61 feridos, vários deles em estado grave, foi o resultado da explosão de uma bomba aparentemente colocada num cesto de papéis ou atirada de um carro em andamento para os armazéns Tati, no bairro parisiense de Montparnasse”, escrevia o Diário de Notícias (DN). O atentado foi reivindicado pela Comissão de Apoio aos Presos Árabes e do Médio Oriente, adiantava o DN.

    A política nacional vivia também dias agitados. Em conferência de imprensa, o líder do CDS alertou o partido para a necessidade de estar preparado para eleições “num prazo não muito dilatado”. “Não podemos ser surpreendidos por eleições gerais”, exortou Adriano Moreira, citado pelo DN. O porta-voz do PS, Arons de Carvalho, acusava por seu turno Cavaco Silva de estar a preparar uma remodelação do seu governo minoritário.

    No Tejo, “manuseadores de peixe do porto de Lisboa” descobriam no Cais do Gás um “pequeno arsenal escondido em pleno rio”. “As espingardas G-3 encontradas ontem [terça-feira] no rio Tejo tinham sido roubadas em 1975 no Regimento de Cavalaria de Santarém, no RALIS e no Depósito de Beirolas, informou o Estado-Maior do Exército. As primeiras desapareceram em junho daquele ano e as últimas pertencem ao lote de mil, então extraviadas”, podia ler-se no DN.

  • 17 Set 1986

    Portugal e Alemanha travam agravamento de sanções à África do Sul

    Por Pedro FigueiredoMinistro dos Negócios Estrangeiros, Pires de Miranda; Foto João Paulo TrindadeMinistro dos Negócios Estrangeiros, Pires de Miranda; Foto João Paulo Trindade

    Em Bruxelas terminava a reunião de ministros de Negócios Estrangeiros da CEE, com Portugal e a República Federal da Alemanha a travarem o agravamento de sanções ao “regime do ´apartheid´” sul-africano. Em causa está a oposição dos dois países à proibição às importações de carvão sul-africano. “A questão da proibição das importações de carvão mostrou-se central para o debate (…) Estados-membros como a Holanda e a Dinamarca deram a entender que, retirando o carvão do pacote final, as medidas resultantes seriam tão frágeis que nem valeria a pena impô-las”, escrevia o Diário de Notícias.

    Em Guimarães, prosseguia na região de Entre Douro e Minho a primeira de muitas presidências abertas que Mário Soares haveria de realizar como Presidente da República. “O meu mandato de Presidente vai ser essencialmente aberto, através de um maior conhecimento das regiões e de um contacto mais profundo com as populações, para assim melhor poder servir a unidade nacional e a Portugal”, afirmou Soares. Nos Paços do Concelho de Guimarães, o Chefe do Estado elogiou o poder local, “realidade viva e enraizada que importa saudar e estimular pelas realizações que operou e pela energia que demonstra”. Enquanto Soares intervinha, “uma qualquer deficiência na instalação sonora provocou um enorme ruído que causou uma certa perturbação na numerosa assistência”. “Mário Soares, contudo, com a sua enorme presença de espírito, afirmou que aquele ruído era ´uma salva em honra de Guimarães´, o que lhe valeu uma enorme salva de palmas por parte dos presentes”, relatou o DN.

  • 16 Set 1986

    Adriano Moreira acusa Cavaco Silva de demagogia

    Por Pedro FigueiredoFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    As ondas de choque das declarações de Cavaco Silva no Conselho Nacional do PSD ainda se faziam sentir, com o CDS, então liderado por Adriano Moreira, a vir agora a público repudiar o que considerava serem “práticas e afirmações de confucionismo demagógico” por parte do então primeiro-ministro e líder do PSD. “Na sequência do estilo gratuito inaugurado no discurso estival do Pontal, o senhor primeiro-ministro voltou, agora, a pretender identificar a estratégia dos comunistas com a oposição construtiva do CDS para demagogicamente confundir perante a opinião pública, comportamento totalitário com crítica responsável e democrática”, podia ler-se no Diário de Notícias. “Não é o CDS que defende, como o primeiro-ministro e o PCP, o regime marxista do MPLA, com agravos à UNITA; não é o CDS, mas o PSD, que se alia ao PCP para eleger o Presidente da Comissão Regional do Turismo do Algarve e não é o CDS, mas o senhor primeiro-ministro, que confunde a política cultural com refeições intelectuais e comprovadamente marxistas”.

    No DN era ainda notícia o atentado bombista ocorrido na véspera em Paris, que provocou “cinquenta feridos, dos quais cinco em estado grave”, um dos quais “viria a morrer ao princípio da noite”. “Em Beirute, uma voz anónima falando em mau francês reivindicava, pelo telefone, a autoria do atentado em nome do Comité de Solidariedade com o Prisioneiros Políticos Árabes e do Próximo Oriente (CSPPA)”, noticiava o DN. A organização, que de acordo com o DN “já reivindicara quatro dos cinco últimos atentados”, pretendia a libertação de “três indivíduos que se encontram nas prisões francesas por crimes de terrorismo”.

  • 15 Set 1986

    Médicos ameaçam Leonor Beleza com greve geral

    Por Pedro FigueiredoFoto GUILHERME VENâNCIOFoto GUILHERME VENâNCIO

    Em Portugal, a então ministra da Saúde, Leonor Beleza, estava sob fogo dos médicos, que ameaçavam lançar uma greve geral no início de outubro. “A Coordenadora Nacional dos Sindicatos dos Médicos lançará uma greve geral na primeira quinzena de outubro se o Ministério de Leonor Beleza ´mantiver a sua atual intransigência´ face às principais reivindicações da classe”, escrevia o Diário de Lisboa (DL). Os médicos reivindicavam “emprego para todos” os profissionais de saúde e “condições dignas de trabalho”. “Segundo a Comissão Organizadora dos Médicos, que reuniu em Coimbra no último fim de semana, isso passa pela reorganização geral dos serviços de saúde e pela atualização salarial em proporção à CEE”, acrescentava o DL.

    Lá fora, uma vaga de atentados “de Seul a Paris e de Carachi a Barcelona” merecia destaque na edição do Diário de Notícias (DN), que acompanhava também a reunião do Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da CEE que tinha início em Bruxelas, onde poderiam ser aprovadas sanções à África do Sul “como forma de pressão para a introdução de reformas no regime de ´apartheid´. “Se a imposição destas medidas se concretizar, isso significará que foram ultrapassadas, pelo menos em termos práticos, as reservas que têm sido apresentadas pela Alemanha Federal e por Portugal”, alvitrava o diário.

  • 14 Set 1986

    Cavaco Silva alerta PSD para estratégia do PCP para derrubar o Governo

    Por Pedro FigueiredoFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    No Conselho Nacional do PSD da véspera, o então primeiro-ministro alertava os seus correligionários para a existência de uma “estratégia muito clara” do PCP para “arrastar outros partidos da área democrática, mesmo se possível do CDS” no sentido de derrubar o governo [Cavaco Silva chefiava então um governo minoritário eleito em outubro de 1985, que viria a cair em agosto de 1987 na sequência da aprovação de uma moção de censura na Assembleia da República]. “O Conselho Nacional ontem [sábado] reunido num hotel da capital foi dominado praticamente pelo discurso de Cavaco Silva, que atribui ao PCP a liderança da estratégia de derrube do governo. Segundo Cavaco, os comunistas vão tentar desgastar o executivo e o dirigente do PSD prevê ´uma tremenda onda de greves desencadeada pela CGTP”, escrevia então o Diário de Notícias (DN).

    Aos microfones da Antena 1, o líder do PCP insistia na necessidade de nomeação de um governo “de alternativa democrática” apoiado pelos comunistas, PS, PRD, MDP e Os Verdes, que não implicaria necessariamente “a participação de representantes de todos os partidos no executivo”. “O dirigente comunista disse ainda que o governo poderia ser demitido pelo Presidente da República, através da aprovação de uma moção de censura na Assembleia da República ou mediante a demissão do primeiro-ministro, o que ´seria o ato mais relevante da sua carreira política”, podia ler-se no DN.

  • 13 Set 1986

    Liberdade condicional para espiões detidos em Washington e Moscovo

    Por Pedro Figueiredo

    Em plena guerra fria, o Diário de Notícias (DN) fazia hoje manchete com a liberdade condicional concedida por Moscovo ao jornalista norte-americano Nicholas Daniloff e pelas autoridades norte-americanas do físico soviético Gennady Zakharov. “Ambos são acusados de espionagem e ficarão a aguardar julgamento sob custódia das respetivas embaixadas”, escrevia então o DN. Apesar da coincidência, o então secretário de Estado norte-americano, George Schultz, sublinhou em conferência de imprensa na Casa Branca não existir “equivalência” entre os dois casos. “Daniloff não é um espião”, enfatizou. “O correspondente da revista norte-americana [´US News and World Report´] foi preso pelo KGB depois de aceitar um pacote entregue por um cidadão soviético seu conhecido. O KGB afirmou na altura que o pacote continha documentos secretos. Por sua vez, Zakharov foi detido pelo FBI quando alegadamente procedia à compra de segredos militares dos Estados Unidos”, lembrava o DN.

    Ainda no DN eram reproduzidas declarações do então Presidente da República ao semanário francês ´L´Express´, na qual Mário Soares advogava a necessidade de uma revisão constitucional em Portugal que fizesse desaparecer “um certo número de vestígios do poder militar do período de transição”. “Há ainda uns certos afloramentos de ideologismos radicais [na Constituição] (…) o Estado não pode tomar o lugar, substituir ou sobrepor-se à empresa (…) veja-se o que deram as experiência dos Estados comunistas”, observava Soares.

    No Diário de Lisboa (DL) era notícia a “importante campanha de reivindicação” que a CGTP se preparava para lançar “em defesa do horário de trabalho de 40 horas”. “A exigência da redução do tempo de trabalho, que na indústria e em certas áreas dos serviços continua a ser de 48 horas, constava já das conclusões do último Congresso da CGTP, mas esta é a primeira vez que uma central sindical portuguesa a inclui entre as grandes linhas de ação reivindicativa”, lembrava o DL.

  • 12 Set 1986

    Soares ouve queixas do presidente da Câmara da Amadora

    Por Pedro FigueiredoFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    Nas comemorações do sétimo aniversário de Amadora a concelho, o Presidente da República, Mário Soares ouviu queixas do então presidente da câmara Orlando de Almeida. “Passados sete anos, o Estado ainda não pagou a conta da instalação da Amadora”, lamentou Orlando de Almeida, apontando a circunstância de o recém-criado município não dispor de um hospital ou de um tribunal, “nem a tão falada passagem inferior na via férrea”, além de ter ainda “20 mil pessoas que vivem em Barracas”.

    Neste dia eram também divulgados os números da inflação, que no final de agosto tinha descido para 13,4 por cento, “contra os 22,5 por cento no mesmo mês do ano passado”.

    Notícia foi também o convite dirigido a Mário Soares para visitar a URSS em data a anunciar do ano seguinte. “O convite, que lhe dirigiu o presidente do Soviete Supremo da URSS e o Chefe de Estado, Andrei Gromyko, foi entregue a Mário Soares na quarta-feira pelo encarregado de Negócios em Lisboa. Soares será o primeiro presidente português constitucionalmente eleito a visitar oficialmente a URSS”, observava o Diário de Notícias.

  • 11 Set 1986

    Cavaco Silva criticado por ter pedido fim dos apoios à UNITA

    Por Pedro FigueiredoFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    O primeiro-ministro, Cavaco Silva, estava debaixo de fogo em Portugal na sequência do apelo que teria feito, no âmbito da sua visita oficial aos Estados Unidos, para que Washington cessasse “o apoio militar à UNITA”. “Cavaco Silva não tem conhecimento do que se passa em Angola”, declarou o então presidente da Juventude Centrista, Manuel Monteiro, que tinha visitado durante 20 dias zonas controladas pela UNITA, tendo assistido ao 6º Congresso do movimento oposicionista angolano. “Não é assim que os interesses portugueses são defendidos”, esgrimiu Manuel Monteiro, argumentando que Portugal “pode e deve ser parceiro privilegiado no sentido de se conseguirem negociações que conduzam à paz em Angola”.

    Há 30 anos eram também notícia as receitas do turismo, que tinham batido recordes nesse ano. “No ano corrente, as entradas gerais de estrangeiros deverão ultrapassar os 13 milhões e as receitas turísticas deverão atingir os 240 milhões de contos, contra, respetivamente, dois milhões de entradas e dez milhões de contos de há 10 anos”, afirmou o secretário de Estado do Turismo, Licínio Cunha, citado pelo Diário de Notícias.

    Em Lisboa, a revista “Mulheres” promoveu há três décadas um debate que mereceu cobertura noticiosa do DN. “Homem, mulher, quem manda ou não manda, quem tem o poder ou não tem, quem agride ou quem ampara, quem protege quem, de tudo se falou em dois debates organizados na segunda e terça-feira pela revista ´Mulheres´. Debates que tiveram um primeiro dia de uma mornidão quase insuportável, cheio de estereótipos e lugares-comuns, ainda com a conversa das feministas agressivas e as outras”, podia ler-se.

  • 11 Set 1986

    Estação do Campo Grande construída há 30 anos depois de sanado conflito com Sporting

    Por Marta ClementeFoto João RelvasFoto João Relvas

    Foi em setembro de 1986 que se iniciaram as obras de construção da estação do Campo Grande, a primeira feita à superfície em Lisboa. Foi um diferendo de três anos entre o Metropolitano de Lisboa e o Sporting que atrasou tudo.

    Para a construção daquela estação, o Metro precisava de uns terrenos do clube de Alvalade e propôs, em 1983, a sua aquisição por 445 mil euros (89 mil contos na altura), mas o Sporting rejeitou e apresentou uma contraproposta de 1,75 milhões de euros (350 mil contos).

    O conflito só seria resolvido em 1986, já com a intervenção do então presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Krus Abecasis, tendo o Sporting recebido 710 mil euros (142 mil contos), valor que correspondia à atualização da proposta inicial do Metro tendo em conta a inflação.

    A construção daquela estação inseriu-se numas grandes obras de ampliação da rede do Metropolitano que a empresa encetou naquele período e que prolongaram as linhas em mais oito quilómetros.

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  • 10 Set 1986

    Portugal e China discutem futuro de Macau

    Por Pedro FigueiredoFoto LIM CHOIFoto LIM CHOI

    As negociações entre Portugal e a China com vista à transferência de soberania do território para Pequim – que haveria de consumar-se a 20 de dezembro de 1999 - era assunto de primeira página no Diário de Notícias (DN) de há 30 anos. “O futuro de Macau esteve de novo na mesa das negociações que decorreram, durante dois dias, na residência para hóspedes oficiais do parque Diaoyutai, em Pequim. Após a reunião, as delegações chinesa e portuguesa não forneceram pormenores sobre o teor dos assuntos tratados”, escrevia o DN. Fontes diplomáticas citadas pelo diário indicavam que tinham sido abordados assuntos como a autonomia de que o território passaria a gozar sob administração chinesa, mas que existia ainda um contencioso relativamente aos 100 mil residentes de origem chinesa “possuidores de passaporte ordinário português”. “A este propósito, as autoridades de Lisboa têm afirmado, repetidamente, que honrarão as suas obrigações para com os portugueses que desejem manter a nacionalidade. Divergente é, contudo, a posição da China, ao adotar uma atitude rígida nesta matéria, uma vez que tem como certo que um indivíduo de raça chinesa é chinês de nacionalidade”, escrevia o DN.

  • 09 Set 1986

    Cavaco Silva recebido no Pentágono

    Por Pedro FigueiredoCaspar Weinberger; foto Alfredo CunhaCaspar Weinberger; foto Alfredo Cunha

    Em visita oficial aos Estados Unidos, o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, foi recebido no Pentágono, almoçou com o secretário de Estado da Defesa, Caspar Weinberger, e com o diretor da CIA, William Casey. “O encontro entre o primeiro-ministro português e William Casey traduziu-se num longo ´cavaqueio´ sobre a situação no sul de África e particularmente sobre Angola, tendo como ponto quente da atualidade o apoio financeiro e militar que Washington presta à UNITA, canalizado pela administração americana”, escrevia o Diário de Lisboa.

    No Chile, a resposta das autoridades ao atentado da véspera contra Augusto Pinochet saldou-se em buscas e “numerosas detenções”. Encontramo-nos numa guerra entre democracia e marxismo, entre o caos e a democracia”, declarou o então presidente do Chile, que na véspera surgira na televisão “com a mão esquerda ligada”.

    No Diário de Notícias de há 30 anos era também notícia o feito alcançado então pelo empregado de mesa João Manuel Sousa Ferreira, que conseguiu entrar para o livro do ´Guiness´ ao percorrer os 132 quilómetros que separam Porto e Lamego com uma bandeja com copos na mão.

  • 08 Set 1986

    Álvaro Cunhal quer substituir Governo de Cavaco

    Por Pedro FigueiredoFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    Há 30 anos, num discurso premonitório feito no encerramento da 11.ª Festa do Avante, o então líder do PCP, Álvaro Cunhal, defendia a necessidade de substituir o governo minoritário chefiado pelo social-democrata Aníbal Cavaco Silva por outro, de “convergência democrática” com outras forças políticas, de que os comunistas fizessem parte. Defendendo que a eleição de Mário Soares para Belém, no início desse ano, tinha provocado “uma evolução favorável na situação política portuguesa”, Cunhal especificava que a “alternativa democrática” que preconizava dispensaria “eleições antecipadas” já que, enfatizou, “os partidos democráticos já dispõem no conjunto de uma maioria na Assembleia da República”.

    Lá fora, era notícia o atentado falhado contra o então presidente chileno. “Augusto Pinochet escapou a noite passada a uma emboscada numa rua dos arredores de Santiago, organizada pela Frente Patriótica Manuel Rodriguez, de extrema-esquerda”, podia ler-se no Diário de Lisboa. Pinochet “foi apenas atingido por um estilhaço na mão esquerda”, mas entre os elementos da sua comitiva e da sua segurança registaram-se sete mortos e alguns feridos. Na sequência do atentado, o líder chileno decretou o estado de sítio em todo o território numa tentativa de capturar os autores da ação. “A organização que reivindicou o atentado que ´na próxima vez´ não falhará”, noticiava ainda o Diário de Lisboa.

    No desporto, o Belenenses era a equipa sensação do arranque da temporada 1986/1987 de futebol, mantendo-se invencível à terceira jornada da I Divisão.

  • 07 Set 1986

    Ataque a Sinagoga em Istambul provoca 23 mortes

    Por Pedro FigueiredoFoto ACáCIO FRANCOFoto ACáCIO FRANCO

    O ataque a uma sinagoga em Istambul, na Turquia, era destaque na edição do DN. “Cinco homens armados atacaram ontem [sábado] de manhã uma sinagoga de Istambul durante as orações, causando 23 mortes e cerca de uma dezena de feridos”, noticiava o matutino, adiantando que o ataque, levado a cabo por “cinco homens que se faziam passar por fotógrafos”, fora reivindicado por “três grupos árabes”.

    A edição de domingo do DN publica ainda o relatório “O Parlamento visto por dentro”, encomendado pelo então presidente da instituição, Fernando Amaral. “O Parlamento teve cerca de 4500 contos de gastos de correio e esteve reunido em plenário durante um total de 516,5 horas na sessão legislativa de 1985/86”, escrevia o DN sobre um documento que “não inclui qualquer referência ou crítica aos erros cometidos”, mas se dedica antes a “referência elogiosas aos serviços, conferência de líderes, membros da mesa e principais responsáveis das comissões parlamentares”. Fernando Amaral dedicou ainda uma parte do documento aos jornalistas parlamentares, distinguindo os que se impõem “pela ajustada denúncia, pela lucidez morigeradora e pela inteligência corretora dos comportamentos políticos”, dos que “alimentam a intriga e dos seus escritos fazem pátio de soalheiro político para achincalhar a dignidade das funções e aviltar o mútuo respeito que nos devemos” – profissionais que, vaticinou, “vão sofrendo pouco a pouco o isolamento dos proscritos”.

  • 06 Set 1986

    Libertação de avião norte-americano provoca entre 30 e 40 mortes

    Por Pedro Figueiredo

    A “libertação do Boeing em Carachi” faz manchete no Diário de Notícias, que noticia a morte de “30 a 40 pessoas” na ação. “A libertação do aparelho da Pan Am foi desencadeada por comandos paquistaneses quando os quatro sequestradores abriram fogo dentro do avião, onde se encontravam 400 passageiros, na sua maioria indianos, e 44 norte-americanos”, escrevia o DN.

    Na edição do DN de há 30 anos foi também noticiado que o então presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, se deslocaria a Portugal “pela segunda vez” nesse ano. “Recorde-se que o presidente da CEE esteve em abril em Portugal e, tendo visitado os trabalhos de construção do nó de Albergaria, sobre os troços da autoestrada do norte”, podia ler-se.

    No circuito de Monza, o piloto brasileiro Ayrton Senna tinha sido o mais rápido na primeira sessão de treinos oficiais do Grande Prémio de Itália. “O Grande Prémio de Itália, a disputar amanhã, poderá dar mais uma importante achega para a definição do título mundial de Fórmula 1 de 1986. Com efeito, com quatro pilotos candidatos ao título e espaçados entre eles apenas por oito pontos, tudo começa a tornar-se crítico”, podia ler-se no DN.

  • 05 Set 1986

    Avião norte-americano sequestrado no Paquistão

    Por Pedro FigueiredoFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O sequestro de um avião norte-americano no aeroporto de Karachi, no Paquistão, é a notícia do dia no vespertino Diário de Lisboa. O Boeing 747 da companhia norte-americana Pan Am, com 400 passageiros, fora sequestrado na manhã desse dia “por um grupo de quatro homens que, a acreditar numa reivindicação feita em Nicosia, pertenceriam a um grupo chamado “Células Revolucionárias Líbias”. “Este acontecimento deixa em aberto a possibilidade do agravamento do conflito entre Washington e Tripoli, particularmente tendo em atenção as recentes declarações e ameaças”, podia ler-se no vespertino.

    Nos Açores, Mário Soares foi recebido com gravatas pretas pelo então presidente do Governo Regional, Mota Amaral, e pelos deputados regionais do PSD, durante as cerimónias do 10º aniversário da autonomia. O motivo: ainda o veto político do então Presidente da República ao estatuto regional. “Outra nota de desagrado foi dada pelo ostensivo silêncio dos deputados regionais do PSD no final do discurso do Presidente da República, aplaudido pelos restantes deputados do PS, PCP e CDS”, dava conta o Diário de Lisboa.

    Notícia do dia foi também a morte, na véspera, do técnico brasileiro de futebol Otto Glória. “Era já morte esperada, tão ténues os laços que o prendiam à vida, ele que nos últimos tempos vinha sofrendo de grave enfermidade (…) Duas operações, depois da lesão cerebral sofrida no domingo, não foram suficientes para que a medicina devolvesse Otto Glória ao estado consciente”, podia ler-se.

  • 04 Set 1986

    Soares veta estatuto dos Açores

    Por Pedro FigueiredoFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    A decisão do então Presidente da República, Mário Soares, de vetar politicamente o estatuto político-administrativo da Região Autónoma dos Açores, devolvendo-o à Assembleia da República para reapreciação, faz manchete em todos os jornais do dia. “Suscitou-se uma polémica exacerbada, com tomadas de posição irrefletidas e emocionais, visando porventura exercer pressão sobre o Presidente da República, a quem compete constitucionalmente promulgar ou não o referido diploma”, justificou então Mário Soares.

    Há 30 anos, em Harare, no Zimbabué, o então Presidente de Moçambique, Samora Machel, fazia ouvir a voz de Timor-Leste na VIII Cimeira dos Não Alinhados. Cabe a esta Assembleia tomar posição firme a favor dos direitos à autodeterminação e ao reconhecimento da independência do povo de Timor-Leste. Em Timor-Leste estamos perante a ocupação de um território, a privação do direito à liberdade de um povo, à violação flagrante dos princípios do nosso movimento”, disse.

  • 03 Set 1986

    Pensões mínimas com aumentos entre 14 e 45%

    Por Pedro FigueiredoFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    O Conselho de Ministros presidido pelo então primeiro-ministro, Cavaco Silva, decidiu “proceder a uma atualização extraordinária dos valores mínimos das pensões de invalidez e velhice”, com aumentos de “14 a 45 por cento”, bem como a “atualização das reformas dos pescadores em montantes que variam entre 26 e 129 por cento”. “A medida vai abranger cerca de um milhão e 300 mil portugueses”, representando “um acréscimo da despesa do Estado” já em 1986 “de cerca de nove milhões de contos”.

    Apesar dos aumentos decididos pelo Governo, era o estatuto político-administrativo dos Açores, debatido na véspera em Conselho de Estado presidido pelo então Presidente da República, Mário Soares, que dominava as manchetes do dia. O Diário de Lisboa assegurava em manchete que Soares se preparava para vetar politicamente o diploma “com indicação para a Assembleia da República de reapreciação urgente dos pontos controversos”. Pelo contrário, o Diário de Notícias noticiava não ter existido “o menor atrito entre os membros do Conselho de Estado” sobre o diploma e que Mário Soares “não terá pedido a nenhum conselheiro expressamente uma opinião sobre se deveria ou não vetar o Estatuto”.

  • 02 Set 1986

    Comandos Armados de Libertação reivindicam atentado no Algarve

    Por Pedro Figueiredo

    O Diário de Notícias regressa na edição de hoje ao atentado da véspera no Algarve – que não pôde noticiar então, por a edição já se encontrar nas rotativas. De acordo com o matutino, as quatro explosões foram reivindicadas “por telefonema por um homem de sotaque estrangeiro” em nome de uma organização até então desconhecida, auto denominada “Comandos Armados de Libertação”. “O autor do telefonema, que se declarou amigo das FP-25 e da ETA militar” anunciou “uma série de ações terroristas em Portugal”, visando desta vez “juízes, chefes de departamentos governamentais, médicos, gerentes bancários, altos funcionários da Polícia e todos os exploradores do povo”. A acrescer à confusão, “à tarde a ´ORA, Organização Revolucionária Armada´ reivindicou também a autoria das ações armadas realizadas no Algarve”. “Em comunicado deixado num caixote do lixo da Avenida da Liberdade, em Lisboa, com aviso telefónico para a Anop, aquela organização disse que os rebentamentos se inseriam na luta ´pela independência nacional´”.

    Há 30 anos era também notícia o regresso à prisão da “banqueira do povo”, agiota que protagonizou um mediático escândalo financeiro na década de 1980 em Portugal. Insensível às “22 doenças” de que alegava padecer, o Tribunal da Relação de Lisboa ordenou o regresso de Maria Branca dos Santos – conhecida como Dona Branca – à “cadeia das Mónicas”. “O acórdão refere que essas doenças ´além de poderem ser tratadas no estabelecimento prisional, não significam que os réus estejam de tal forma diminuídos física e psiquicamente que afastem a sua periculosidade”, podia ler-se.

  • 01 Set 1986

    Quatro bombas explodiram em aldeamentos turísticos algarvios

    Por Pedro Figueiredo

    “Quatro bombas contra Algarve”, noticia, em grande destaque de meia página, o Diário de Lisboa. Na madrugada de 01 de setembro, “quatro bombas de grande potência” explodiram em três aldeamentos turísticos algarvios e num supermercado, não fazendo vítimas mas provocando “avultados danos materiais”. Um dos engenhos deflagrou “perto da casa de férias” do então Presidente da República, Mário Soares. O vespertino adiantava que, apesar de não terem sido ainda reivindicados, os atentados “poderão estar relacionados com recentes ameaças de um ´Setembro Negro´ nas estâncias turísticas portuguesas e espanholas.

    Na sua primeira edição de setembro de 1986, o vespertino lisboeta, tal como a generalidade da imprensa matutina, dá também grande destaque à colisão entre dois aviões ocorrida na véspera em Los Angeles, nos Estados Unidos, que tinha provocado 77 mortos.

    O Diário de Notícias dá ainda conta da irritação do então Chefe do Estado que, numa visita a Lagos no final do seu habitual período de férias no Algarve, constatou que as antigas muralhas que circundam a cidade estavam a ser recuperadas, não “com os materiais antigamente usados”, mas com cimento. “Interrogo-me porque é que isto foi feito e vou perguntar porquê”, ameaçou.

  • 31 Aug 1986

    Lemos Ferreira responde a Mota Amaral

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Guilherme VenâncioFoto Guilherme Venâncio

    A questão sobre o Estatuto dos Açores continua na atualidade já que Lemos Ferreira, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas afirma que foi uma “ironia do destino” o local do discurso do presidente do governo Regional dos Açores.

    Mota Amaral tinha criticado as posições de Lemos Ferreira sobre a utilização dos símbolos regionais enquadrados no Estatuto Político-Administrativo dos Açores, num discurso na ilha do Corvo.

    Para o chefe de Estado Maior General das Forças Armadas foi “irónico” porque Mota Amaral se deslocou ao Corvo num avião da Força Aérea e discurso na pista construída pelos militares para a população civil.

    Na mesma edição, o DN reproduz a entrevista do deputado do PS, António Guterres, à Antena 1, em que afirma que o partido não está empenhado em “nenhuma corrida para derrubar” o governo do PSD,

    “O PS não quer eleições mas também não as teme”, disse Guterres, deputado socialista e membro da Comissão Política do partido.

  • 30 Aug 1986

    Fraudes bancárias no Algarve

    Por Pedro Sousa Pereira

    O semanário Expresso destaca uma notícia sobre as investigações da Polícia Judiciária e da Alta Autoridade Contra a Corrupção que detetaram indícios de prática de fraudes “em grande escala” na atividade bancária algarvia.

    Segundo as fontes do Expresso, as alegadas burlas terão sido levadas a cabo no âmbito “do crédito e de outras operações bancárias relacionadas com o surto de construção civil que, em relação com o crescimento da atividade turística”, se estendeu a todo o litoral, “nos últimos anos”.

    O jornal refere especificamente um caso relacionado com o Banco Fonsecas & Burnay sendo que as autoridades investigam também a gerência de uma delegação do Bando Espírito Santo e Comercial de Lisboa na zona de Portimão.

    “A construção de uma luxuosa vivenda por uma pessoa com responsabilidades naquele balcão teria sido o ponto de partida para o inquérito desencadeado”, escreve o semanário.

    O Expresso dedica-se também a analisar as posições do presidente do Governo Regional dos Açores, Mota Amaral, sobre a “guerra dos símbolos regionais” cuja utilização foi criticada pelo chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.

    Lemos Ferreira criticou o uso da bandeira e do hino dos Açores pelas instituições públicas e que tem como pano de fundo o veto presidencial ao Estatuto dos Açores.

    “Só posso qualificar esta situação como um levantamento militar ‘soft core’”, responde Mota Amaral, num discurso na ilha do Corvo, sobre o assunto que vai tornar-se recorrente ao longo dos próximos anos.

  • 29 Aug 1986

    Governo apresenta projeto para a Comunicação Social

    Por Pedro Sousa PereiraFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    A edição de sexta-feira, 29 de agosto, do Diário de Notícias publica “em rigoroso exclusivo” o decreto-lei que define o regime legal das alienações de bens, títulos, quotas ou ações que o Estado detém em empresas de comunicação social.

    Segundo o DN, o decreto-lei contempla e enumera as condições necessárias e imperativas impostas aos candidatos ao concurso público exigido para as alienações de partes, quotas ou ações que o Estado ou entidades públicas possuam em empresas de comunicação social e, “bem assim”, dos títulos dos órgãos jornalísticos de empresas do setor público.

    A medida prevê as situações em que a “alienação possa resultar da reprivatização do órgão” ou da maioria do capital da respetiva em empresa.

    Em nenhum momento a notícia refere os títulos em causa mas publica as declarações de Luís Marques Mendes, secretário de Estado-adjunto para a Comunicação Social que no final da reunião do Conselho de Ministros do dia anterior afirma que o governo limitou-se a “cumprir a legalidade”.

    Ainda segundo o DN, as cooperativas de jornalistas têm primazia sobre outras candidaturas em eventuais concursos.

  • 28 Aug 1986

    Confrontos na África do Sul provocam 13 mortos

    Por Pedro Sousa PereiraFoto KIM LUDBROOKFoto KIM LUDBROOK

    Morreram 13 pessoas e mais de 70 ficaram feridas em confrontos registados no início da semana em várias localidades da África do Sul tendo o número de vítimas sido publicado na edição de quinta-feira do Diário de Notícias.

    “Doze negros foram mortos durante dois confrontos entre manifestantes e forças de segurança em White City, uma das áreas mais pobres do Soweto, a 16 quilómetros de Joanesburgo”, escreve o jornal referindo que a outra morte registou-se na província do Cabo durante “um incidente entre negros”.

    Jornalistas, que foram expulsos da zona na madrugada de quarta-feira, afirmaram que o número total de mortos pode ser superior a vinte, “salientando que a violência tem-se alastrado a outras zonas do Soweto.

    A notícia é acompanhada de uma fotografia da “nacionalista negra” Winnie Mandela, membro do Congresso Nacional Africano, perto do local dos confrontos entre a população do Soweto e as forças de segurança do regime do apartheid.

  • 27 Aug 1986

    Comércio do Porto vende sede para pagar dívidas

    Por Pedro Sousa PereiraFoto JOSé coelhoFoto JOSé coelho

    Segundo o Diário de Notícias, o conselho de administração do jornal Comércio do Porto recebeu poderes da Assembleia Geral de Acionistas da empresa para “proceder à dação do edifício sede da empresa”, na Avenida dos Aliados, Porto, ao Banco Borges e Irmão como forma de pagamento da dívida contraída junto da instituição bancária.

    De acordo com a mesma notícia, os trabalhadores do jornal, reunidos em plenário, opõem-se à alienação do edifício sede ou de qualquer outro património “sem que sejam tomadas medidas que garantam a efetiva viabilização da empresa”, admitindo recorrer a intervenção do governo e da Assembleia da República.

    Na página nove da edição do jornal é publicado um anúncio institucional da Segurança Social:

    “Segurança Social é para Todos” diz o anúncio que alerta os cidadãos a conhecerem os direitos que têm porque o sistema baseia-se “na solidariedade da população trabalhadora”.

    O mesmo anúncio que ocupa toda a página refere-se ao regime especial dos trabalhadores agrícolas; regime não contributivo ou equiparado e pensões de sobrevivência.

    No capítulo sobre encargos com pensões o anúncio indica que o número de pensionistas é muito elevado (quase dois milhões), “o que obriga a despender com pensões, no corrente ano (1986), cerca de 250 milhões de contos, ou seja mais de 70 por cento das receitas cobradas pela Segurança Social”.

    “Com as restantes receitas e comparticipações do Estado, são pagas as demais prestações: abonos de família, subsídios de doença e maternidade, subsídios de desemprego e ainda suportados os encargos com equipamentos sociais”, acrescenta o texto.

    “Conheça e utilize os seus direitos, veja qual é o seu caso – informe-se no Centro Regional de Segurança Social da área da sua residência”, conclui o anúncio que inclui fotografias de pensionistas assim como de pescadores e operários e uma dona de casa.

  • 26 Aug 1986

    PSD com nova sede nacional

    Por Pedro Sousa Pereira

    O Diário de Notícias publica duas páginas sobre a nova sede do PSD que prepara a instalação da sede nacional na Rua de São Caetano, à Lapa, devendo abandonar em breve a Avenida de Buenos Aires.

    “Cavaco Silva vai ter uma surpresa na remodelação do seu gabinete, revelou ao DN o secretário-geral adjunto do PSD Luís Geraldes”, escreve o DN acrescentando que a fonte descreve o que o partido tenciona fazer da casa comprada à família D’Orey mas não confirmou os valores despendidos.

    “Os cem mil contos de que se fala, só para a compra da casa, espera o PSD obtê-los através da comparticipação dos seus filiados, a quem foi enviada uma carta pedindo mil escudos e que, segundo Geraldes, têm respondido favoravelmente”, diz a notícia acrescentando que as obras de remodelação começam em setembro.

    No mesmo dia, é noticiado o corte de estrada pela população de Barqueiros, conselho de Barcelos, em protesto contra a abertura da mina de caulino na freguesia.

    A estrada de acesso à praia da Apúlia esteve bloqueada durante mais de dez horas.

  • 25 Aug 1986

    Eanes presidente do PRD em outubro

    Por Pedro Sousa PereiraFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    Na segunda-feira, 25 de agosto, o Diário de Notícias publica as declarações do secretário-geral do Partido Renovador Democrático, à agência NP, em que Lencastre Bernardo afirma que “o general Ramalho Eanes será, em outubro, presidente daquele partido político”.

    “Interrogado pela agência NP quanto a pressões exercidas, junto do antigo Presidente da República, para não entrar no partido, o secretário-geral dos renovadores democráticos referiu que têm existido amigos a tentar persuadir Eanes a não ingressar no PRD”, escreve o DN.

    “Outros amigos – adiantou Lencastre Bernardo – são da opinião de que deve deixar ‘queimar’ o partido e surgir com outro novo”, acrescenta o texto sobre o futuro do PRD.

    No mesmo dia é publicada a notícia de que a construção do novo aeroporto de Macau “já está em estudo”.

    O anúncio é feito pelo secretário-adjunto para os Assuntos Sociais Nuno Delerue, à saída de uma reunião do Executivo macaense.

  • 24 Aug 1986

    Credores propõem saneamento da Lisnave

    Por Pedro Sousa PereiraFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    A proposta de saneamento financeiro da Lisnave negociada com os bancos credores “já foi enviada” ao Ministério das Finanças disse ao Diário de Notícias um porta-voz do Banco Português do Atlântico.

    “Ainda não se conhece a forma de saneamento financeiro proposto pelas instituições de crédito, mas sabe-se que as propostas dos bancos liderados pelo BPA – o maior credor – ‘é diferente da apresentada pela Lisnave’” afirmou um membro da administração da empresa.

    Segundo a notícia, a fonte bancária escusou-se a indicar os valores em causa e a especificar a proposta por entender que a revelação poderia “perturbar ou ser usada como meio de pressão junto do Ministério das Finanças”.

    A Lisnave foi considerada em situação económica difícil em 27 de setembro de 1984.

  • 23 Aug 1986

    Macau negoceia com Stanley Ho

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Inácio RosaFoto Inácio Rosa

    Na notícia que faz a manchete do semanário Expresso lê-se que a administração de Macau encontra-se em negociações para prorrogar a concessão da exploração dos casinos do território à STDM de Stanley Ho.

    Segundo uma fonte do Executivo de Macau, o acordo final deve ser divulgado “nas próximas semanas” e que as contrapartidas a pagar pela Sociedade de Turismo de Diversões de Macau “são bastante avultadas”.

    O prazo deve ser alargado “para além de 1997, altura em que vizinha colónia britânica de Hong Kong será devolvida à China e em que se admite que Pequim queira também recuperar o enclave sob domínio português”.

    O Expresso destaca também as declarações do ex-conselheiro da Revolução Sousa e Castro no Tribunal de Monsanto, em que como testemunha abonatória de Otelo Saraiva de Carvalho, afirma que a ordem de detenção, em 1984, de 25 alegados membros das FP-25 fora ordenada porque se pensava que “entre eles” se encontrava o dirigente comunista António Dias Lourenço.

    “Como o Expresso já noticiou, tratava-se de Joaquim Dias de Lourenço que nenhuma relação tem com o membro da Comissão Política do PCP e diretor do jornal Avante”, explica o semanário sobre a sessão da última semana do julgamento dos implicados no caso FUP/FP 25.

    A edição de 23 de agosto do semanário dá particular destaque à morte de Alexandre O’Neill ocorrida na quinta-feira anterior recuperando partes de uma entrevista realizada pelo Expresso em 1985, antes de o poeta ter sido internado.

    “A vida interessa-me, o que não me interessa é a vidinha”, disse na altura Alexandre O’Neill ao Expresso que acompanha o texto com uma caricatura de António.

    “Quando morreu, noticiaram a sua morte no meio da crise filipina e da crise cavaquista. O Alexandre diria que era tudo alpista para dar aos ‘perikitsch’”, escreve ainda a jornalista Clara Ferreira Alves, no Expresso.

  • 22 Aug 1986

    Alexandre O’Neill morre aos 61 anos

    Por Pedro Sousa Pereira

    A edição de sexta-feira, 22 de agosto, do DN publica o obituário do poeta Alexandre O’Neill que morreu na tarde de quinta-feira.

    Uma notícia de duas colunas diz que o poeta de 61 anos encontrava-se em “estado grave desde abril” e encontrava-se internado no Hospital Egas Moniz, onde morreu.

    “Alexandre O’Neill fez estudos liceais, frequentou a Escola Náutica e exerceu, a seguir, diversas profissões, na Previdência Social, nas bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian e numa editora, sendo ultimamente técnico de publicidade”, escreve o jornal.

    O DN acrescenta que, em 1948, juntamente com Mário Cesariny e outros poetas e pintores, O’Neill fundou o Grupo Surrealista de Lisboa.

    O jornal refere também que no início do ano toda a obra poética de Alexandre O’Neill tinha sido publicada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda.

  • 21 Aug 1986

    Cavaco encontra-se com Mobutu em S. Bento

    Por Pedro Sousa PereiraFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    Num almoço em S. Bento, o primeiro-ministro Cavaco Silva e o presidente do Zaire Mobutu Sese Seko, de férias em Portugal, concordam que a “aproximação da República Popular de Angola aos Estados Unidos é uma atitude correta e sensata”.

    O Diário de Notícias recorda que Cavaco Silva deve encontrar-se com o presidente norte-americano, Ronald Reagan, em setembro, em Washington.

    Na secção Internacional do DN, o correspondente na capital dos Estados Unidos escreve um longo artigo sobre a “dispendiosa batalha” entre empresas de relações públicas norte-americanas que representam respetivamente a UNITA e o governo de Luanda “com vista a conquistarem a simpatia e o apoio do Congresso e do povo americano”.

    O artigo inclui as estratégias e as quantias pagas pelas duas partes às empresas de relações públicas, assim como as ligações Washington-Luanda relacionadas com exploração do petróleo e, por outro lado, a autorização de Ronald Reagan, ao “programa de ajuda clandestina de 15 milhões de dólares, controlados pela CIA, que incluiu o fornecimento aos rebeldes (UNITA) de sofisticados mísseis antiaéreos Stinger”.

  • 20 Aug 1986

    Otelo opôs-se a fuzilamentos

    Por Pedro Sousa Pereira

    No julgamento do caso FP-25, o antigo Presidente da República Costa Gomes afirma que, logo após o 11 de março de 1975, duranta uma assembleia do Movimento das Forças Armadas (MFA), Otelo Saraiva de Carvalho opôs-se a oficiais que defendiam o fuzilamento de “responsáveis pelo golpe”.

    Na mesma sessão prestaram também declarações, o brigadeiro Pezarat Correia, o tenente-coronel Vasco Lourenço e o major Salgueiro Maia, como testemunhas abonatórias de Otelo Saraiva de Carvalho.

    O Diário de Notícias reproduz as declarações de Pezarat Correia que lembra que Otelo foi preso um mês depois de Mário Soares, “então primeiro-ministro ter dito ao próprio que a este se deve a democracia em Portugal”.

    “Não posso desligar a posição atual de Otelo do clima geral em que vivemos de perseguição aos militares do 25 de abril”, acrescentou Pezarat Correia.

    Por seu lado, Salgueiro Maia afirma em tribunal que “em meios militares considera-se que a prisão de Otelo Saraiva de Carvalho se insere no contexto de marginalização e perseguição aos militares do 25 de abril”.

    No DN, o discurso do Pontal continua a marcar a atualidade com a publicação da notícia sobre o protesto do PCP contra a RTP pelo tratamento noticioso dado ao discurso de Cavaco Silva.

    “O documento oficial do PCP afirma que a repetição do discurso do Pontal prova ‘a completa instrumentalização daquele órgão de informação pelo governo e pelo PSD”, escreve o DN referindo-se à repetição de extratos da gravação durante os últimos dois dias.

    Para o PS, torna-se cada vez mais notório que o primeiro-ministro pretende abrir uma crise política artificial e acusa o PSD de “clientelismo”.

  • 19 Aug 1986

    Discurso de Cavaco contestado pela oposição

    Por Pedro Sousa PereiraFoto LUíS VASCONCELOSFoto LUíS VASCONCELOS

    A atualidade política nacional continua marcada pelo discurso do primeiro-ministro no Pontal em que, no último domingo à noite, Cavaco Silva critica a oposição de “querer o poder” mas não deseja a realização de eleições.

    Para o PS, as palavras de Cavaco lembram “o discurso oficial das falsas democracias”; o PCP afirma que o chefe do Executivo “foge” dos resultados concretos do próprio governo.

    Para o CDS, “não é fácil fazer um comentário sobre um dos textos políticos mais confusos dos últimos tempos” e para o MDP/CDE o primeiro-ministro “não suporta a oposição e pensa que 29 por cento são a maioria absoluta”.

    O PRD recusou-se a fazer comentários ao discurso do Pontal, em Faro.

    No mesmo dia, é anunciada por Mikhail Gorbachev a Cimeira entre os Estados Unidos e a União Soviética que paralelamente se refere à prorrogação da moratória nuclear até janeiro de 1987.

  • 18 Aug 1986

    Angola e Moçambique serão Estados poderosos

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Manuel MouraFoto Manuel Moura

    O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Azevedo Soares, do governo do PSD diz à Antena 1 que “Angola e Moçambique serão no futuro dos Estados poderosos, com uma política económica e cultura assinaláveis”.

    Em entrevista à Antena 1, Azevedo Soares refere que Portugal “pôs ultimamente em ação uma série de medidas que irão permitir tirar vantagens do passado africano português e do facto de na África Austral residirem milhares de portugueses”.

    Na entrevista transcrita no Diário de Notícias, além de prever o futuro de Angola e Moçambique, o secretário de Estado considera que, sobre Timor-Leste, não antevê conversações diretas entre Portugal e a Indonésia sob a égide das Nações Unidas.

  • 17 Aug 1986

    Portuguesa raptada pela Renamo morre em Moçambique

    Por Pedro Sousa Pereira

    A edição de domingo do Diário de Notícias informa sobre a morte de uma portuguesa raptada pela Renamo em Moçambique.

    A cidadã portuguesa “morreu em posse da Renamo” depois de ter sido raptada em julho de 1985 na localidade moçambicana de Luabo.

    Trata-se da quarta morte que ocorre num grupo de 19 portugueses sequestrados pelo movimento de Afonso Dhlakama.

    A notícia incluiu declarações do filho da vítima que acusa a Renamo pela morte da mãe e critica o Governo português de negligência sobre a questão dos raptos.

  • 16 Aug 1986

    Guerra e Petróleo em Angola

    Por Pedro Sousa Pereira

    A edição do semanário Expresso de 16 de agosto destaca a ofensiva militar da África do Sul, apoiada por forças da UNITA, contra Cuito Cuanavale referindo que Luanda relaciona “o aumento da atividade militar sul-africana” com a proximidade da cimeira dos Não-Alinhados no Zimbabwe.

    A força atacante, segundo informações do Expresso em Luanda, seria integrada “por elementos da UNITA e do Batalhão Búfalo, financiado, equipado e treinado pela África do Sul, acompanhados de outros militares que operaram a artilharia pesada”.

    Por outro lado, outras fontes em Luanda indicam que o ataque de Pretória poderá ter sido desencadeado para evitar uma ofensiva das Forças Armados Populares de Angola (FAPLA) contra Mavinga, ponto estratégico de acesso à Jamba e onde está instalada uma importante pista de aviação da UNITA, à semelhança do que tinha acontecido em 1985.

    O Expresso acrescenta que desde o mês de maio, Luanda concentrava forças no Cuito Cuanavale registando-se desde junho “operações em escala limitada” junto da fronteira com a Zâmbia.

    Igualmente na primeira página, o Expresso revela que o governo angolano e a companhia norte-americana Cabinda Gulf (Chevron Corporation), com concessão para a exploração petrolífera no enclave, encerraram as negociações para o primeiro acordo global sobre a atuação da empresa em Angola.

    O valor do acordo pode ascender, refere o Expresso “aos dois mil milhões de dólares norte-americanos” anuais e foi acordado durante as conversações que se prolongaram durante os últimos cinco anos.

    “A empresa norte-americana obteve uma vantagem nunca antes conseguida – a concessão, em exclusivo, da prospeção e exploração petrolífera em toda a área de Cabinda, incluindo a chamada zona de águas profundas, até agora abandonada”, detalha o Expresso.

    Ainda segundo a mesma notícia, Luanda passa a reter, “a preços atuais” cerca de 80 por cento do rendimento bruto da exploração – incluindo 49 por cento do petróleo extraído, “quota que fica de posse da empresa estatal angolana Sonangol”.

  • 15 Aug 1986

    PSD tem pretexto ideal para a rutura

    Por Pedro Sousa Pereira

    Um texto de análise política publicado no DN e assinado pela jornalista Helena Sanches Osório considera que o “PSD pode ter no orçamento para 1987 o pretexto ideal para a rutura” como estratégia para conseguir a maioria absoluta, em caso de eleições legislativas antecipadas.

    “Cavaco Silva tem o apoio de uma nova e vigorosa geração de sociais-democratas que, do estilo à tática, tudo modificaram no partido. Um dia, quererão aparecer à luz do dia e, depende do líder atual do PSD ser ‘empurrado para cima’ voluntariamente ou entrar em conflito e esfumar-se no sótão, recheado das relíquias do partido”, refere a longa análise sobre o PSD.

    Na mesma edição o jornal publica também as declarações dos dirigentes das duas centrais sindicais, CGTP e UGT, que “por causas diferentes” são unânimes ao considerarem que o “verão de 1986 regista o maior surto grevista desde o 25 de abril de 1974”.

    Mesmo assim, Carvalho da Silva, secretário-coordenador da CGTP, afirma que a UGT “está do lado oposto da luta dos trabalhadores” referindo-se ao acordo que celebrou no Conselho de Concertação Social.

  • 14 Aug 1986

    Mobutu de férias no Algarve

    Por Pedro Sousa PereiraFoto GUILHERME VENâNCIOFoto GUILHERME VENâNCIO

    O Diário de Notícias destaca a chegada do presidente da República do Zaire, Mobutu Sese Seko que acompanhado de uma comitiva de 30 pessoas se prepara para um período de férias na casa de que é proprietário no Algarve.

    A fotografia publicada pelo jornal mostra o Boeing 727 do chefe de Estado zairense na placa do Aeroporto Internacional de Faro “escondido pela segurança dado o carácter privado da viagem”.

    Na mesma edição, é publicado um documento da Comissão de Trabalhadores da RTP dirigido à Assembleia da República em que defende a produção nacional com “recurso a autores e artistas portugueses” mostrando-se contra os programas “enlatados estrangeiros”.

    “Nos Estados Unidos, a concorrência desenfreada entre as cadeias privadas levou à criação da televisão pública, para responder à necessidade de emissão de programas culturais e educativos, no sentido de salvaguardar a identidade histórica e cultural do país”, refere o documento dos trabalhadores da RTP.

  • 13 Aug 1986

    Ataques militares da África do Sul em Angola

    Por Pedro Sousa PereiraFoto LUíS VASCONCELOSFoto LUíS VASCONCELOS

    A manchete do Diário de Notícias, na edição de 13 de agosto, noticia dois ataques militares da África do Sul ocorridos no domingo contra Cuito-Cuanavale, no sul de Angola.

    De acordo com as informações do Ministério da Defesa de Angola, citadas pela ANGOP, morreram quarenta atacantes sul-africanos, tendo sido capturados quatro.

    O comunicado refere também que no ataque “à localidade de Cuito Cuanavale, na província do Cuando Cubango” estiveram envolvidos três batalhões sul-africanos, apoiados por veículos blindados e artilharia.

    Durante os combates, morreram dois soldados angolanos e 23 civis, acrescenta a agência de notícias de Luanda.

    O regime de Pretória não comenta o ataque mas, entretanto, o presidente da República Mário Soares envia ao chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, uma mensagem de solidariedade a propósito da operação militar.

    “Na mensagem, transmitida através da embaixada de Portugal em Luanda, Mário Soares exprime a José Eduardo dos Santos e ao povo angolano ‘a solidariedade do povo português’”, escreve o DN.

    Três anos depois, o culminar da batalha do Cuito Cuanavale – um dos maiores confrontos bélicos do século XX - em que também estiveram envolvidas forças cubanas e soviéticas, vai determinar o fim das ofensivas sul-africanas em Angola e a presença de Pretória na Namíbia e marca o início do fim do regime do apartheid.

  • 12 Aug 1986

    A guerra dos taxistas complica-se

    Por Pedro Sousa PereiraFoto MANUEL MOURAFoto MANUEL MOURA

    O início da semana fica marcado pelo protesto dos taxistas do norte de Portugal com duas centenas de profissionais portugueses a bloquearem a estrada de acesso à fronteira de Valença do Minho impedindo a entrada dos condutores de táxis galegos.

    “Com esta atitude, os taxistas das regiões fronteiriças do Alto Minho pretendem denunciar as apreensões e as atuações feitas pela brigada espanhola a seis profissionais portugueses a quem foram aplicadas multas que ascendem a 45 mil pesetas”, escreve o Diário de Notícias sobre os protestos das últimas 24 horas.

    O jornal cita uma fonte da ANTRAL, entrevistada pela ANOP, que acrescenta que os taxistas portugueses não podem “entrar nem sair de Espanha entre as 00:00 e as 08:00, enquanto os taxistas espanhóis entram em Portugal a qualquer hora.

    Na secção de Economia, o DN publica os alertas do Executivo da Arábia Saudita que indica que o preço do petróleo pode atingir os 20 dólares por barril “nos próximos dias”.

    “Como consequência do aumento dos preços do petróleo nos mercados internacionais, vão ser aumentados os preços dos combustíveis na Grã-Bretanha e em França”, acrescenta a notícia.

  • 11 Aug 1986

    Taxistas galegos contra bloqueio português

    Por Pedro Sousa Pereira

    Os taxistas de Verin, na província espanhola da Galiza, prometem desencadear “ações de força” contra os taxistas portuguese.

    Os profissionais de Portugal insistem no bloqueio aos postos fronteiriços do norte do país para impedirem a entrada em Portugal de automóveis espanhóis de serviço público.

    Mesmo assim, os taxistas galegos disseram ao Diário de Notícias que são favoráveis à passagem dos profissionais dos dois países pela fronteira desde que cumpram o serviço a partir do país de origem.

    Entretanto, a Associação de Transportes Rodoviários e de Automóveis Ligeiros de Portugal (ANTRAL) defende que o bloqueio dos taxistas portugueses aos colegas espanhóis “é um protesto pela apreensão de táxis portugueses que se deslocam a Espanha em serviço”.

    Segundo a ANTRAL, as autoridades espanholas, na Galiza, multaram em “40 mil pesetas” seis taxistas portugueses por alegada falta de documentação de viagem”.

  • 10 Aug 1986

    Reformados pedem demissão da ministra da Saúde

    Por Pedro Sousa PereiraFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    A crise no setor da saúde regressa às primeiras páginas dos jornais devido à posição de reformados e pensionistas que exigem a demissão da ministra Leonor Beleza por causa das taxas moderadoras.

    O Movimento Unitário dos Reformados e Pensionistas e Idosos (MURPI) considerou anticonstitucional a reposição das taxas moderadoras e exige, por isso, a demissão da ministra da Leonor Beleza “antes que faça mais estragos nos serviços de saúde”.

    O MURPI considera, num comunicado, divulgado na imprensa, que embora os pensionistas não sejam atingidos não pode deixar de reclamar a revogação imediata das “escandalosas taxas moderadoras”.

    O texto sublinha que os idosos e os inválidos fazem parte dos grupos mais atingidos pelo “sistema unidose de medicamentos” cada vez mais caros, tal como são os mais atingidos, afirmam, “pelo sádico novo esquema de assistência para os tratamentos de medicina física e reabilitação”.

    O esquema do ministério, acrescenta o comunicado, visa afastar os utentes dos tratamentos “quer pelo cansaço de tanta espera quer por incapacidade física e económica para a deslocação aos centros de saúde e hospitais”.

    O Diário de Notícias escreve que a política de saúde da ministra Leonor Beleza tem sido contestada por vários setores, entre os quais os médicos policlínicos que tinham estado em greve recentemente.

  • 09 Aug 1986

    Bissau escondeu as datas dos fuzilamentos dos condenados políticos

    Por Pedro Sousa PereiraFoto ALFREDO CUNHAFoto ALFREDO CUNHA

    Os “condenados da Guiné” já estavam mortos quando Mário Soares intercedeu escreve o semanário Expresso sobre os processos políticos em Bissau.

    Paulo Correia e os outros cinco réus condenados à morte “recentemente” na Guiné-Bissau já tinham sido fuzilados quando o Presidente da República, Mário Soares, “contactou telefonicamente Nino Vieira para que este lhes comutasse as penas”, escreve o Expresso que cita uma fonte diplomática em Bissau.

    Na primeira página continua em destaque a situação no PRD tendo o Expresso apurado que Ramalho Eanes continua a consultar várias personalidades sobre a opção de “uma entrada espetacular” e com grandes mudanças no partido.

    Ao mesmo tempo, fontes partidárias referem que o PRD vai “pôr fim à liberdade de voto” durante a convenção agendada para o mês de outubro.

    No mesmo dia, o Diário de Notícias destaca a demissão do diretor do Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, Silvano Costa, anunciada no dia anterior pela Direção-Geral dos Serviços Prisionais.

    No mês de julho “seis perigosos cadastrados” tinham-se evadido da cadeia além de terem sido detetadas “falhas” que foram apontadas como “um descontrolo absoluto sobre indivíduos perigosíssimos, que não eram tratados como tal”.

  • 08 Aug 1986

    Um em cada cinco residentes em Lisboa ouve rádios ‘pirata’

    Por Pedro Sousa Pereira

    Na sexta-feira, 08 de agosto, o Diário de Notícias publica um estudo inédito que indica que um em cada cinco residentes na região de Lisboa costuma ouvir as novas rádio locais que ainda não foram legalizadas.

    O estudo da Marktest, “o primeiro que é feito para o universo das ‘piratas’ revela que a Rádio Cidade, da Amadora, é a mais ouvida da Grande Lisboa, com cerca de 15 por cento dos hábitos de audiência”.

    Seguem-se a Rádio Saturno, de Odivelas; a Rádio Marginal, de Carcavelos e a Rádio Miramar, de Oeiras.

    O estudo permite também concluir que no conjunto do país, a região de Lisboa é aquela onde as novas emissoras têm pior implantação, sendo preferidas, prioritariamente, no litoral entre Lisboa e o Porto e ao longo da costa algarvia.

  • 07 Aug 1986

    Ponte 25 de Abril deve ser “alargada”

    Por Pedro Sousa PereiraFoto CRISTINA FERNANDESFoto CRISTINA FERNANDES

    Um dia após ter sido assinalado o vigésimo aniversário da Ponte 25 de Abril, em Lisboa, o ministro das Obras Públicas, Oliveira Martins, defendia o alargamento das vias manifestando “descontentamento” pela morosidade dos estudos que condicionam a utilização ferroviária da estrutura.

    Numa cerimónia comemorativa, o ministro depois de ter referido que se cumpriu a previsão feita há 20 anos (1966) sobre o pagamento integral da ponte, com a amortização do capital e dos juros, o pagamento da portagem vai manter-se para “obter recursos financeiros necessários, não só à conservação e beneficiação como, futuramente, ao aumento da sua capacidade”.

    De acordo com as estatísticas divulgadas pela Junta Autónoma de Estradas e publicadas na imprensa, desde que foi aberta ao tráfego a ponte sobre o rio Tejo “deu passagem a mais de 228 milhões de veículos, que deixaram nos cofres das portagens 6,8 milhões de contos”.

  • 06 Aug 1986

    Deputados portugueses têm os salários mais baixos da Europa

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Guilherme VenâncioFoto Guilherme Venâncio

    Um deputado português “recebe anualmente 1.500 contos” e “mesmo assim está colocado no último lugar da escala salarial dos seus congéneres dos países da Comunidade Económica Europeia (CEE)”, escreve a revista britânica Economist num artigo citado pelo Diário de Notícias.

    “Este vencimento, do qual estão excluídos os subsídios e as facilidades financeiras, representa cerca de metade do que recebe cada deputado grego”, acrescenta o DN.

    Os dados da revista britânica apresentam ainda estatísticas dos custos que os parlamentos representam para os contribuintes nacionais dos países da CEE, indicando que um deputado do Parlamento Europeu custa anualmente cerca de “450 mil dólares (cerca de 67.500 contos) um valor muito mais elevado do que a manutenção de qualquer membro dos parlamentos nacionais”.

    Na quarta-feira é revelado que o primeiro-ministro Cavaco Silva e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Pires de Miranda deslocam-se no próximo mês de setembro aos Estados Unidos onde devem ser recebidos “no rancho particular do vice-presidente George Bush”.

    Sobre a questão da dívida angolana, o DN escreve que o Banco Pinto & Sotto Mayor e o Banco Português do Atlântico lideram a renegociação.

    “Os interesses da parte angolana são, entre outros, a prorrogação dos pagamentos da prestação do capital vencido em 1986, fazendo ainda parte das mesmas negociações as dívidas angolanas a algumas empresas portuguesas”, escreve o jornal citando o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Brito e Cunha.

  • 05 Aug 1986

    Angola renegoceia dívida a Portugal

    Por Pedro Sousa Pereira

    O jornal britânico Financial Times escreve que estão na fase final as negociações entre Luanda e Lisboa com vista a estabelecer os acordos de longo prazo relacionados com a dívida externa de Angola a Portugal, de “cerca de nove milhões de contos”.

    Segundo o Financial Times, devido à quebra do preço do petróleo, os juros totais da dívida externa angolana são da ordem dos “79 milhões de contos, caso tais dívidas não sejam renegociadas”.

    No mesmo dia, a agência de notícias Angop indica que o português Miguel Faria de Bastos foi declarado persona non grata por Luanda que lhe deu 48 horas para abandonar o país.

    Faria de Bastos foi acusado de envolvimento em “atividades ilícitas contra a República Popular de Angola” tendo o Ministério das Relações Exteriores angolano acrescentado que o comportamento do português “pela sua natureza e dimensão poderia não só pôr em risco a soberania e a segurança do Estado como também as suas relações de amizade e cooperação com outros países”, sem especificar.

    O português era membro dos corpos gerentes de 12 empresas e tinha avenças mensais por serviços prestados à TAP, Rocha Monteiro, Guedal, Hotel Presidente, entre outras.

  • 04 Aug 1986

    D. Manuel Martins denuncia situação “bastante carenciada” em Setúbal

    Por Pedro Sousa PereiraFoto António CotrimFoto António Cotrim

    Uma entrevista a D. Manuel Martins, bispo de Setúbal, ao programa de rádio Clube Português de Imprensa sobre questões sociais é destacada no Diário de Notícias.

    As declarações de D. Manuel Martins são desenvolvidas no DN que destaca preocupações do bispo sobre os recentes fuzilamentos na Guiné-Bissau tendo referido também que a situação do distrito de Setúbal, “conquanto tenha melhorado é ainda bastante carenciada.

    No mesmo dia, num longo artigo de opinião, João Soares Louro, antigo presidente do Conselho de Administração da RTP, diz que a televisão privada pode e deve esperar.

    “Mais meios podem significar maior dependência e maior massificação da programação, menos produção nacional e quebra da nossa identidade cultural, dos nossos valores comuns. Há outras prioridades”, escreve Soares Louro.

  • 03 Aug 1986

    Direção-Geral dos Impostos tem de funcionar como uma empresa

    Por Pedro Sousa Pereira

    A edição do Diário de Notícias publica as declarações do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, José Oliveira e Costa (que viria a ser presidente do BPN).

    “A Direção-Geral das Contribuições e Impostos tem de funcionar como uma grande empresa. Temos de nos socorrer de técnicas de gestão empresarial, porque é essa a filosofia nova que queremos implementar”, diz Oliveira e Costa em entrevista ao programa “Nem mais nem menos”, da RDP.

    O então secretário de Estado para os Assuntos Fiscais anuncia no programa a criação de duas novas subdireções relativas à Fiscalização e à Organização e Informática.

    Para Oliveira e Costa, “existe a preocupação do Governo em acelerar o processo de reforma do sistema fiscal” através da fixação de um imposto único de pessoas singulares, coletivas e ainda um imposto fundiário, referente a problemas inerentes a autarquias.

    Quanto ao crédito fiscal para o investimento, o secretário de Estado anuncia para “breve” a publicação de um diploma “possibilitando a empresários que têm reservas acumuladas, reinvestimentos noutras áreas”.

  • 02 Aug 1986

    Eanes discute futuro do PRD

    Por Pedro Sousa PereiraFoto António CotrimFoto António Cotrim

    O ex-presidente da República, Ramalho Eanes, pretende discutir o futuro do Partido Renovador Democrático, destaca o Expresso.

    “Que tipo de partido queremos ser?”, questionou Ramalho Eanes perante os dirigentes do PRD durante as reuniões ocorridas nos últimos dias.

    “Preocupado com os problemas de organização interna e com o baixo número de militantes, Eanes prefere não sobrevalorizar para já algumas questões estratégicas importantes como é, por exemplo, o caso da política de alianças”, escreve o Expresso.

    Segundo a notícia publicada no semanário, o antigo presidente da República pergunta se o PRD se deve conformar ou não “ao papel de partido charneira – prontificando-se a desempenhar uma função decisiva para a formação de qualquer maioria parlamentar”.

    No mesmo dia, o Diário de Notícias publica que o Governo de Cavaco Silva não aceita o convite do PRD para debates públicos “sobre questões setoriais”, respondendo desta forma à proposta dos renovadores que se mostravam interessados em analisar as alterações à Lei da Reforma Agrária e à legislação laboral.

    O DN refere-se também, na edição de sábado, à resposta do Governo do PSD aos protestos de Luanda sobre a reportagem difundida pela RTP “Angola: os anos perdidos” que a República Popular de Angola considerou “gesto de hostilidade, provocação e ingerência”.

    Na sequência dos protestos, o Ministério dos Negócios Estrangeiros indica que não cabe ao Governo pronunciar-se sobre o conteúdo de um programa televisivo “porque o governo português consagra o princípio da liberdade de informação e de opinião” mas sublinha que Lisboa vê o governo de Luanda como “o único interlocutor” no país.

  • 01 Aug 1986

    Trabalhadores da ANOP “demarcam-se” da fusão com a NP

    Por Pedro Sousa Pereira

    Um dia depois da assinatura do protocolo que visa a criação da nova agência de notícias portuguesa, os trabalhadores da ANOP “demarcam-se publicamente” da fusão com a Notícias de Portugal.

    “O protocolo assinado não passa de uma operação de propaganda do Governo destinada a fazer crer à opinião pública que há consenso em torno da sua proposta, apesar da mesma já ter sido rejeitada por um plenário de trabalhadores da ANOP”, refere o comunicado publicado no Diário de Notícias.

    O jornal relata que no dia anterior, no momento em que se iniciou a cerimónia de assinatura do protocolo, na presença de membros do Governo e do diretor-geral da Comunicação Social, Alves da Cunha, os representantes da Comissão de Trabalhadores, dos delegados sindicais e do Conselho de Redação da ANOP abandonaram a sala.

    No mesmo dia, a embaixada da República Popular de Angola acusa a RTP de “ingerência” na sequência de um programa transmitido pela estação pública portuguesa em que é entrevistado o líder da UNITA, Jonas Savimbi.

    Na página três do DN, uma pequena notícia dá conta da morte de dois portugueses, reféns da RENAMO, em Moçambique.

    A morte dos dois portugueses é confirmada pela Resistência Nacional Moçambicana e refere-se aos dois homens que tinham sido raptados na província da Zambézia, no centro do país.

    Em 1985 a RENAMO tinha raptado 26 portugueses, tendo 11 sido libertados ao longo dos últimos meses.

  • 31 Jul 1986

    Banca do Estado aberta a capitais de empresas públicas

    Por Pedro Sousa Pereira

    Na edição do último dia do mês de julho, o DN escreve que um “informador do Ministério das Finanças” admitiu a existência de um “rascunho” de projeto de decreto-lei em que se prevê a abertura do capital social da União de Bancos Portugueses (UBP).

    “De acordo com esse projeto do Governo, a UBP deixaria de ser uma sociedade anónima de responsabilidade limitada”, adianta a notícia do DN.

    O mesmo texto refere que o “rascunho” já foi enviado aos sindicatos do setor mas não foi confirmada a intenção de estender a medida, especificamente, aos bancos Totta e Açores, Nacional Ultramarino, Borges e Irmão e Fonsecas e Burnay.

    No mesmo dia, uma breve notícia indica que a ANOP e a NP assinam às 15 horas um acordo para a criação de uma nova agência.

    Vão estar presentes no acto, o ministro Fernando Nogueira, o secretário de Estado, Marques Mendes e o diretor-geral da Comunicação Social, Alves Aldeia.

    “O diretor de Informação da ANOP, numa informação à Redação, lamentou que ‘acontecimentos tão importantes na vida da empresa não sejam objeto de debate na agência, de modo a ser conseguido um consenso quanto ao futuro da ANOP”, acrescenta a notícia.

  • 30 Jul 1986

    Lisboa intensifica ofensiva externa sobre Timor

    Por Pedro Sousa PereiraLusa Alfredo CunhaLusa Alfredo Cunha

    Na sequência da reunião do Conselho de Estado, em Belém, a imprensa refere que Portugal pretende intensificar uma ofensiva diplomática sobre Timor-Leste.

    Apesar de um “lacónico comunicado”, as fontes do Diário Notícias referem que o Presidente da República convocou, logo após a reunião com os conselheiros, o primeiro-ministro Cavaco Silva para um encontro em Belém.

    “É natural que após esta reunião, a Presidência da República e o Governo, concertadamente, transmitam instruções à delegação portuguesa (em Nova Iorque) que mantém conversações com a representação indonésia”, indica uma fonte ao DN.

    A reunião do Conselho de Estado foi convocada numa altura em que as autoridades portuguesas desenvolvem uma intensa ofensiva diplomática para a resolução do problema de Timor-Leste.

  • 29 Jul 1986

    Conselho de Estado debate questão de Timor-Leste

    Por Pedro Sousa Pereira

    O Conselho de Estado analisa a situação de Timor em virtude das conversações “recentemente iniciadas” em Nova Iorque entre a delegação da Indonésia e de Portugal sob os auspícios das Nações Unidas.

    O Diário de Notícias recorda que o Presidente da República pediu ao secretário-geral da ONU, Perez de Cuellar, a defesa dos interesses “do povo maubere”.

    Segundo o Diário de Notícias, a mudança de regime nas Filipinas e a “própria atitude da Austrália” constituem elementos novos na “conjuntara da região”.

    Fontes do Palácio de Belém “tornam agora a situação de Timor mais rica”, motivo pelo qual i chefe de Estado pretende ouvir a opinião dos conselheiros.

    No mesmo dia é publicada a reportagem sobre a fuga de seis reclusos da Colónia Penal de Pinheiro da Cruz que mataram três guardas no momento da evasão, “constituindo a mais sangrenta fuga de cadeias portuguesas dos últimos 25 anos”.

    Os seis fugitivos, “condenados a penas pesadas”, escaparam-se pela porta principal da prisão usaram um carro celular.

    O jornal refere que à hora do fecho da edição ainda prosseguiam as buscas para encontrar os seis fugitivos.

  • 28 Jul 1986

    Os novos bancos privados segundo Cadilhe

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    Em entrevista ao Diário de Notícias, publicada a 28 de julho, o ministro das Finanças afirma que as autorizações para a abertura de novos bancos em Portugal “apenas serão concedidas com contrapartidas” exemplificando que terão de traduzir-se no reforço financeiro “numa empresa ou instituição de interesse nacional”

    Miguel Cadilhe, ministro das Finanças, que sublinha estar em total sintonia com o primeiro-ministro Cavaco Silva, explica que a banca do setor público tem “estofo para aguentar más conjunturas, como as dos últimos anos.

    “Não vai acontecer nada de catastrófico à banca nacionalizada (…) é evidente que os bancos estremecem um pouco mas a solidez dos seus alicerces não está posta em causa”, adiante Cadilhe sobre as perspetivas defendidas pelo Executivo sobre a privatização da banca portuguesa.

  • 27 Jul 1986

    PRD defende realização de referendos

    Por Pedro Sousa PereiraHermínio Martinho, líder do PRD; Foto Manuel MouraHermínio Martinho, líder do PRD; Foto Manuel Moura

    A conferência de imprensa do PRD sobre a proposta de realização de “referendos em casos pontuais” é destaca pelo DN, na edição de domingo.

    Trata-se de uma intenção do PRD a apresentar depois das férias parlamentares.

    A questão de Timor-Leste é também abordada pelo Diário de Notícias a propósito de um encontro entre representantes dos partidos timorenses FRETILIN e UDT com o secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal.

    A delegação timorense informou o líder dos comunistas portugueses das iniciativas a desencadear em agosto junto das Nações Unidas e do movimento dos países não-alinhados.

    Na secção de Economia do DN uma pequena notícia informa que o “Multibanco português vai estar ligado a Espanha”.

    “Trata-se da primeira vez que dois sistemas bancários de países diferentes estão ligados, diretamente para a realização de operações com cartões de crédito”, refere a notícia acrescentando que se prevê para breve a possibilidade de os cerca de 600 mil utentes portugueses do Multibanco poderem efetuar operações em pesetas, em Espanha.

  • 26 Jul 1986

    Militares contestam nomeação de Rocha Vieira

    Por Pedro Sousa PereiraFOTO Manuel MouraFOTO Manuel Moura

    A edição do semanário Expresso do dia 26 de julho refere que meios militares contestam a nomeação de Vasco Rocha Viera para o cargo de ministro da República na Região Autónoma dos Açores.

    Segundo o Expresso a nomeação “causou grande estranheza em diversos setores do Exército” devido a antecedentes que marcaram a promoção de Rocha Vieira de tenente-coronel a coronel, em 1977, quando era chefe do Estado Maior do Exército.

    “Se o comportamento passado de Rocha Vieira tivesse sido levado em consideração, certamente que o Governo não teria sequer indicado o seu noema para o cargo que foi agora exercer”, revela ao Expresso um oficial do mesmo curso que apresentou fotocópias de um acórdão do Supremo Tribunal Militarv em que se reconhece a ilegalidade do processo de promoção.

    Pelas normas existentes no Exército, escreve o Expresso, um oficial só poderá ser promovido por escolha se estiver colocado na primeira metade da lista com os nomes dos militares da mesma patente.

    “Foi o que não aconteceu, neste caso. Segundo o documento e outras fontes militares, o atual ministro da República assinou ele própria a sua promoção a coronel, apesar de saber que se encontrava situado na segunda metade da lista”, indica o semanário Expresso.

    No mesmo dia, o Diário de Notícias destaca a crise parlamentar que se acentua há vários meses em torno do Executivo minoritário liderado por Cavaco Silva.

    “Socialistas e renovadores (PRD) declaram-se preparados para a demissão do Executivo e sociais-democratas garantem que não tomarão a iniciativa de se demitirem”, escreve o DN.

  • 25 Jul 1986

    Sindicatos protestam sobre horários das grandes superfícies

    Por Pedro Sousa Pereira

    Na sexta-feira, 25 de julho são publicadas as posições da Federação dos Sindicatos do Comércio e Serviços sobre “a violação das leis e dos mais elementares direitos dos trabalhadores pela generalidade dos supermercados e centros comerciais”.

    A posição é expressa numa queixa à Provedoria de Justiça que informa que vai interceder também junto da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

    Basicamente, a federação sindical refere o não cumprimento das normas ao período de descanso correspondente ao sábado à tarde.

    No mesmo dia é noticiada, no DN, a opinião do presidente da central sindical da Alemanha Federal DGB, Ernest Breit, que a convite da UGT, afirmou em Lisboa, que as novas tecnologias impõem a redução do horário laboral.

    Em Espanha toma posse o novo governo do PSOE liderado por Filipe Gonzalez e em Itália Betino Craxi deverá formar Executivo nas próximas 48 horas.

  • 24 Jul 1986

    Dívida externa portuguesa ascende a 12 mil milhões de dólares

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia em que o Príncipe André de Inglaterra e a mulher, Sarah Fergunson, visitam “discretamente” a Ilha Terceira nos Açores é publicada na secção de Economia do Diário de Notícias que a dívida externa portuguesa ascendia a 12.419 milhões de dólares no final de 1985.

    Segundo o relatório da OCDE e pelo Banco de Pagamentos Internacionais, os créditos bancários externos totalizavam 11.802 milhões de dólares, correspondendo 1.182 milhões a créditos para operações comerciais garantidas ou seguradas pelo setor público.

    De acordo com o mesmo relatório, o Brasil e o México eram os países com as dívidas externas mais elevadas.

    Além de Portugal, tinham dívidas externas situadas entre 10 e 15 mil milhões de dólares, o Chile, Egito, Finlândia, República Democrática Alemã, Iraque, Libéria, Malásia, Nigéria, Noruega, Arábia Saudita, Polónia, Turquia e Jugoslávia.

  • 23 Jul 1986

    Secretário de Estado dos Transportes defende reconversão do setor

    Por Pedro Sousa PereiraFoto António CotrimFoto António Cotrim

    A 23 de julho, são publicadas as declarações do secretário de Estado dos Transportes, Sequeira Braga, que considerou que um dos principais problemas das empresas públicas do setor “é terem trabalhadores em número superior às suas necessidades”.

    Sequeira Braga, sem apresentar números, defende a reconversão e a diversificação apesar de admitir que “tendo em vista a sofisticação de alguns dos novos equipamentos, se torna extremamente difícil reciclar trabalhadores”.

    No mesmo dia é noticiada a condenação “por unanimidade” sobre os fuzilamentos ocorridos na Guiné-Bissau.

    Segundo o Diário de Notícias, as condenações à morte em Bissau de seis membros da oposição levaram o Presidente da República a recusar uma audiência ao emissário do chefe de Estado guineense Nino Vieira.

    No mesmo dia fica a saber-se também que a Fundação Gulbenkian suspende o programa de apoio ao país.

  • 23 Jul 1986

    Lua-de-mel de André e Sarah pôs Açores sob os holofotes da imprensa mundial

    Por Sílvia ReisFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O casal, que o Correio dos Açores designou de “noivos do ano”, chegou à base das Lajes, na Terceira, num avião onde se lia “just-married (recém-casados)” ainda no dia do casamento, a 23 de julho, e depois seguiu para o iate que viajou entre diversas ilhas dos Açores.

    Ver Reportagem
  • 22 Jul 1986

    Sinais de recuperação da economia portuguesa

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 22 de julho é divulgado o boletim do Banco de Portugal sobre os indicadores económicos que indica que a economia portuguesa, em setembro de 1985, “registava já sinais de reanimação”, com a inflação a desacelerar, os salários reais a crescer e com um saldo positivo na Balança de Transações Correntes.

    O texto, publicado na imprensa, assinala que a redução do défice da Balança Comercial foi “a principal responsável” pela melhoria na Balança das Transações Correntes que “registou um excedente de 160 milhões de dólares desde o início do ano, em termos acumulados, apresentando um saldo positivo de 424 milhões no terceiro trimestre” de 1985.

    Quanto à dívida externa total, registou-se um acréscimo de 11,3 por cento, em relação a finais de 1884, atingindo em termos absolutos, no fim do terceiro trimestre, os 16,6 mil milhões de dólares, dos quais “apenas 17,2 por cento” correspondiam a dívida de curto prazo.

    No mesmo dia é noticiada a posição do Presidente da República que, durante um encontro com o chefe de Estado argentino, Raul Alfonsín, em Lisboa, que defendeu o “princípio” do diálogo e de soluções políticas concertadas entre os países ricos e devedores, por forma – não apenas a ajudar as nações endividadas – mas também para acautelar os interesses dos países do norte.

    “O auxílio aos países do Terceiro Mundo e aos latino-americanos, em especial, deve ter em conta que as suas economias não podem ser asfixiadas pelo serviço da dívida externa”, afirma Mário Soares numa conferência de imprensa conjunta com Raul Alfonsín.

    No mesmo dia são publicados os pormenores do ataque, ocorrido no dia anterior, contra o Ministério da Defesa espanhol, em Madrid.

    “Doze granadas anticarro foram lançadas ontem contra o Ministério da Defesa a partir de um automóvel”, tendo oito projéteis atingido o edifício.

  • 21 Jul 1986

    Novas quotas para a pesca de bacalhau

    Por Pedro Sousa Pereira

    A notícia do dia 21 de julho relaciona-se com a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Comunidade Económica Europeia em que Portugal exige um aumento “importante” da quota de pesca de bacalhau, segundo fontes diplomáticas do Diário de Notícias, das duas mil para as seis mil toneladas.

    O aumento é considerado exagerado.

    Outros pontos da agenda referem-se à política externa do Reino Unido em relação ao regime da África do Sul sendo que Bruxelas estabeleceu um prazo de três meses para que sejam dados sinais de mudança na “política de apartheid”.

    Na mesma reunião, os ministros preparam-se também para fazer o ponto da situação sobre as relações com os Estados Unidos à luz “de um novo conflito comercial” relacionado com as preferências comerciais concedidas pela CEE aos citrinos mediterrânicos.

    No mesmo dia é difundida a notícia da agência ANGOP, da República Popular de Angola, sobre a dissolução da Diamang por “unanimidade”.

    “A parte angolana, Endiama, única detentora dos direitos de concessão, irá agora implementar, com otimismo, a nova política diamantífera nacional definida pelo partido (MPLA-PT) e pelo Estado, honrando as dívidas da Diamang dissolvida”, acrescenta a nota da ANGOP.

  • 20 Jul 1986

    Macau abre delegação em Bruxelas

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    No dia 20 de julho é noticiado que Macau vai abrir até ao final do ano uma delegação junto da Comunidade Económica Europeia (CEE) em Bruxelas, na “qualidade de país terceiro”.

    “Será uma delegação formal, que tratará das nossas relações com a CEE e terá também um vetor turístico”, diz ao Diário de Notícias, Carlos Monjardino, na altura assessor do governador de Macau.

    “Após a integração de Portugal na CEE, Macau ficou sem representação em Bruxelas, embora possua perante a comunidade o estatuto de país terceiro. A nova representação de Macau abrirá, no entanto, até final de setembro para pôr termo ao vazio deixado pela adesão portuguesa”, explica o jornal.

    Segundo o jornal, Monjardino rubricou também, em Bruxelas, o novo acordo têxtil entre a CEE e o Governo de Macau.

  • 19 Jul 1986

    Comissão de Defesa pede documentos secretos sobre material de guerra

    Por Pedro Sousa Pereira

    A edição do semanário Expresso do dia 19 de julho de 1986 refere que a Comissão de Defesa da Assembleia da República solicitou ao Governo o envio, até segunda-feira, da minuta do contrato com a Lockeed para a aquisição dos aviões P-3B, do relatório de Fiscalização da Força Aérea sobre os mesmos aviões, do parecer e ata da reunião do Conselho Nacional de Defesa Nacional bem como do Conceito Estratégico Militar – elaborado pelo conselho – e considerado secreto.

    O Expresso destaca igualmente a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa que ordenou a libertação de Maria Branca dos Santos (“D.Branca”) e de outros quatro arguidos do processo da chamada “banqueira do povo” que passam a aguardar julgamento em “liberdade provisória”.

    O semanário refere ainda que Mário Soares telefonou ao chefe de Estado guineense Nino Vieira intercedendo no sentido de um acto de clemência em relação aos condenados à morte.

    “O estadista guineense manifestou-se sensibilizado pelo teor do telefonema de Mário Soares, embora nada adiantasse quanto à sorte” dos condenados.

  • 18 Jul 1986

    Conselho Superior de Defesa Nacional favorável à compra de equipamento bélico

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 18 de julho, o Conselho Superior de Defesa Nacional “depois de ouvir os esclarecimentos dados por diversos dos seus membros, emitiu um parecer favorável – por consenso – à proposta de lei do Governo que prevê a compra de equipamentos para as Forças Armadas.

    A compra de material bélico, nomeadamente fragatas, era um processo que se arrastava há vários anos sendo que o próprio gabinete do Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas sublinha que o assunto é eminentemente político e que “por consequência, têm de ser os políticos a definir prioridades no campo da defesa nacional”.

    “Nestas coisas, o mais caro não é o custo inicial do material mas sim a sua manutenção” disse uma alta patente da logística do CEMGFA ao Diário de Notícias referindo-se às fragatas Meko.

    No último dia da semana, é noticiada a posição do Partido Socialista que se pronunciou sobre o projeto governamental para a fusão das agências noticiosas ANOP e NP por considerar que “nega a constituição de uma agência noticiosa no setor público da Comunicação Social.

    O PS observa também que o modelo da futura agência “não pode nem deve denegar a natureza do serviço público prestado e, em consequência, a sua inserção no setor público da Comunicação Social” e sugere que a solução “aprofunde os direitos dos jornalistas na linha da Lei da Imprensa e salvaguarde o direito ao emprego e “às legítimas expetativas profissionais dos atuais trabalhadores das duas agências”.

  • 17 Jul 1986

    Polémica sobre as Forças Armadas

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 17 de julho é noticiado com destaque que o Orçamento para as Forças Armadas está a gerar controvérsia.

    De acordo com as fontes do Diário de Notícias, o Conselho Superior de Defesa Nacional foi convocado de urgência pelo Presidente da República, Mário Soares, para apreciar o “diferendo Forças Armadas-Governo-Parlamento” que “estalou” a propósito de verbas para o reequipamento militar e suscitado pela Comissão Parlamentar de Defesa.

    “A comissão parlamentar de Defesa Nacional fundamenta a sua decisão no facto de a proposta em questão carecer de ser submetida a parecer do Conselho Superior de Defesa Nacional e de necessitar de todos os estudos requeridos sobre as fragatas e sobre os aviões P3-B”, escreve o Diário de Notícias.

    A edição do mesmo dia indica que um dos dois administradores de empresas, alvos de atentados reivindicados pelas FP-25 em 1981, corre o risco de cegar, como consequência dos disparos de que foi alvo.

  • 16 Jul 1986

    Apresentação do Orçamento Suplementar

    Por Pedro Sousa Pereira

    Na quarta-feira, dia 16 de julho, são publicadas as notícias sobre a aprovação, no dia anterior, do Orçamento Suplementar para 1986 com os votos favoráveis de todos os partidos, à exceção do CDS e da deputada dos Verdes, Maria Santos, que se abstiveram.

    As alterações mais importantes prendem-se com a abolição das taxas moderadoras nos serviços de urgência dos hospitais e no atendimento permanente.

    “A proposta subscrita pelo PCP era mais ambiciosa, mas a alteração do sentido de voto do PAS adiou para mais tarde a análise deste problema. O Parlamento decidiu também reduzir o défice orçamental em 14 milhões de contos, com base na informação pretada pelo próprio Governo de que a cobrança do IVA será superior à prevista aquando da análise do Orçamento do Estado. A ANOP terá também a sua dotação reforçada em 64 mil contos”, escreve o Diário de Notícias.

    No mesmo dia é revelado, segundo fontes policiais, que a uma explosão ocorrida num apartamento da Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa, e que provocou a morte a duas pessoas, ficou a dever-se ao manuseamento de explosivos por parte de elementos da ORA (Organização Revolucionária Armada).

  • 15 Jul 1986

    Polémica sobre escutas telefónicas

    Por Pedro Sousa PereiraFoto António CotrimFoto António Cotrim

    O Governo, 24 horas antes de o Parlamento discutir o pedido de impugnação da proposta da Lei de Segurança Interna, aceitou alterar “o polémico” artigo sobre o controlo das comunicações, nomeadamente através das escutas telefónicas.

    O ministro Eurico de Melo, após ter solicitado conversações com os partidos da oposição, disse aos jornalistas que o Executivo pretende conseguir uma “lei de Estado que mereça maior consenso.

    Segundo o DN, o Governo desiste assim da proposta inicial acerca das escutas telefónicas, aceitando que possam ser efetuadas por autorização de um juiz de instrução criminal.

    No mesmo dia, é noticiado que os trabalhadores da ANOP consideram “inaceitável” a extinção da agência para ser substituída por uma “régie-cooperativa com a configuração proposta pelo Governo”.

    Segundo os trabalhadores, a detenção pelo Estado, de 50 por cento do capital da nova agência (Lusa) e os outros 50 por cento por uma cooperativa de utentes “acarretaria não apenas a extinção da ANOP mas a continuação da NP com “os seus poderes acrescidos que, juntamente com o Governo, passaria a controlar a única agência noticiosa”.

    Em Espanha, um atentado à bomba mata oito polícias em Madrid, e faz mais de 40 feridos.

    Os jornais de 15 de julho referem que os atacantes usaram um carro armadilhado mas que o atentado ainda não foi reivindicado.

  • 14 Jul 1986

    Ameaça de desemprego para milhares de portugueses

    Por Pedro Sousa PereiraFoto António CotrimFoto António Cotrim

    A edição de 14 de julho, segunda-feira, dá conta de um comunicado do novo secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva, alertando que 50 mil trabalhadores portugueses estão ameaçados de desemprego devido ao encerramento de empresas ou setores de atividade.

    Segundo os dados da central sindical estão em risco os postos de trabalho de 2.500 pessoas da cristalaria, 1.500 do setor mineiro, 20 mil da pesca artesanal – em resultado dos acordos com a Comunidade Económica Europeia (CEE), 7.500 no distrito de Setúbal e 16.500 no setor têxtil.

    A CGTP afirma que aos números apresentados acrescentam-se os 501 mil desempregados “oficiais” e os cerca de 100 mil trabalhadores com salários em atraso, acrescentando que há “uma massa de 650 mil cidadãos desprovidos dos meios mínimos de subsistência”.

    No mesmo dia são publicadas notícias sobre o apelo do Presidente da República, Mário Soares, ao chefe de Estado da Guiné-Bissau, Nino Vieira para comutar as penas de morte aos 12 condenados considerando que se trata de um processo político.

  • 13 Jul 1986

    Tribunal de Bissau condena à morte os implicados em golpe de Estado

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 13 de julho é noticiada a condenação à morte de Paulo Correia, ex-vice-presidente do Conselho de Estado guineense, e de outros 11 réus implicados na tentativa de golpe de Estado de outubro de 1985, na Guiné-Bissau.

    Segundo o Diário de Notícias, o Tribunal Superior de Bissau condenou ainda 44 outros réus a penas de entre um e os 15 anos de “trabalho social produtivo obrigatório”.

    “Os réus condenados à pena capital (fuzilamento), de acordo com os termos da lei em vigor, assiste-lhes o direito de recorrerem ao Conselho de Estado, pedindo a concessão de graça, no prazo de três dias”, refere o comunicado do Tribunal Superior de Bissau.

    A sentença foi conhecida no mesmo dia em que foi conhecida uma remodelação “do governo do presidente João Bernardo Vieira” empossado há dois anos.

    No mesmo dia é publicada a notícia da aprovação de uma resolução do Parlamento Europeu sobre Timor-Leste, por proposta de um deputado do PRD e que apelava ao governo indonésio para cessar “imediatamente todas as hostilidades” no território.

  • 12 Jul 1986

    Pequim apresenta proposta sobre o futuro de Macau

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    O semanário Expresso revela no dia 12 de julho que a China apresentou às autoridades portuguesas uma “proposta global” que incluiu o “projeto de declaração conjunta luso-chinesa sobre o processo de transferência de soberania de Macau”, a ser em emitido no final das negociações iniciadas em julho.

    “Apesar de várias fontes afirmarem saber que os chineses têm pressa em terminar o processo negocial (até ao fim do ano, segundo alguns, até junho de 1987, segundo outros), o facto de não estar indicada no documento uma data para a transferência de soberania é interpretado como uma disposição de Pequim em aceitar a integração de Macau mais tarde do que a de Hong Kong (1997), num ano ainda a assentar com a parte portuguesa”, escreve o enviado do Expresso a Macau, Joaquim Vieira.

    A mesma notícia refere que se verificam divisões no novo Governo de Macau liderado por Pinto Machado, verificando-se críticas frequentes de Carlos Monjardino, secretário-adjunto para a Economia, Finanças e Turismo e de António Vitorino responsável pelo pelouro da Administração que acusam Nuno Delerue de falta de maturidade.

    Delerue, ex-mandatário nacional para a Juventude da campanha presidencial de Mário Soares ocupava na altura “com 26 anos incompletos” a pasta da Saúde e dos Assuntos Sociais do Governo de Macau.

  • 11 Jul 1986

    Parlamento dá “luz verde” ao Orçamento Suplementar

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 11 de julho é amplamente publicada a sessão parlamentar que votou favoravelmente o Orçamento Suplementar para 1986 com os votos favoráveis do PSD, PS, PRD e CDS, abstenções do PCP e do MDP/CDE.

    O único voto contra foi o da deputada Maria Santos, dos Verdes.

    Segundo o DN, durante as declarações de voto, os partidos da oposição “esclareceram” não existir qualquer contradição entre a votação e a postura crítica que marcou o debate.

    “Em primeiro lugar, trata-se de assegurar cobertura no Orçamento ao aumento de despesas; em segundo, de introduzir, na especialidade, as alterações necessárias para que o défice não seja agravado. Esta postura é autorizada pelo facto de existirem receitas imprevistas que ascendem a cerca 26 milhões de contos, muito superiores portanto, aos 7,1 milhões de contos de acréscimo de despesas previstas pelo Governo.

    No mesmo dia é noticiada a posição da direção da recentemente criada Cooperativa de Radiodifusão TSF que, segundo o Diário de Notícias, considerou “ilegal, incoerente e discriminatório” o despacho que concedeu novas redes nacionais de FM à Rádio Renascença e à RDP.

    “A direção da TSF diz, em comunicado, que irá apresentar queixa ao Provedor de Justiça e à Alta Autoridade Contra a Corrupção e à Comissão da Comunicação Social da Assembleia da República”, refere a notícia do DN.

  • 10 Jul 1986

    O número de pobres no Reino Unido aumenta drasticamente

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 10 de julho são publicados os números que indicam que 5,9 milhões de pessoas recorriam à assistência social estatal em 1979, no Reino Unido - ano em que o governo conservador de Margaret Thatcher assumiu o poder - tendo o número de pobres aumentado para 7,6 milhões em 1981 e para 8,8 milhões em 1983.

    Em 1986, o número de pessoas a depender da assistência do Estado atingia 10,2 milhões de pessoas.

    Os números referentes aos níveis de pobreza no Reino Unido – referentes aos primeiros quatro anos do governo conservador - foram revelados minutos depois de o Parlamento ter iniciado as férias de verão.

    Segundo a imprensa, os deputados da oposição afirmaram tratar-se de uma “tentativa deliberada para evitar que o público conheça o número de pobres desde 1979”.

    No mesmo dia, o DN publica as preocupações dos deputados portugueses no Parlamento Europeu sobre a votação do Orçamento da Comunidade Económica Europeia, que decorre no mesmo dia, a par dos pedidos para a revisão da política agrícola que beneficiava “essencialmente os países ricos”.

  • 09 Jul 1986

    Mário Soares recusa Europa a duas velocidades

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O Presidente da República defende a coesão entre os países da CEE e recusa no discurso de Estrasburgo uma “Europa a duas velocidades” noticia o Diário de Notícias no dia 09 de julho, sobre a presença de Mário Soares no Parlamento Europeu.

    No mesmo dia, Soares diz aos emigrantes portugueses da região de Estrasburgo que “não há razão para perder a confiança em Portugal e na integração europeia”.

    “A maioria dos portugueses em França começa a perder a confiança no futuro do nosso país, motivada pela insuficiência de desenvolvimento económico e social, que lhes possa permitir uma futura integração, no caso de regresso definitivo”, diz ao DN o representante do Conselho das Comunidades Portuguesas em Franla, José Liberato, que acompanhou a visita de Mário Soares.

    No mesmo dia, é publicada uma entrevista do embaixador de Angola em Portugal, Mawete João Baptista, que diz à NP que “Luanda quer pragmatismo na cooperação com Lisboa”, sobretudo nas áreas da economia, comércio e tecnologia.

    Os jornais publicam também a notícia da nomeação de Kurt Waldheim como presidente da Áustria numa altura em que são noticiadas informações sobre “o alegado passado nazi” do ex-secretário-geral das Nações Unidas.

    A cerimónia da tomada de posse, em Viena, é marcada por protestos nas ruas e pela indiferença de alguns diplomatas que se recusaram a aplaudir as palavras de Kurt Waldheim durante a cerimónia.

  • 08 Jul 1986

    Impasse em Bruxelas sobre o Orçamento da CEE

    Por Pedro Sousa Pereira

    A clivagem entre os países do norte e do sul da Europa torna-se evidente na reunião do Conselho de Ministros da Economia dos doze países da Comunidade Económica Europeia (CEE).

    De acordo com o enviado especial do DN às negociações de Bruxelas, o “norte” mostrou-se apenas disponível para o aumento das despesas agrícolas, contra “o sul” que reivindicava o reforço dos fundos estruturais.

    O Conselho de Ministros da Economia sublinha, no primeiro dia de reuniões, a necessidade de manter o aumento dos níveis respeitantes aos fundos estruturais “abaixo do nível do crédito de pagamentos” mas recomendando que fossem tomadas em consideração “as consequências” das entradas de Portugal e da Espanha na CEE.

    Torna-se assim mais evidente a posição da Grécia, Itália, Espanha e Portugal (a que se juntou a Irlanda) sendo que “estes países formam em conjunto a chamada ‘minoria de bloqueio’ que evita que, qualquer solução seja adotada à sua revelia”.

    Entretanto, o ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, contesta o relatório da Comissão Europeia sobre Portugal que se incluiu no grupo de países em relação aos quais a situação orçamental e o nível da dívida pública “impõem restrições importantes à expansão económica”.

    Paralelamente é aguardado o discurso de Mário Soares no Parlamento Europeu, em Estrasburgo que segundo o DN vai defender a coesão “capaz de centrar as suas preocupações nos problemas económicos, sociais e políticos”.

  • 07 Jul 1986

    Novo líder da CGTP acusa Governo de provocar a “guerra social”

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Luís ForraFoto Luís Forra

    Manuel Carvalho da Silva, novo líder da CGTP, critica Cavaco Silva em entrevista ao Diário de Notícias acrescentando que a questão do emprego, os salários em atraso e a legislação laboral são as quatro prioridades da central sindical.

    Carvalho da Silva considera que o Governo não está interessado em aplicar a lei que visa a solução dos salários em atraso, o que “levou a CGTP” a preparar um plano de intervenção até porque, sublinhou, o Governo promove um “clima de guerra” e que as notícias não acompanham a realidade.

    “Há manipulação da Comunicação Social. Neste momento, o mês de julho apresenta lutas de grande dimensão como a greve na Rodoviária Nacional que está a decorrer com uma adesão quase total. Não se informa a opinião pública, nem sobre a extensão nem sobre as razões da greve. Há sim uma obsessão em desenvolver uma guerra social e o Governo escamoteia premeditadamente esta realidade”, diz Carvalho da Silva.

    Segundo os números da CGTP, a taxa de desemprego, à data da posse do Governo de Cavaco Silva, em 1985, atingia os 9,6 por cento.

    Em janeiro de 1986, a CGTP refere uma percentagem de 11,1 por cento e a existência de 501 mil desempregados, estimando que mais de 700 mil trabalhadores encontram-se em situação precária.

    Na secção de economia do DN é publicado um anúncio de meia-página do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa dirigido aos reformados: “Faça render a sua reforma – Venha conversar connosco sobre a conta-poupança reformados”.

    O anúncio “Dê Vida aos Anos” do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa é replicado nas páginas dos jornais durante as próximas semanas, durante o verão de 1986.

    No mesmo dia, o DN publica uma pequena notícia com as declarações do ex-chefe de Estado, Ramalho Eanes que afirmou aos jornalistas, em Portalegre, que vai “ingressar” no PRD na próxima convenção do partido.

  • 06 Jul 1986

    Governo discorda da decisão de Mário Soares

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Marcos BorgaFoto Marcos Borga

    O diferendo entre Mário Soares e o Governo de Cavaco Silva sobre a “alienação de bens da Comunicação Social estatizada” é reforçado por uma entrevista do ministro Fernando Nogueira que diz à RDP que o Executivo vai aguardar pela opinião do Tribunal Constitucional “em tudo o que depende da lei mas, acrescentou, que ainda dispõe de outros mecanismos”.

    Fernando Nogueira era questionado sobre se a promulgação da lei iria, ou não, “obstar à concretização da fusão da ANOP e NP”, um assunto que constava dos projetos do Governo.

    Entretanto, o Diário de Notícias confirma que a lei foi promulgada no final da semana anterior pelo Presidente da República, Mário Soares.

    Na atualidade internacional destaca-se a declaração do arcebispo anglicano sul-africano que disse que não “iria perder tempo” a encontra-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Geoffrey Howe, esperado na África do Sul.

    O DN refere que Desmond Tutu considerou que Howe devia regressar a Londres e tentar convencer a chefe do governo britânico, Margaret Thatcher da necessidade de destruir o regime do apartheid.

  • 05 Jul 1986

    Cavaco com programa de governo para durar quatro anos

    Por Pedro Sousa Pereira

    No dia 05 de julho, sábado, o semanário Expresso noticia as intenções de Cavaco Silva, primeiro-ministro do governo minoritário, que comunicou durante a semana anterior que o Executivo “é para durar quatro anos”.

    “A afirmação foi feita durante um plenário especial do Conselho de Ministros, incluindo os secretários de Estado, que se destinou a fazer o balanço dos primeiros duzentos dias do Governo”, escreve o Expresso.

    Sobre a oposição, o Expresso dá conta de que Vítor Constâncio, recentemente eleito secretário-geral do PS se prepara para explicar aos militantes o “estado em que encontrou” o partido.

    O semanário publica também uma longa entrevista com o deputado centrista, Anacoreta Correia, que “a título pessoal” foi autorizado a deslocar-se a Jacarta onde é esperado nas próximas 24 horas para contactos com o governo indonésio sobre a questão de Timor-Leste.

    Fontes diplomáticas, contactas pelo Expresso, excluem, no entanto, a possibilidade de qualquer entendimento sobre a possibilidade de um eventual referendo sobre a ocupação da colónia portuguesa de Timor-Leste que poderia coincidir com as eleições gerais indonésias marcadas para 1987.

    No mesmo dia, o DN relata o debate sobre a eutanásia que decorreu na Faculdade de Ciências de Lisboa escrevendo que os problemas da vida e da morte “foram tratados divertidamente mas não com ligeireza”.

    “A moderadora, professora Ana Luísa Janeiro, encerrou o debate dizendo que muitos dos problemas levantados têm de ter uma abordagem filosófica”, escreve o DN sobre o debate que contou com a presença do jornalista Rui Cartaxana que tinha lançado recentemente um “controverso” livro sobre transplantes em Portugal.

  • 04 Jul 1986

    Rocha Vieira ministro da República nos Açores

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    No dia 04 de julho, é noticiada com destaque no DN a reunião do Conselho de Estado que se pronunciou, por maioria, favorável à nomeação do brigadeiro Vasco Rocha Viera para ministro da República da Região Autónoma dos Açores.

    “ Este militar foi proposto ao Presidente da República por Cavaco Silva (primeiro-ministro) que, deste modo, viu prevalecer a sua opinião sobre a de Mota Amaral”, presidente do Governo Regional dos Açores, noticia o Diário de Notícias.

    O jornal refere que na reunião do órgão consultivo do Presidente da República votaram contra Mota Amaral, Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira e Álvaro Cunhal, secretário -geral do PCP.

    No mesmo dia são publicadas as declarações de Otelo Saraiva de Carvalho, arguido no Caso FUP/FP-25, que negou no Tribunal de Monsanto o carácter terrorista da organização.

    “Se as FP-25 colocassem bombas em cinemas, em aviões ou em locais públicos, isso é que seria terrorismo”, considerou Otelo quando respondia às perguntas do juiz-presidente Adelino Salvado.

    O DN relata que o tema “terrorismo” surgiu na altura em que o juiz-presidente se referiu a um atentado bombista, ocorrido em São Manços, que vitimou um bebé e que foi reivindicado pelas FP-25.

    “Essa é a posição do PC (Partido Comunista Português) e é de profunda demagogia”, acrescenta Otelo Saraiva de Carvalho.

  • 03 Jul 1986

    Cada português bebe 100 litros de vinho por ano

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Paulo NovaisFoto Paulo Novais

    No dia 03 de julho, o Diário de Notícias publica os dados alarmantes referentes ao consumo de álcool em Portugal e que indicam que cada português bebe mais de 100 litros de vinho por ano.

    Segundo o estudo divulgado pela psiquiatra Odília Castelão, citado pelo jornal, os portugueses ocupam o terceiro lugar em consumo de álcool na Europa e bebem anualmente 80 litros de vinho e 45 de cerveja e no que se refere aos maiores de 15 anos de idade o “uso de vinho atinge os 106,7 litros per capita”.

    A psiquiatra indicava também que os portugueses bebiam, em 1986, três vezes mais álcool do que leite e que Portugal ocupava o primeiro lugar no que se referia à mortalidade masculina por cirrose hepática.

    A comunicação de Odília Castelão, durante uma palestra organizada pelo Departamento de Educação Permanente dos Hospitais Civis de Lisboa, referia ainda que Vila Real, Viseu, Guarda e Leiria eram os distritos onde era maior o número de alcoólicos e que nos 16 anos anteriores o consumo de cerveja tinha registado um aumento significativo em todo o país.

    “O elevado consumo de álcool existente em Portugal está diretamente relacionado com a grande produção de vinho no país. Em 1983 produziram-se 303 hectolitros, o que nos coloca em terceiro lugar, a nível europeu e em nono, a nível mundial”, acrescenta o Diário de Notícias.

    As negociações entre Portugal e a China sobre Macau estão na ordem do dia e, por isso, são publicadas as declarações do governador Pinto Machado, em Lisboa e que afirma que Pequim quer preservar o património português mas que há problemas no território como o “destacamento de professores” que têm de ser resolvidos pelo Executivo de Lisboa.

    Entretanto, o correspondente em Hong Kong do jornal britânico Daily Telegraph escreve que “nesta fase inicial” será tratado o problema da “nacionalidade dos portugueses nascidos em Macau, a questão do sistema legal, língua e a localização dos serviços públicos”.

  • 02 Jul 1986

    Pinto Machado com poderes sobre a questão de Macau

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Luis VasconcelosFoto Luis Vasconcelos

    Em plena ronda negocial entre Portugal e a China sobre Macau, Mário Soares delega poderes ao governador do território conferindo a Pinto Machado “ a competência para as relações com os países estrangeiros e a celebração de acordos ou convenções internacionais”, mas com a obrigatoriedade de dar conhecimento prévio à Presidência da República.

    Entretanto, em Pequim, é divulgado o comunicado final do encontro diplomático entre Portugal e a China e que estabelece a “agenda geral das conversações acerca da transferência da administração de Macau”, tendo a segunda reunião sido marcada para o próximo mês de setembro.

    Segundo o DN a data de transferência de poder de Macau, “que Portugal pretende ver mais dilatada do que a de Hong Kong, marcada para o dia 01 de julho de 1997, sabendo-se apenas que as autoridades chinesas revelaram uma certa recetividade à proposta de Lisboa”.

    No mesmo dia é noticiada a conferência de imprensa que decorreu em Lisboa, de Abílio Araújo, na altura dirigente da Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente e Paulo Pires da União Democrática Timorense em que acusam o Governo português de “falta de diálogo ” por não reconhecerem “publicamente” os movimentos políticos timorenses.

    Os dois dirigentes falaram de convergência entre os movimentos pró-independência e sublinharam que o caso de Timor ultrapassava Portugal e a Indonésia, que invadiu a colónia portuguesa em dezembro de 1975.

    Em Portugal, igualmente a 02 de julho, as atenções do DN estão voltadas também para o debate sobre a alteração da lei da Televisão, com Pinto Balsemão, administrador da Sojornal, a defender num colóquio que o Governo, “sob o desejável controlo” da Assembleia da República, pode regulamentar a concessão á iniciativa privada de, pelo menos, dois canais televisivos de âmbito nacional.

  • 01 Jul 1986

    Negociações entre Portugal e China sobre macau

    Por Pedro Sousa PereiraFoto Inácio RosaFoto Inácio Rosa

    A primeira ronda de negociações entre Portugal e a China sobre Macau, decorrem em Pequim, e debatem “questões processuais”.

    Segundo a edição do Diário de Notícias do dia 01 de julho, Ji Pengfei, conselheiro de Estado com responsabilidades sobre os processos de Hong Kong e Macau, dirigindo-se ao chefe da delegação portuguesa, Rui Medina, afirmou que a posição da República Popular da China é de “olhar para a frente face às questões históricas” acrescentando que as “coisas passadas estão passadas”.

    O jornal, refere que as conversações sobre Macau abriram após uma ampla divulgação da interpretação histórica oficial chinesa sobre a presença portuguesa no território, “especulando” sobre a questão da soberania.

    O longo processo que se vai prolongar até dezembro de 1999 conhece na primeira ronda negocial sobre a transferência de poder, a marcação de datas e o estabelecimento de locais para futuros encontros diplomáticos.

    A par da notícia do encontro entre os diplomatas dos dois países, e que se vai prolongar mais um dia na capital chinesa, o jornal indica que o governador de Macau, Pinto Machado, foi convocado pelo presidente da República, Mário Soares, para participar na próxima reunião do Conselho de Estado, sendo esperado em Lisboa nas próximas 24 horas.

    Na secção de economia do DN destaca-se a preocupação sobre a queda do preço do petróleo que pode vir a descer aos 10 dólares por barril devido a divergências entre os países produtores (OPEP).

    Em julho de 1986 os preços “flutuam perto” dos 11.50 dólares por barril.

  • 30 Jun 1986

    Argentina reconquista o título mundial numa final de muita emoção

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    Maradona passeado em ombros no Estádio Azteca, exibe o troféu que simboliza o título mundial de futebol, conquistado pela segunda vez em oito anos pelos argentinos.

    É com esta foto (NP/Reuter) que o Diário de Notícias ilustra a capa para noticiar a vitória da Argentina sobre a Alemanha Federal (3-2) na final do Campeonato Mundial de Futebol realizado no México em 1986.

    Contra todas as previsões, que davam o favoritismo à Alemanha, os argentinos saem vencedores e com o mérito reconhecido.

    “Foi, sem dúvida, a equipa mais compenetrada, a das exibições mais brilhantes e a que possui o melhor jogador da actualidade – Maradona”, escreve o DN.

    O autor do texto considera, porém, que a equipa da RFA esteve à beira de “uma sensacional proeza” na reta final do jogo, realizado na Cidade do México.

    “Com a desvantagem de dois golos, os alemães reagiram e fizeram prevalecer a sua força sobre a técnica, chegaram à igualdade ainda com oito minutos por jogar e parecia serem capazes de concretizar o que já ninguém esperava”, lê-se no relato dos acontecimentos.

    Mais de cem mil pessoas assistiram à final do campeonato e milhões de adeptos acompanharam pela televisão em todo o mundo, segundo a mesma fonte.

  • 29 Jun 1986

    PS não quer mulheres nem à frente nem atrás dos homens

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto António CotrimFoto António Cotrim

    A Organização das Mulheres Socialistas, criada cinco anos antes, é extinta no VI Congresso do PS, por proposta de uma militante do Porto, Julieta Sampaio, e apoiada pelos delegados de Vítor Constâncio.

    A militante socialista justifica a extinção da organização, autónoma do PS, argumentando que as mulheres devem caminhar ao lado dos homens, “não atrás, nem à frente”.

    “Temos de nos abrir à sociedade”, defende Julieta Sampaio, citada pelos jornais, que dão ainda conta da rejeição de uma proposta da JS para lhe serem atribuídas quotas para a organização de listas de candidatos a deputados.

    O Diário de Notícias destaca que o PS tem uma nova imagem a partir de 29 de junho de 1986, ao eleger Vítor Constâncio como secretário-geral.

    Além de Constâncio, a lista oficial de candidatos ao Secretariado Nacional integra nomes como Arons de Carvalho, António Guterres, Elisa Damião, Jorge Sampaio, Torres Couto, Manuel Alegre, Sottomayor Cardia e Nuno Brederode Santos, entre outros.

  • 28 Jun 1986

    Governo anuncia descida nas taxas de juro

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    O ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, anuncia no Porto, que as taxas de juro vão baixar três por cento, uma medida que é vista como “o segundo fôlego” do governo, depois de aprovada a moção de confiança.

    Perante uma plateia de empresários, Cadilhe anuncia também a criação de um novo incentivo: o crédito fiscal por investimento, correspondendo a uma reivindicação dos empresários.

    Quem investir vai poder descontar, na fatura de contribuição industrial, 10% do valor investido.

    O ministro anuncia as medidas durante as Primeiras Jornadas do Investidor, explicando que se trata de uma redução da própria coleta da contribuição industrial, ou seja, do imposto a pagar.

    Miguel Cadilhe sublinha que o novo incentivo é automático, sem necessidade de requerimentos.

    No palco da iniciativa, organizada pela Associação Industrial Portuense em colaboração com a Confederação Portuguesa da Indústria, Cadilhe diz que a descida das taxas de juro foi possível porque “a política macroeconómica governo, de redução da inflação teve, em sete meses, um êxito espetacular”.

    Frisa ainda que a descida da inflação permitirá ao governo “diminuir o ritmo de desvalorização deslizante do escudo”, que passa a ser de 0,7% ao mês no terceiro trimestre e 0,6% no quarto trimestre.

  • 27 Jun 1986

    Governo ganha a confiança solicitada ao Parlamento

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    Durante a madrugada, o parlamento aprova a moção de confiança solicitada pelo governo, com os votos a favor do PSD e do CDS, a abstenção do PRD e contra do PS, PCP e MDP.

    Cavaco Silva reclama vitória, declarando: “Para este Governo não há alternativa credível”.

    No total, contam-se 108 votos a favor, 93 contra e 44 abstenções.

    No discurso final antes da votação, Aníbal Cavaco Silva frisa que o voto favorável dos deputados significaria “a legitimidade do Governo”, do seu programa e objetivos.

    O primeiro-ministro defende que não se pode confundir uma maioria relativa com um governo de gestão e encara o voto do parlamento como “uma clarificação das responsabilidades”.

    “Uma oposição responsável”, diz, “não é uma oposição sistemática à acção governativa”.

    No mesmo dia, é noticiada a intenção de dispensar 2.000 trabalhadores da TAP.

    Sob o título “TAP faz-se à pista para dispensar 2.000”, o Correio da Manhã avança que a decisão será tomada “na base do diálogo e comum acordo”.

    O conselho de gerência da transportadora inicia, então, a distribuição a todos os trabalhadores de um pequeno questionário destinado a auscultar “o melhor processo a seguir para cumprir aquele objetivo”.

    O plano é alcançar, por etapas, a diminuição de cerca de 20 por cento do pessoal.

  • 26 Jun 1986

    Governo balança mas… não cai

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto António CotrimFoto António Cotrim

    O Governo ameaça cair no parlamento, com a oposição declarada do PS e do PCP à moção de confiança de Cavaco Silva, que obriga o PRD e o CDS a definirem posições.

    Conforme observa o Comércio do Porto, centristas e renovadores democráticos ficam “entre a espada e a parede”, uma vez que o repto não lhes interessa.

    Num cenário de eleições antecipadas teriam de disputar a corrida na posição de corresponsáveis pela queda de um governo com “um grau considerável de popularidade”, escreve o Comércio.

    No dia em que a Assembleia da República vota a moção de confiança proposta pelo governo, os jornais contam espingardas para sublinhar que caso o PRD e o CDS se abstenham na votação agendada para a noite o governo será demitido automaticamente.

    Cavaco Silva é considerado um mestre a gerir o “timing” político e não esconde a vontade de ver eleições antecipadas para conquistar a maioria absoluta.

    Enquanto o líder social-democrata recusa as acusações de afronta ao parlamento, a oposição frisa a situação minoritária do governo.

    Jornais como o Correio da Manhã noticiam que e a opinião pública está a favor de Cavaco.

  • 25 Jun 1986

    Sobrevivência do Governo nas mãos do PRD e do CDS

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O PS decide unanimemente votar contra a moção de confiança proposta pelo governo de Cavaco Silva ao parlamento.

    Sabe-se já que o PCP e o MDP votam igualmente contra, mas subsistem dúvidas quanto à posição do PRD e do CDS no plenário.

    A rejeição da moção de confiança reúne o voto de 93 deputados, neste momento, pelo que “a sobrevivência do Governo” está dependente de o PRD se abster e de o CDS votar favoravelmente, conta o Diário de Notícias a 25 de junho de 1986.

    O jornal revela que o histórico do CDS Adriano Moreira se reuniu com o primeiro-ministro, Cavaco Silva, e com o Presidente da República, Mário Soares.

    O CDS não fora consultado previamente sobre a decisão de Cavaco avançar com a moção de confiança, o que terá feito saber ao primeiro-ministro.

    Segundo o Comércio do Porto, a decisão de Cavaco foi tomada de madrugada, durante uma reunião da Comissão Política Nacional do PSD e o plenário ministerial, realizado horas mais tarde, “quase se limitou a tomar conhecimento”.

    Mário Soares ouve todos os intervenientes, mas não se pronuncia.

  • 24 Jun 1986

    Cavaco confronta Parlamento com uma moção de confiança

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    Cavaco Silva, a braços com a oposição parlamentar às reformas que pretende adotar, faz uma declaração ao país para reafirmar que o governo não se demite.

    O chefe do governo avança com uma moção de confiança e declara: “Se não nos deixarem governar, a responsabilidade não é nossa”.

    Na moção, o governo liderado por Cavaco Silva pede “poder para exercer plenamente o mandato que lhe foi conferido”.

    Perante as câmaras da RTP, o primeiro-ministro explica que pretende perguntar à Assembleia da República se o governo “pode ou não executar o programa que a própria Assembleia viabilizou”.

    Cavaco tenta alterar várias leis, nomeadamente no plano laboral, e queixa-se da recusa da oposição em acompanhar as alterações que pretende impor.

    Alega que são necessárias mudanças para acabar com desperdícios de dinheiro e promover o investimento, criando postos de trabalho e estabilidade no emprego, mas não convence a oposição.

    No discurso que profere, defende a necessidade de reduzir o peso do Estado e de “libertar e rentabilizar a comunicação social”.

    Os jornais aproveitam a época – de futebol e santos populares - para ironizar nos títulos:

    Correio da Manhã - “Governo e Assembleia também vão a penalties”

    Comércio do Porto - “Cavaco lança bomba de S. João”.

  • 23 Jun 1986

    Dez mortos e 25 feridos num desastre próximo do Porto

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O Expresso Braga – Lisboa despista-se na autoestrada do Norte, num dia de chuva, provocando a morte a 10 pessoas e deixando 25 feridas, algumas em estado grave.

    Os feridos são transportados para os hospitais de São João da Madeira, de Vila Nova de Gaia e do Porto.

    Um dos passageiros relata o acidente ao Diário de Notícias, indicando que o autocarro seguia a pouca velocidade. O piso molhado e possivelmente algum óleo na estrada terão estado na origem do despiste.

    Segue-se o relato do pânico entre os passageiros antes do embate final, depois de o veículo ter batido por duas ou três vezes nas margens da via.

    “Não sei como aquilo aconteceu, foi um terror”, conta ao jornal uma das vítimas, ainda nas urgências do hospital.

    Segundo a mesma fonte, o autocarro viajava a 70 – 75 quilómetros por hora.

    A tragédia na autoestrada ocupa as manchetes dos jornais neste dia, em que é também notícia de primeira página a vitória do PSOE em Espanha, com maioria absoluta.

    Apesar de vencer as eleições legislativas, os socialistas liderados por Felipe Gonzalez baixam a votação.

    Fraga Iribarne obtém um resultado desanimador - vinca o Comércio do Porto -, enquanto Suarez e os independentistas bascos sobem.

    As eleições decorrem com normalidade, com os espanhóis a confirmarem a votação de 1982.

    De acordo com as previsões apuradas na véspera e divulgadas por Alfonso Guerra, número dois do PSOE, os socialistas conseguem 186 deputados, num parlamento de 350 lugares, perdendo 16 em relação à legislatura anterior.

    A “Coligação Popular”, principal força da oposição perde três deputados, elegendo 103 parlamentares, ao obter 26% dos votos expressos.

  • 22 Jun 1986

    Acidentes de trabalho matam uma pessoa por dia

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Luís ForraFoto Luís Forra

    Em 1986 morria em Portugal uma pessoa por dia vítima de acidente de trabalho e existiam mais de 600.000 deficientes em consequência daqueles acidentes.

    A revelação surgia nas páginas dos jornais com base em declarações de um dirigente associativo à agência NP, antecessora da Lusa.

    Durante um encontro da Associação Nacional dos Deficientes Sinistrados no Trabalho, realizado em Coimbra, um dos responsáveis, José Pais, defendia a necessidade de orientar as vítimas de acidentes de trabalho sobre os direitos sociais e de lhes ser prestado apoio jurídico.

    A associação decidira, neste sentido, solicitar a revisão da tabela nacional de incapacidade, a revisão das pensões e a lista das doenças profissionais.

    De acordo com as estatísticas mundiais e nacionais apresentadas no encontro, a maior taxa de sinistralidade verificava-se entre os jovens.

    Um trabalho publicado na revista da Associação Portuguesa de Seguradoras especificava que, a nível nacional, os trabalhadores com menos de 25 anos eram vítimas de 11,4% do total de acidentes neste segmento, cabendo 9% dos sinistros à faixa etária situada entre os 25 e os 45 anos.

    Em pessoas com mais de 65 anos, registavam-se 10,8% dos acidentes e 8,2% ocorria em funcionários entre os 45 e os 65 anos.

  • 21 Jun 1986

    Governo abre inquérito a conselho de gerência da TAP

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto António CotrimFoto António Cotrim

    O secretário de Estado dos Transportes, Sequeira Braga, propõe ao governo a abertura de um inquérito a dois atos do conselho de gerência de TAP considerados “extremamente graves”, por lesarem a companhia em mais de 500 mil contos.

    A proposta merece despacho favorável por parte do ministro Oliveira Martins e o processo transita para o Ministério das Finanças, que o encaminha para a Inspeção Geral de Finanças.

    Na base das suspeitas está um documento confidencial elaborado pela nova administração da transportadora, presidida por João Lencastre, que substituíra Gomes Mota em abril.

    Nesse documento, os novos responsáveis da TAP começam por denunciar “algumas situações que parecem menos claras” e que revelam “certa gravidade”, noticia o Expresso a 21 de junho de 1986.

    A primeira situação respeita à concessão da exploração do Hotel Mundial em Luanda, que fora atribuído à TAP para alojamento do pessoal por um período de cinco anos.

    Segundo o documento relatado pelo semanário, a TAP tratou o assunto como se de uma concessão para exploração pública se tratasse, negociando com a sua subsidiária ESTA “um contrato de gestão do mesmo hotel” e investindo cerca de 500 mil contos (2,5 milhões de euros) “num ambicioso processo de reconstrução e reequipamento.

    O hotel, à data de produção da notícia, ainda não está em funcionamento, sendo entretanto inaugurado.

    O conselho de gerência da TAP considera praticamente inviável a recuperação do investimento, dado já terem passado dois anos do contrato de cinco.

    O projeto inicial previa um investimento de apenas 50.000 contos (250.000 euros).

    O segundo caso reportado refere-se à compra da Air Atlantis, empresa onde a TAP controla 99,9% do capital, de um conjunto imobiliário por 230.000 contos (1,2 milhões de euros), em Lisboa.

  • 20 Jun 1986

    Lisboa volta a ter gás após quatro dias de greve

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O governo põe fim a quatro dias de greve na Petroquímica e Gás de Portugal ao aplicar uma requisição civil, que os sindicatos contestam.

    A medida é aprovada em Conselho de Ministros na sexta-feira, devido à greve que começara às 00:00 de segunda-feira e que terá afetado cerca de 800.000 utilizadores.

    A resolução, imediatamente contestada pelos sindicatos, chega às redações sob a forma de nota oficiosa, que os jornais publicam na íntegra.

    O governo considera que a posição assumida pelos sindicatos no conflito laboral (devido a questões salariais) se revela contrária ao diálogo e “colide com os princípios da vida democrática e solidariedade social”, pondo ainda em risco a segurança dos utentes.

    Entre 730 trabalhadores da Petroquímica, 150 são abrangidos pela requisição civil, fundamentalmente funcionários da produção de gás e da segurança das instalações fabris.

    O porta-voz do governo, o ministro Fernando Nogueira, volta a apelar à população para seguir as regras de segurança difundidas pela EDP, a empresa distribuidora de “gás de cidade”.

  • 19 Jun 1986

    PCP defende que existem condições para novo Executivo sem eleições

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O governo de Cavaco Silva pretende uma autorização da Assembleia da República para alterar leis laborais, o que merece a oposição de partidos como o PRD e o PCP, com os comunistas a defenderem que há condições para um novo Executivo sem eleições.

    O Partido Renovador Democrático (PRD) opõe-se a que o parlamento conceda autorização ao governo para alterar o direito do trabalho, defendendo que as autorizações legislativas “só devem ser concedidas em termos muito restritos”.

    O PRD vinca que o problema da alteração da legislação laboral deve ser debatido no hemiciclo, sob a forma de proposta de lei, e com audição das organizações sindicais.

    O PCP, pela voz de Álvaro Cunhal, diz que existem condições institucionais para substituir o governo, “sem necessidade de eleições antecipadas”.

    Este é apresentado na imprensa como o objetivo central do PCP.

    O secretário-geral do partido afirma, em conferência de imprensa de balanço do Comité Central, que o PCP continuará a lutar pela “convergência e unidade de todas as forças democráticas”, o que para os comunistas é “não só necessário, como possível a todos os níveis”.

    Cunhal recorda que PCP, PS, PRD, MDP e Os Verdes dispõem de maioria na Assembleia da República, considerando essencial “tornar normais, regulares e naturais o diálogo e encontros” entre aquelas forças.

    Objetivo: “procurar pontos de possível ação comum” e “não ceder às campanhas e intrigas, visando impedir ou travar a aproximação das forças democráticas”.

  • 18 Jun 1986

    Gás pode faltar até ao dia 28 após fracasso nas negociações

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Estela SilvaFoto Estela Silva

    Os trabalhadores da Petroquímica decidem prolongar uma greve por mais cinco dias.

    “Os 600.000 consumidores de gás de Lisboa ficarão assim privados desde combustível por duas semanas”, escreve o Diário de Notícias.

    O protesto prende-se com o fracasso de negociações entre os representantes dos trabalhadores e a administração da empresa relacionada com a contratação coletiva.

    Em consequência, os trabalhadores decidem prolongar a paralisação que inicialmente duraria até domingo, noticia a edição de quarta-feira do DN a 18 de junho de 1986.

    O jornal cita declarações de uma fonte sindical à ANOP para informar que a maior parte das fábricas portuguesas de adubos está em vias de “paralisação total” por falta de amoníaco, devido à greve.

    “A menos que importem amoníaco, as fábricas de adubo, primeiro, e as empresas consumidoras de amoníaco, como tinturarias e lavandarias, logo a seguir, terão de encerrar”, afiança José Bento, da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores Químicos.

    A greve dos trabalhadores da Petroquímica e Gás de Portugal, além de afetar os lisboetas consumidores de gás da companhia, provoca também a paralisação das fábricas de adubos da Quimigal de Alverca e de Estarreja e ameaça paralisar igualmente a Isopor.

  • 17 Jun 1986

    Regime de segregação racial na África do Sul está longe do fim

    Por ANA MENDES HENRIQUESBispo Desmond TutuBispo Desmond Tutu

    O regime de segregação racial na África do Sul está ainda longe do fim e a pouca informação que sai do país é sujeita aos cortes da censura imposta pelas autoridades de Pretória, a braços com a revolta da população negra.

    “O que se está a passar ao certo na África do Sul é coisa que não é conhecida – com alguma certeza – fora das fronteiras daquele país”, escreve o Comércio do Porto, frisando que a par do estado de emergência fora decretado um bloquei informativo total.

    Todas as imagens e textos saídos na véspera da República da África do Sul são submetidos a censura prévia, mas o governo reconhece que 90 por cento dos trabalhadores negros fizeram greve, por ocasião do 10.º aniversário da revolta do Soweto.

    Num ofício religioso evocativo daquele massacre, o bispo Desmond Tutu afirma que reina no Soweto “uma paz raivosa”.

    A situação do país é enquadrada com um texto da NP – Notícias de Portugal (antecessora da Lusa), assinado pela jornalista Anabela Neves Ferreira:

    “Grande Tribo Branca domina África do Sul

    Os negros da África do Sul têm um ditado que diz - quando o homem branco chegou tinha uma Bíblia e nós tínhamos a terra, agora nós temos a Bíblia e ele a terra.

    Um regime com 38 anos de existência está na origem da situação que o ditado popular exprime: um quinto da população, de origem europeia, mantém 24 milhões de negros confinados a 13 por cento do território do país.

    Em 1963, um primeiro-ministro sul-africano afirmava no Parlamento, constituído unicamente por brancos, que o problema do regime de segregação racial, reduzido à sua expressão mais simples, consistia na vontade de manter a África do Sul branca, de garantir o domínio dos brancos, não a sua direcção, nem a sua tutela, mas a sua supremacia”.

  • 16 Jun 1986

    “Escudo deve fortalecer-se segundo relatório da OCDE”

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) defende que a política de desvalorização do escudo deve ser alterada.

    Num relatório anual sobre Portugal, a organização considera também que deve ser dada maior atenção à política salarial e alerta para a necessidade de medidas de controlo do desemprego e de correção na Agricultura.

    “Considerando os bons resultados conseguidos pela política de desvalorização do escudo, sobretudo ao nível do reajustamento exterior e dos reganhos de produtividade nos mercados internacionais, e da contração da procura, a organização não deixa de chamar a atenção para a pesada contrapartida que daí adveio”, noticia o Correio da Manhã.

    Níveis de inflação elevados e as consequentes distorções para a economia são apontados pela OCDE, segundo a qual a desvalorização da moeda constitui “um meio politicamente mais fácil de adotar”, com os agregados familiares a serem vítimas de “uma certa ilusão monetária”.

    O jornal nota que o combate à inflação se tornou a principal tarefa do executivo liderado por Cavaco Silva.

    A OCDE recomenda que o recurso à depreciação do escudo, como elemento de equilíbrio exterior “deverá ser progressivamente reduzido e trocado por uma política de moderação da evolução salarial”.

  • 15 Jun 1986

    Jorge Luís Borges morreu em Genebra

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    O escritor argentino Jorge Luís Borges morreu em Genebra, aos 86 anos, vítima de cancro no fígado, três meses depois de casar com a secretária e companheira de longa data, Maria Kodama.

    Borges residia em Genebra desde o casamento e havia manifestado o desejo de ser sepultado na Suíça, onde passou a juventude.

    Nascido a 24 de agosto de 1899 em Buenos Aires, considerava-se um cidadão mundial.

    Reconhecido como um dos maiores escritores da América Latina e da literatura mundial, Borges inspirou escritores como Umberto Eco e Vergílio Ferreira, deixando uma vasta obra também como poeta e ensaísta.

    O Diário de Notícias recordou, neste dia, as palavras de Borges sobre a sua própria morte: “Enfrento a morte como uma esperança, a de que tudo acabe. Quando morrer, quero morrer de corpo e alma. Não quero ser ameaçado com a imortalidade”.

    Para Vergílio Ferreira, a literatura mundial ficou privada de um grande valor - “Sem dúvida do maior escritor do nosso tempo, do mundo de hoje”.

    Sophia de Mello Breyner, que contava encontrá-lo em breve em Florença, lamentou igualmente a morte do escritor como “um dos grandes” da sua época.

    Agustina Bessa Luís saudou o talento de Borges e Alçada Bpatista sublinhou que se perdeu “uma referência viva” do que era verdadeiramente a arte literária.

    Mais do que lamentar a perda do escritor, Alçada Baptista reagiu com um apelo para uma derradeira homenagem: “Nobel à obra de Borges, que era até ontem, indiscutivelmente, o maior escritor vivo do nosso tempo”.

  • 14 Jun 1986

    Incêndio provoca tragédia no Funchal

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    Um incêndio destrói um dos edifícios mais antigos do Funchal, a casa onde terá vivido o navegador Cristóvão Colombo, provocando a morte a duas pessoas e ferimentos em 12, deixando 20 famílias desalojadas.

    O edifício albergava provisoriamente várias famílias que aguardavam por outras residências e tinha obras de recuperação planeadas pelo Governo Regional da Madeira.

    As primeiras estimativas apontam para prejuízos na ordem dos cem mil contos (meio milhão de euros).

    Entre os feridos no incêndio que deflagrou no mítico edifício de cinco pisos, contam-se duas crianças em estado grave.

    No continente, onde as temperaturas atingem os 36 graus, registam-se também vários incêndios, sobretudo nas regiões Norte e centro.

    Em Matosinhos, as chamas consomem três mil metros quadrados de mata próximo de duas unidades industriais, o que obriga a cortar o trânsito na Estrada Nacional.

    Em Leça do Bailio, verifica-se uma situação idêntica, que mantém os bombeiros em constante atividade.

  • 13 Jun 1986

    “Guerra no PS está a aquecer”

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    “Com Soares em Belém, trocando a família socialista pela cátedra presidencial, a sucessão no PS não se faz sem sobressaltos”, escreve O Comércio do Porto a 13 de junho de 1986.

    Vítor Constâncio enfrenta Jaime Gama na corrida à liderança do Partido Socialista e reúne a maioria dos apoios no congresso, o que lhe assegura a liderança, mas não o livra das críticas dos opositores e de uma comparação a Cavaco Silva.

    O Comércio refere-se a Constâncio dizendo que, imitando o “estilo Cavaco” na Figueira da Foz, declarou “guerra aos grupos” e ameaçou não os permitir.

    A candidatura de Gama “riposta com malícia” que se trata de uma posição estranha vinda de um ex-minoritário do partido.

    O jornal relata que as dores de cabeça do ex-governador do Banco de Portugal se agravam quando à anunciada “rebelião permanente” dos gamistas insubmissos se somam as quezílias nas suas próprias hostes, com diversos grupos de pressão a disputarem os favores do futuro chefe.

    É o VI Congresso do PS e, em fase de constituição de listas, Constâncio vê-se a braços com dificuldades para gerir os vastos apoios que conseguiu.

    Constâncio tem então de gerir um vasto leque de minorias, enquanto os gamistas, “vencidos, mas não convencidos”, troçam da proibição de se assumirem como oposição organizada dentro do PS.

  • 12 Jun 1986

    Portugal perde com Marrocos e sai do mundial

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    Portugal é afastado do Campeonato Mundial de Futebol, no México, depois de perder o jogo com Marrocos, uma derrota relatada com emotividade pela imprensa portuguesa.

    Marrocos, Inglaterra, México e Paraguai apuram-se para os oitavos-de-final.

    O Diário de Notícias escreve que a derrota da seleção portuguesa nunca terá estado nas previsões dos adeptos, nem mesmo quando os africanos evidenciavam possuir uma equipa capaz de largos voos.

    “Mas a derrota aconteceu e nada há a opor ao merecimento do que Marrocos alcançou, deitando por terra as ilusões portuguesas e classificando-se em primeiro lugar no grupo”, relata a edição de 12 de junho de 1986.

    O repórter conta que dois golos inapeláveis pronunciavam grandes dificuldades para a equipa portuguesa, “conhecido, para mais, o estilo e a força dos marroquinos”.

    Diz o autor do texto que os infantes, como eram apelidados os jogadores, “lutaram muito”, após o intervalo, para modificar o final do jogo e criaram algumas situações em que o golo poderia ter sido possível “se a sorte também não tivesse virado as costas à equipa”.

    “A sorte e o árbitro”, prossegue o redator, para dizer que a seleção nacional insistiu e fez um golo, “forjou alguns lances de sobressalto” para a defesa de Marrocos, mas “despertou muito tarde para evitar uma derrota inesperada e que não pode deixar de ser considerada humilhante”.

  • 11 Jun 1986

    “Mulheres na tropa…Só se quiserem”

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    Um projeto sobre o serviço militar apresentado com a indicação de “prioritário” pelo Governo de Cavaco Silva e que esta semana deve subir ao plenário da Assembleia da República continua a dividir os portugueses entre cidadãos de primeira e de segunda, situação que os parlamentares certamente não terão “coragem” para alterar.

    É desta forma que O Comércio do Porto noticia a possibilidade de as mulheres virem a prestar serviço militar.

    Com efeito, a nova lei vai adiar “para momento mais oportuno o alargamento do serviço efetivo normal aos cidadãos do sexo feminino”, alegando-se para isso que o princípio da igualdade dos sexos, no caso da ida à tropa, “implicaria a mobilização de recursos financeiros e de estruturas praticamente inexistentes”.

    Duvida-se mesmo que eventuais requerimentos nesse sentido venham a ser autorizados, uma vez que fica nas mãos dos chefes militares a definição dos quantitativos dessas voluntárias para cada ramo das Forças Armadas.

    “E não se prevê que, com as estruturas existentes nos quartéis e a falta de verbas para investir em novas e adequadas instalações que evitem problemas e compreensíveis dores de cabeça aos comandantes das unidades, os chefes militares estabeleçam quantitativos para mulheres que vão além da estaca zero”, conclui o autor da prosa.

  • 10 Jun 1986

    Cartão Jovem a partir de 1 de julho

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    “A partir do dia 01 de julho, o poder de compra dos jovens portugueses com idades entre os 14 e os 25 anos vai subir grandemente”, vaticina o Correio da Manhã, referindo as vantagens da entrada em vigor do Cartão Jovem.

    No texto, frisa-se que, graças a um cartão da Comunidade Económica Europeia (CEE), os jovens portugueses vão poder auferir descontos que chegam aos 50 por cento.

    O cartão custa 500 escudos (dois euros e meio) e permite descontos em diversos produtos, desde livros, discos e computadores a serviços de “snack-bar, entre muitos outros.

    São também contemplados descontos nos grandes operadores de transportes como a TAP, a CP e a Rodoviária Nacional.

    A Secretaria de Estado da Juventude informa que o cartão será posto à venda em todo o país, nas delegações regionais do Fundo de Apoio aos Organismos Regionais (FAOJ), nos balcões do Banco Pinto & Sotto Mayor e nas dependências da Companhia de Seguros Mundial Confiança.

    No ato da aquisição, é oferecido ao utente um guia com a lista de produtos e serviços abrangidos, bem como as percentagens de desconto, que dependem do tipo de artigos e das empresas.

    Mais de mil empresas aderem ao projeto na fase de arranque.

  • 09 Jun 1986

    “Eanes assume ligação ao PRD”

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    “Há uma ligação real entre mim e o PRD”, afirma Ramalho Eanes, durante uma visita a Castelo Branco para contactos com militantes de um partido organizado para “garantir a continuidade” do ex-Presidente da República na cena política.

    O texto é do jornal O Comércio do Porto a 09 de junho de 1986, quando Ramalho Eanes quis “desvanecer” os receios de um propagado distanciamento em relação ao PRD e decidiu “assumir a obra que, sem a sua assinatura, foi concebida em seu nome”.

    Castelo Branco marca o início de uma viagem ao interior do Partido Renovador Democrático (PRD).

    O ponto de chegada, segundo o jornal, está aprazado para outubro, quando Eanes assumir não só a “ligação real” ao PRD, mas também a liderança do partido.

    Ramalho Eanes desfaz as dúvidas para esclarecer que tal ligação não se traduz ainda no ingresso naquela formação partidária, o que só está previsto para a Convenção do PRD, em outubro.

    O jornal do Porto cita a ANOP, agência antecessora da Lusa, para dizer que a resposta de Eanes a um convite feito pelo PRD se traduz “em observar pessoalmente aquilo que o PRD é” e “em mostrar politicamente que existe uma ligação real” entre si e o partido.

    O ex-Presidente refere-se ao contacto que iniciara no fim-de-semana em Belmonte (distrito de Castelo Branco) com as estruturas distritais e concelhias dos renovadores democráticos.

  • 08 Jun 1986

    Isabel II pressiona Margaret Thatcher para apdotar sanções contra Pretória

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O diário londrino “Today”, citado pelo Diário de Notícias, afirma que a rainha Isabel II está a pressionar a primeira-ministra inglesa, Margaret Thatcher, para adotar sanções económicas contra a África do Sul, devido à política de segregação racial.

    Segundo o “Today”, numa das últimas audiências semanais, a soberana terá exprimido a Thatcher “crescente preocupação” pela deterioração da situação sul-africana e pelo isolamento da Grã-Bretanha na comunidade britânica de nações (Commonwealth), devido à sua negativa em sancionar economicamente o regime racista de Pretória.

    A rainha de Inglaterra preside à comunidade, uma associação entre a Grã-Bretanha e as suas 48 ex-colónias.

    O gabinete de Thatcher nega-se a confirmar ou desmentir as alegadas pressões da rainha Isabel e salienta que a oposição de Thatcher em aplicar sanções económicas contra a África do Sul não se modificou.

    Um porta-voz oficial declara: “Nunca comentamos o que se diz numa conversa privada entre a rainha e a primeira-ministra, mas a posição de Thatcher, de que as sanções não servem, continua”.

  • 07 Jun 1986

    Cavaco anuncia “ligeira” redução do serviço militar obrigatório

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    Durante uma visita ao campo militar de Santa Margarida, o primeiro-ministro, Cavaco Silva, anuncia “uma ligeira redução” do serviço militar obrigatório, que se cumpre à época em 18 meses.

    O chefe do governo não precisa qual será a redução, mas admite que pode passar para 15 meses o tempo que os jovens obrigatoriamente passam nas Forças Armadas.

    A proposta está contida num projeto do governo que se pretende “desburocratizante” e aglutinador das “aspirações da população”, sem prejuízo “dos aspetos essenciais do ponto de vista dos requisitos militares”, escreve o Correio da Manhã a 07 de junho de 1986.

    Na mesma ocasião, Cavaco deixa um recado para as chefias militares e garante que reequipar as Forças Armadas só após a recuperação económica.

    Acompanhado pelo ministro da Defesa Nacional, Leonel Ribeiro de Almeida, o líder do executivo afirma que a prioridade é concentrar esforços nas áreas económicas e sociais, pelo que as Forças Armadas terão de esperar.

    Autoriza, porém, que em sede de orçamento suplementar, seja inscrita, com pedido de urgência, uma verba de sete milhões de contos, dos quais quatro para as forças armadas e militarizadas.

    O montante destina-se a suprir as dificuldades orçamentais dos militares resultantes do imposto sobre combustíveis aprovado na Assembleia da República, conforme relata o Diário de Notícias.

  • 06 Jun 1986

    “Caso ANOP leva MNE a chamar diplomata da Guiné-Bissau”

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O encarregado de negócios da Guiné-Bissau em Lisboa é chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde lhe é manifestada “estranheza e preocupação” pela expulsão do delegado da agência de notícias que antecedeu a Lusa (ANOP).

    Enquanto isto, a Direção de Informação da agência manifesta-se solidária, tanto no plano pessoal como profissional, com o jornalista José António Salvador, expulso pelo governo de Nino Vieira.

    O caso volta a ser notícia de capa do Diário de Notícias, à semelhança do dia anterior e do que virá a acontecer com a primeira página do semanário Expresso no fim-de-semana.

    Em comunicado, a direção da ANOP destaca “a independência relativamente aos poderes locais” do trabalho do jornalista, classificando-o como “um canal quase único de divulgação para o exterior da grave situação política, económica e social” vivida naquele país.

    Recorda ainda que se trata do terceiro caso de expulsão de jornalistas da ANOP.

    “Em nenhum dos casos, as autoridades guineenses desmentiram ou acusaram os jornalistas de violação das leis do país ou das regras deontológicas do jornalismo”, defende a ANOP.

    A mesma posição assume o Sindicato dos Jornalistas, dando especial ênfase à recusa de José António Salvador revelar as suas fontes: “É a única maneira, num caso destes, por um profissional de informação”.

    O jornalista é expulso depois de escrever uma notícia sobre o início do julgamento de Paulo Correia, ex-vice-presidente do Conselho de Estado, acusado de liderar uma alegada conspiração.

  • 05 Jun 1986

    “Bissau expulsa delegado da ANOP”

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    O delegado da ANOP, o jornalista José António Salvador, é expulso da Guiné-Bissau por ordem das autoridades daquele país, depois de se ter recusado a revelar as fontes de uma notícia.

    “A ordem de saída, no primeiro avião com destino a Lisboa, foi dada oralmente pelos responsáveis guineenses, escreve o Diário de Notícias a 05 de maio de 1986.

    A informação pretendida pelas autoridades da Guiné-Bissau relacionava-se com uma notícia divulgada na semana anterior a dar conta do início do julgamento de Paulo Correia, ex-vice-presidente do Conselho de Estado, acusado de liderar uma alegada conspiração.

    O Correio da Manhã, por seu lado, destaca o surgimento do seguro de doença, por iniciativa da então ministra da Saúde Leonor Beleza, à qual o jornal se refere como “ministro” por ser ainda pouco habitual as mulheres desempenharem o cargo.

    A medida é anunciada no Porto, com a intenção de se minimizarem “as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde”.

    Leonor Beleza diz, então, que o objetivo é dar aos portugueses direitos consagrados na Constituição que “nunca foram além do sonho ou da propaganda”.

    A criação do seguro de doença constava no programa do governo, liderado por Cavaco Silva como um esquema de assistência social, de acordo com a informação divulgada pelo CM há 30 anos.

  • 04 Jun 1986

    “Guardas prisionais à beira da greve”

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Paulo CarriçoFoto Paulo Carriço

    Os guardas prisionais ameaçam fazer a primeira greve da classe contra as baixas remunerações, salários em atraso e um horário de trabalho que chega às 70 horas por semana, sem pagamento extra.

    “Os guardas prisionais – mais de dois mil em todo o país – estão a encarar seriamente a hipótese de virem a paralisar a actividade ainda no decorrer do presente mês, eventualmente durante oito horas em três dias seguidos”, noticia o Correio da Manhã a 04 de junho de 1986.

    De acordo com o jornal, as razões que motivam os guardas prisionais são muitas e antigas, relacionadas com as condições de trabalho e remuneração (horários, salários e subsídios).

    Os guardas afirmam-se cansados de “promessas sucessivamente adiadas” e depositam a última esperança numa audiência com o ministro da tutela, Mário Raposo.

    O Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional vai para a reunião pressionado pelos guardas, no sentido de avançar com formas de luta e já com uma assembleia geral agendada para o dia 07, em Coimbra, na qual se prevê aprovar o calendário de paralisações.

    Os jornais continuam a dar destaque ao Campeonato Mundial de Futebol, no México, destacando que a vitória sobre a Inglaterra abre caminho a Portugal (1 -0), enquanto o resultado México – Bélgica se fica por 2-1. Argélia e Irlanda empatam (1-1).

  • 03 Jun 1986

    “Porto de Lisboa e estuário do Tejo já têm planos para o século XXI”

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Inácio RosaFoto Inácio Rosa

    O Porto de Lisboa apresenta em 1986 as primeiras linhas para um plano que dará uma nova imagem ao estuário do Tejo e que prevê a construção de infraestruturas ainda em discussão 30 anos depois.

    À data, transitava pelo porto de Lisboa mais de um terço do comércio externo português (37 por cento) e mais de cinco mil navios num ano.

    Anuncia-se então um plano diretor com um período de vigência de 2000 a 2020 para “uma repartição espacial mais correcta” das atividades urbano portuárias no estuário do Tejo.

    A intervenção abrange a área de Vila Franca de Xira, Muge e zonas marítimas.

    De acordo com números inscritos na edição do Diário de Notícias a 03 de junho de 1986, o Porto de Lisboa registava há 30 anos um tráfego total na ordem de 15 milhões de toneladas, das quais somente duas e meia correspondiam a tráfego local, referindo-se todo o restante movimento a carga marítima internacional.

    O projeto para o maior porto do país, com uma superfície de 32.500 hectares e 25 quilómetros de comprimento, terá de receber os pareceres de várias entidades, do turismo à capitania, passando pela Junta Autónoma de Estradas.

    No plano, inscrevem-se a marina de Algés, a linha ferroviária Coruche – Ponte de Sor, com ligação à Trafaria – para transporte de contentores em direção a Espanha -, nós rodoviários amplos em Algés e Alcântara com ligação ao porto de Lisboa e ampliação da Nacional 10, em Beirolas.

    Prevê-se igualmente, na margem sul do Tejo, uma ligação da Trafaria a Pinhal Novo, através de um troço ferroviário e a polémica construção de um terminal de contentores na Trafaria.

    Para o Montijo, fica reservado um aterro para construir um novo cais de “grandes proporções”, enquanto a margem norte do concelho de Almada se destina à acostagem exclusiva de navios pesqueiros.

  • 02 Jun 1986

    “Rebelião dos Infantes poderá ser castigada”

    Por ANA MENDES HENRIQUESFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Silva Resende, declara em Saltillo, no México, que vai ser elaborado um dossiê sobre a “rebelião” dos jogadores portugueses, que ameaçaram boicotar o Mundial se não recebessem melhores prémios.

    “Esse processo será cuidadosamente feito para que no futuro não volte a acontecer um caso destes com uma seleção portuguesa”, sublinha Silva Resende, citado pelo Diário de Notícias.

    O dirigente desportivo acrescenta que a ação dos jogadores, que ameaçaram não jogar para fazer valer as reivindicações, se refletiu no Congresso da FIFA, causando “prejuízos irreparáveis” ao futebol português.

    Interrogado sobre as consequências do processo, Silva Resende responde: “Se resultar algum procedimento disciplinar, isso não depende de mim, mas do Conselho de Disciplina”.

    As declarações de Silva Resende surgem no dia em que a equipa nacional se desloca a Monterrey para um treino de adaptação ao piso do estádio em que no dia seguinte defronta a Inglaterra, num jogo de estreia das duas equipas no Mundial de 1986.

    No dia anterior, o Correio da Manhã destacava o início da “festa” do Mundial e a estrutura técnica montada para a cobertura: Doze câmaras em cada estádio do “Grupo F”, iniciado pelas seleções da Polónia e de Marrocos.

  • 01 Jun 1986

    “Foguetão Ariane destruído em voo”

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    Poucos minutos após o lançamento, o foguetão Ariane 18, que deveria colocar em órbita um valioso satélite, acaba por explodir, falhando mais uma missão do programa espacial europeu.

    “O programa Ariane sofreu ontem mais um revés, quando os técnicos foram obrigados a fazer explodir o foguetão e o sofisticado satélite de comunicações que deveria colocar em órbita, ao verificarem que os motores de terceira fase não entravam em funcionamento”.

    O relato dos acontecimentos é feito pelo Diário de Notícias, segundo o qual o acidente levou a Agência Espacial Europeia a ordenar, horas depois, a suspensão de futuros lançamentos, até à conclusão do inquérito sobre as causas do fracasso.

    O Ariane 18 transportava um satélite no valore de 35 milhões de dólares (31,5 milhões de euros).

    O terceiro andar do foguetão começou a desviar-se da rota, acabando por ser destruído em pleno voo, bem como o satélite, pelos técnicos do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa.

    O lançamento ocorrera às 02:00 de Lisboa, mas um dos motores não entrou em funcionamento.

    “Este é o quarto fracasso nos 18 lançamentos realizados no âmbito do programa espacial Ariane, considerado atualmente o único veículo susceptível de colocar em órbita satélites comerciais, numa base regular”, escreve o DN a 01 de junho de 1986.

    O satélite tinha capacidade para “15.000 mil linhas telefónicas e dois canais de televisão a cores”.

  • 31 Mai 1986

    “BNU descobre golpe de mais de um milhão de contos”

    Por ANA MENDES HENRIQUES

    A Alta Autoridade Contra a Corrupção não tem conhecimento oficial da existência de várias fraudes praticadas na agência de Caldas de Vizela do BNU – em que o banco foi lesado em mais de um milhão e cem mil contos, escreve o Expresso.

    O banco é desfalcado através de cheques sem provisão e financiamentos irregulares a várias empresas da região, segundo a edição do semanário de 31 de maio de 1986.

    “Embora os actos que defraudaram o banco tenham sido praticados ao longo de quatro anos, e a natureza dos mesmos indicie práticas que deveriam cair sob a alçada do gabinete de Costa Braz, a verdade é que, embora sem confirmação oficial, soubemos que o dossier de Caldas de Vizela não consta entre os processos em investigação naquele organismo”, sublinha o jornal.

    Ao que o Expresso consegue apurar, parece também não existir qualquer participação criminal contra os funcionários do balcão (entre os quais dois gerentes) que “colaboraram nos atos dolosos” e se encontram com “parte de doente”, sendo alvo de processo disciplinar com intenção de despedimento.

    Costa Braz desempenhou o cargo de alto comissário contra a Corrupção de 1983 a 1993.

  • 30 Mai 1986

    OCDE prevê inflação de 13,5% em Portugal este ano

    Por Ana Mendes Henriques

    A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) prevê uma inflação de 13,5 por cento em 1986 e estima que no ano seguinte o índice de preços ao consumidor baixe para 10,5%.

    O relatório da organização, divulgado em Paris, contraria as previsões do governo de Cavaco Silva, que apontam para uma meta de 12%, segundo a informação divulgada pelo Diário Popular.

    “Para 1987, aquela prestigiada organização internacional, de que o nosso país faz parte, aponta uma inflação de 10,5 por cento”, lê-se na edição do Popular de 30 de maio de 1986.

    A OCDE prevê para estes dois anos um crescimento económico mais sustentado, mas também uma deterioração da balança comercial.

    O aumento dos salários e das transferências públicas deverão, segundo as previsões, fomentar uma nítida subida do consumo privado, a par de um forte crescimento das importações, que em 1985 apenas registaram um acréscimo de três por cento.

    Quando às exportações, “progredirão somente cinco por cento em 1986 e 1987, contra 10,5 por cento no ano passado”.

  • 29 Mai 1986

    Reformas na função pública mais cedo e com mais dinheiro

    Por Ana Mendes HenriquesFoto António CotrimFoto António Cotrim

    O Correio da Manhã noticiava há 30 anos que a reforma na Função Pública ia ser possível aos 60 anos, com 20 por cento de bónus.

    “Qualquer funcionário da Administração Pública, com pelo menos 60 anos de idade e 20 anos de serviço, ou simplesmente 30 anos de serviço, vai poder aposentar-se com um acréscimo de 20% sobre a pensão mensal do Estado a que teria direito”, avançava o diário a 29 de maio de 1986.

    A informação fora obtida pelo jornal através de fonte governamental, que frisava “a necessidade de a Assembleia da República não voltar a complicar a intenção do Executivo” que, no caso, visava “reduzir drasticamente o excessivo peso do funcionalismo público”.

    A medida abrangia cerca de 40.000 trabalhadores já muito próximos da idade da reforma e que, segundo o CM, deixavam de ter de se apresentar a uma junta médica para “viabilização” da reforma.

    “O próprio Ministério das Finanças vai lançar uma grande campanha de informação sobre esta matéria, tentando convencer os funcionários públicos abrangidos a aceitarem as convidativas condições do Governo”, lê-se no jornal, consultado pela Lusa na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

  • 28 Mai 1986

    Mário Soares diz que Constituição não é texto sagrado

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    O Presidente da República, Mário Soares, afirmou há 30 anos que o texto fundamental não é sagrado, “no sentido de intocável”.

    A intervenção foi feita durante a sessão comemorativa do 10.º aniversário da Constituição da República, em maio de 1986, reportada pelo Diário de Notícias.

    Numa cerimónia promovida pelo Tribunal Constitucional, Soares referiu que a Constituição é “sempre susceptível de correcções e aperfeiçoamentos, desde que introduzidos no lugar e no tempo próprios”, ajustando-a à realidade social, económica e cultural.

    O jornal sublinhou no artigo que a cerimónia juntou pela primeira vez as cinco figuras de topo da hierarquia do Estado – Presidente da República, Presidente da Assembleia da República (Fernando Amaral), primeiro-ministro (Cavaco Silva) e os presidentes do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal Constitucional.

    “Marques Guedes (que preside a este último órgão), com efeito, esteve presente na cerimónia, ao contrário do que chegou a ser noticiado, devido ao conflito protocolar que vem mantendo sobre a precedência com o Supremo Tribunal de Justiça”, lê-se na edição do DN de 28 de maio de 1986.

    O texto prossegue com mais declarações de Mário Soares sobre a revisão da Constituição que se previa para o ano seguinte: “Trata-se, no fundo, de ir ajustando periodicamente o texto constitucional à realidade social, económica e cultural, que, como sabemos, é dinâmica e essencialmente mutável”.

    Soares acrescentou, ainda, que a Constituição deveria ser “um instrumento, tanto quanto possível, não polémico” e “um factor de estabilidade e segurança”.

  • 27 Mai 1986

    Choque de dois jactos militares causa a morte a major piloto

    Por Ana Mendes Henriques

    A colisão de dois aviões A-7 da Base Aérea de Monte Real causa a morte a um dos pilotos, que não conseguiu ejactar-se a tempo, e a uma mulher atingidas pelos destroços de um dos aparelhos.

    Os aviões faziam uma aproximação à base, por radar, em condições de “má visibilidade”, conta o Diário de Notícias de 27 de maio de 1986, citando um comunicado do Estado Maior da Força Aérea.

    Os dois pilotos acionaram os mecanismos de ejecção das aeronaves, mas apenas um conseguiu saltar do aparelho, uma vez que o outro terá ficado com o para quedas preso na cauda do avião, segundo o relato de testemunhas.

    “Este desastre eleva para 11 o número de mortos da Força Aérea, nos últimos oito anos, e foi o terceiro acidente este ano”, lê-se na antiga edição do DN, consultada pela Lusa na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    Os jornais deste dia relatam também uma crise na Seleção Portuguesa de Futebol, em jogo no Campeonato Mundial no México, em Saltillo, com os chamados “Infantes” a reclamarem melhores prémios.

    O Correio da Manhã refere-se mesmo a uma “greve” dos jogadores, que recusaram participar num jogo treino com os “Trigres”.

    A situação é descrita como “uma bronca monumental”, que levou inclusive o Presidente da República, Mário Soares, a fazer um apelo para a calma.

  • 26 Mai 1986

    Computador cresce mais do que a TV

    Por Ana Mendes HenriquesFoto João RelvasFoto João Relvas

    O número de computadores cresce nas casas portuguesas a um ritmo superior ao das televisões.

    “Os microcomputadores estão decididamente a invadir as casas portuguesas, sendo o seu ritmo de crescimento calculado em cerca de 30 por cento por ano até 1989, ou seja, superior ao esperado para a televisão nesse mesmo período de tempo”, noticia o Correio da Manhã em 26 de maio de 1986.

    O jornal cita dados da revista da Associação Portuguesa de Informática, dando conta de que em janeiro do ano anterior já existia em “um parque de microcomputadores estimado em 145 mil unidades, distribuídas pelos lares portugueses, contra 3.900 unidades instaladas em empresas e organizações diversas”.

    As estimativas apontam, então, para meio milhão de unidades em 1989.

    No mesmo dia, é notícia no Diário Popular um relatório da Alta Autoridade contra a Corrupção que revela “prejuízos injustificados” de 74.000 contos (370.000 euros) na Rodoviária Nacional.

    A Alta Autoridade conclui que os gestores da empresa devem ser responsabilizados pelos prejuízos causados pela cedência de operação do Hotel Eva, em Faro, integrado no património da transportadora.

    O vespertino anuncia que os gestores, que terminam o mandato no mês seguinte, não serão reconduzidos e que na base da decisão estará o inquérito em curso na Autoridade.

    A investigação aponta para irregularidades na gestão “da responsabilidade do engenheiro Feio Borges”.

    No relatório, sugere-se que o governo acione judicialmente os gestores responsáveis para que indemnizem a empresa naquele montante.

  • 25 Mai 1986

    Horizontes dos jovens têm nuvens negras

    Por Ana HenriquesFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    Perante 3.000 jovens universitários, o cardeal patriarca de Lisboa, António Ribeiro, afirma que as dificuldades no ensino devem ser um estímulo.

    A declaração é proferida no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, “transformado em templo” para acolher mais de 3.000 estudantes e professores na tradicional celebração da “Benção dos Finalistas” das universidades de Lisboa.

    O Correio da Manhã relata que o espaço foi pequeno para a iniciativa da Diocese de Lisboa, que em maio de 1986 regista “uma adesão ímpar”.

    “Há que lutar pela esperança, mesmo quando custa confiar e esperar”, foi a exortação que o cardeal dirigiu aos jovens, lê-se na edição do CM com 30 anos, consultada pela agência Lusa na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    No mesmo dia, o Diário de Notícias dá conta de “um aparato de bombeiros” na Avenida da Liberdade, por suspeita de sobreviventes nos escombros do incêndio da semana anterior.

    Depois de dois jovens terem reportado ouvir gritos e gemidos no local, as buscas acabam por salvar dois gatos, que “aparentemente havia sobrevivido ao braseiro”.

    A Polícia Judiciária continua a investigar as causas do incêndio numa pensão clandestina, que provocou oito vítimas mortais.

  • 24 Mai 1986

    Soares e Cavaco não acertam o passo com Pequim

    Por Ana Mendes HenriquesCerimónia de posse de Pinto Machado como Governador de Macau. Foto António CotrimCerimónia de posse de Pinto Machado como Governador de Macau. Foto António Cotrim

    A 24 de maio de 1986, o Expresso noticia que Mário Soares pensa nomear um assessor diplomático para funcionar junto do governador de Macau, Pinto Machado, para “compensar o facto de Cavaco Silva não lhe fornecer informações suficientes”.

    Em causa estão as negociações com a China sobre o futuro de Macau, à data território sob administração portuguesa.

    O semanário cita uma fonte de Belém para revelar que Cavaco Silva, primeiro-ministro, se limitaria a participar a Soares, Presidente da República, questões de cariz administrativo, como a indicação do embaixador Rui Medina para conduzir as negociações, sem fornecer mais pormenores.

    O Expresso cita também “um informador governamental” para dizer que o primeiro-ministro já manifestara ao Presidente da República “a maior preocupação pela composição do novo executivo macaense”.

    Isto, dada “a necessidade de nomear para este órgão pessoas que estivessem em condições de apoiar os negociadores” do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

    “Na opinião do nosso informador, Mário Soares limitara-se a seguir um critério de distribuição de favores para pessoas que trabalham no MASP (Movimento de Apoio Soares à Presidência) e que não se encontram vocacionadas para as questões do território”, escreve o jornal.

  • 23 Mai 1986

    Em 1988 Portugal terá 5% de inflação

    Por Ana Mendes HenriquesFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    O Governo estima que em 1988, a taxa de inflação será de 5%, com juros abaixo dos 10%.

    O ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, apresenta os números durante a tomada de posse do governador do Banco de Portugal, Tavares Moreira.

    Miguel Cadilhe avança, então, que em finais de 1988 as taxas de juro não ultrapassarão a casa dos 10 por cento, podendo “muito provavelmente” ficar nos 6 a 7 por cento para a remuneração da poupança e 8 a 10 por cento para o custo do crédito.

    Esta é uma das notícias em destaque na edição do Correio da Manhã de 23 de maio de 1986, a par das comemorações do 10 de junho em Évora e do incêndio que, na véspera, deflagrara num edifício da Avenida da Liberdade, em Lisboa, onde funcionava uma pensão clandestina.

    “Sete mortos e uma dezena de feridos, quatro dos quais ainda internados em estado grave, era o fatídico balanço feito ontem, no que toca a prejuízos do pavoroso incêndio que deflagrou ao princípio da madrugada num velho prédio”, lê-se na antiga edição do Diário de Notícias.

    Em Évora, preparam-se as comemorações do 10 de junho, já com lotação esgotada.

    “Mais Camões e menos discursos”, titula o Diário Popular, reportando múltiplas atividades culturais e um orçamento reduzido (15.000 contos ou 75.000 euros), estando a organização a cargo da arquiteta Helena Roseta.

  • 22 Mai 1986

    Fogo na Baixa

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    “Iluminou-se a velha baixa lisboeta com o clarão pavoroso de labaredas devorando um velho prédio da Avenida da Liberdade”, assim começa a descrição que o Diário Popular faz de um incêndio que provoca oito mortos, sete feridos e 66 desalojados, em Lisboa.

    Com o subtítulo “Vidas Queimadas”, o vespertino prossegue o relato da tragédia contando que tudo aconteceu de madrugada.

    “Os silvos estridentes das sirenes da maioria das corporações de bombeiros da capital eram abafados pelos gritos horrorizados de uma centena de pessoas – gente que fugia das chamas, que procurava inutilmente salvar parcos haveres”, lê-se na edição de 22 de maio.

    O diário destaca o trabalho do repórter naquela noite da seguinte forma: “Por entre esse inferno na cidade, o jornalista registou a tragédia, a par e passo: Humberto Vasconcelos, lesto como os socorros, viu, ouviu, escreveu – e fotografou – esta nova tragédia que se abate sobre a baixa lisboeta”.

    No mesmo dia, o também vespertino Diário de Lisboa consegue igualmente publicar a notícia, que viria a ser amplamente divulgada pelos restantes jornais no dia seguinte, com mais pormenores.

  • 21 Mai 1986

    Praias do Estoril vão ficar limpas

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    A despoluição das praias da linha é anunciada com a adjudicação da primeira fase de um sistema de saneamento orçado em um milhão e duzentos mil contos (seis milhões de euros).

    Na ocasião, o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Pimenta, diz que as obras ficarão concluídas em 1990, com um custo total de cinco milhões e meio de contos (mais de 25 milhões de euros).

    Projetam-se três vetores principais, a defesa das praias, as cheias e a gestão do espaço, conforme reporta o Diário de Notícias na edição de há 30 anos, guardada na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    A obra vai beneficiar os concelhos de Cascais, de Sintra, da Amadora e de Oeiras, respondendo às exigências da Comunidade Económica Europeia (CEE), à qual Portugal acaba de aderir.

    Para a primeira fase do empreendimento é então estabelecido um calendário de 920 dias.

    O projecto apresenta-se como solução para a crónica poluição daquelas praias, devido à falta de tratamento de esgotos de uma forma adequada.

  • 20 Mai 1986

    Armas e caras descobertas em assalto a supermercado

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    Mais uma ação reivindicada pelas FP – 25 enche as manchetes dos jornais, desta vez o assalto a um supermercado, em Cascais, de onde terão levado 20.000 a 30.000 contos (100.00 a 150.000 euros).

    O Diário de Notícias destaque que o assalto foi perpetrado em pleno dia, por cinco homens armados com G3.

    “Ostentando perfeito à-vontade e invulgar sangue-frio, os autores da ocorrência reivindicaram o roubo em nome das FP-25, em telefonema posteriormente feito para a NP”, a agência Notícias de Portugal, que existiu antes da Lusa.

    O DN relata que tudo aconteceu com bastante rapidez, “não obstante o difícil percurso que os assaltantes tiveram de efectuar”.

    Segue-se a descrição: “penetraram no centro comercial situado num primeiro andar, daí atingindo o rés-do-chão, onde se encontram os escritórios e onde surpreenderam o pessoal da segurança com os sacos do dinheiro”.

    O Correio da Manhã publica igualmente a notícia, mas chama também para capa uma intervenção do cardeal patriarca de Lisboa, António Ribeiro, sobre as escolas portuguesas que, na opinião do prelado, “deseducam mais do que ensinam”.

    “Falta de seriedade, incompetência, corrupção, droga, insegurança, ociosidade e facciosismo”, tudo isto, segundo o cardeal, os jovens encontram nas escolas.

    Numa carta de 78 páginas publicada no domingo de Pentecostes, António Ribeiro, considera que a escola é pior do que a sociedade.

  • 19 Mai 1986

    Portugal na mira de grupo terrorista financiado pela Líbia

    Por Ana Mendes Henriques

    A 19 de maio de 1986 era notícia nos jornais nacionais a possibilidade de atentados terroristas em Portugal e um ataque das FP-25 reivindicado por telegrama para a ANOP – Agência Noticiosa Portuguesa, antecessora da Lusa.

    O Correio da Manhã noticiava que Portugal também estava na mira de terroristas financiados pela Líbia, nomeadamente no caso de uma organização designada “Chamada de Jesus Cristo”.

    Os receios surgiam na sequência da detenção do líder de “um grupo terrorista financiado pela Líbia e baseado em Espanha”, do qual fazia parte um português já detido, que afirmou estarem previstos ataques de guerrilha em Portugal.

    A fonte da notícia, também divulgada pelo Diário de Notícias, é o jornal espanhol El País, que cita fontes policiais.

    Segundo o diário madrileno, o encarregado de negócios líbio na capital espanhola, Ahmed Mohammed, pagou ao grupo “Chamada de Jesus Cristo” a quantia de 70.000 dólares (64.169 euros) para a concretização de ataques contra interesses judeus e norte-americanos em Espanha e Portugal.

    No mesmo dia, o DN reportava um ataque com rajadas de metralhadora contra uma base da NATO, em Oeiras durante a noite de sábado para domingo.

    O facto viria a ser confirmado pela Direcção Central de Combate ao Banditismo.

    Na tarde de sábado, um alegado porta-voz das FP – 25 (Forças Populares 25 de Abril) havia reivindicado o ataque, em telegrama enviado para a ANOP, dizendo que o ato constituía “uma retaliação pela ajuda e cumplicidade da NATO no raid norte-americano contra a Líbia”.

  • 18 Mai 1986

    Futuro da moda desceu à rua

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    O Diário de Notícias ilustra a capa com o desfile de moda das “Manobras de Maio”, ainda a dar os primeiros passos, sublinhando que nem os promotores esperavam o sucesso da iniciativa, que levou milhares de jovens à Rua do Século, em Lisboa.

    “Na passarela montada no largo, estilistas de todos os gostos mostraram como veem a moda e, sobretudo, o seu futuro”, escreve o DN a 18 de maio de 1986.

    O jornal destaca a vontade de romper com as linhais mais convencionais, afirmando que cabe aos jovens a utilização do vestuário como forma de expressão.

    Na mesma edição, uma notícia que se repetirá pelas décadas seguintes: “Municípios não aceitam mais competências sem meios financeiros”.

    Vem a propósito do II Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), realizado em Montechoro, Albufeira.

    Cerca de 900 delegados, representantes de 290 câmaras municipais, aprovaram um documento em que declaravam não aceitar mais competências da Administração Central sem verem assegurados os respetivos meios técnico-financeiros de execução.

    O congresso reconduziu ainda o social-democrata Torres Pereira como presidente da ANMP.

  • 17 Mai 1986

    Parlamento condena agressão a deputado

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    A Assembleia da República condena, de forma unânime, a agressão de que foi vítima o deputado social-democrata Vargas Bulcão, na sequência da votação que recusou a criação do concelho de Vizela.

    “O desencanto que a decisão causou aos vizelenses que assistiram aos debates deu origem a alguns excessos no exterior do Palácio de São Bento”, relata a edição do Diário de Notícias a 17 de maio de 1986.

    As forças de segurança são acusadas de passividade, com o deputado democrata-cristão Gomes de Pinho a pôr em causa o papel da PSP na garantia de segurança dos parlamentares.

    Em Vizela, continua a contestação com vários jornais a darem conta do hastear de uma bandeira americana, num mastro com mais de dez metros de altura, segundo o semanário Expresso.

    “Não queremos ser portugueses”, gritam os habitantes de Vizela, depois de gorada a pretensão de elevação a concelho.

    No mesmo dia, é notícia um concerto de James Brown, em Cascais, que o Correio da Manhã descreve como algo memorável, apesar das más condições da sala, especialmente ao nível do som.

    “Living in America” abre e fecha um espetáculo, a que não faltaria “o já histórico Sex Machine”.

    Em Cannes, estreia o filme “The Mission”, com Robert de Niro, “numa expectativa sem precedentes”, segundo o enviado especial do Expresso Augusto M. Seabra.

    “De Niro contra o Marquês de Pombal” é o título da crónica que enquadra o processo de produção de “A Missão”, no título em português, película em que o ator norte-americano interpreta um mercador de escravos do século XVIII que mais tarde se junta aos jesuítas.

  • 16 Mai 1986

    Guimarães quer distrito se Vizela for concelho

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Francisco NevesFoto Francisco Neves

    Concentrada no Largo do Toural, a população de Guimarães exigia o estatuto de distrito se a localidade de Vizela fosse elevada a concelho, um protesto transformado em celebração pelos vimaranenses quando foi conhecido o resultado da votação parlamentar.

    “Passava da uma da madrugada quando, em Guimarães, estrelejaram foguetes. Em Lisboa, os deputados contrariaram as pretensões dos vizelenses e rejeitaram a criação de um concelho que desmembraria o território de Guimarães”, escreve o Diário Popular a 16 de maio de 1986.

    Entretanto, em Vizela, vivia-se o “reverso da medalha”, relata o vespertino.

    “Regressados da capital (onde agrediram um deputado do PSD), os vizelenses montaram uma forca no largo principal e deram um grito simbólico de independência, hasteando uma bandeira… inglesa”, lê-se na edição do Popular que agora completa 30 anos.

    O debate parlamentar sobre Vizela é descrito pelo jornal como “o teatro do absurdo”, para dizer que nem defensores, nem opositores deixaram mais clara esta questão.

    O Diário de Notícias noticiou o caso, mas sem resultados, uma vez que – como explica – à hora de fecho da edição ainda não se tinha realizado a votação, já que “a sessão da noite” se iniciou depois das 22:00 e o debate se prolongou “pela madrugada”.

  • 15 Mai 1986

    Guimarães em estado de sítio

    Por Ana Mendes HenriquesHabitantes de Vizela concentram-se em frente à Assembleia da República em Lisboa. Foto Manuel de MouraHabitantes de Vizela concentram-se em frente à Assembleia da República em Lisboa. Foto Manuel de Moura

    “Ninguém pode entrar ou sair de Guimarães depois da manifestação de ontem à noite, as ruas estão barricadas com carros do lixo, os cidadãos organizam piquetes, o comércio está a fechar, as repartições públicas também”.

    Assim noticia o Diário Popular a situação que se vive em torno do chamado “Caso Vizela”, no dia em que o parlamento discute se a localidade do concelho de Guimarães será ou não concelho.

    “Os vimaranenses, através do presidente da câmara, já avisaram os deputados: se Vizela passar a concelho, a desordem que reinará nas ruas, depressa chegará a S. Bento”, prossegue o repórter do vespertino.

    Enquanto isto, os habitantes de Vizela concentram-se em frente à Assembleia da República. Em Guimarães, erguem-se barricadas.

    “A área urbana de Guimarães está completamente paralisada e ninguém lá pode entrar porque há barricadas nos acessos, feitas com carros de recolha do lixo, aos quais foram esvaziados os pneus”, conta o jornalista Jorge Ferreira.

    No texto, é também descrita a existência de piquetes de cidadãos a percorrer as repartições públicas que “insistem em funcionar”, aconselhando o encerramento.

    Parte do comércio tem as portas abertas, mas os estabelecimentos vão fechando a pouco e pouco. “O ambiente é de grande tensão”.

  • 15 Mai 1986

    “Invasão” de vizelenses causa sessão “turbulenta” na Assembleia da República  

    Por Joana CarneiroA elevação de Vizela a concelho acabaria por acontecer em 1998 . Foto Francisco NevesA elevação de Vizela a concelho acabaria por acontecer em 1998 . Foto Francisco Neves

    A 15 de maio de 1986, as gentes de Vizela “invadiram” Lisboa com a esperança de verem a vila elevada a concelho e acabaram por ser protagonistas daquela que foi uma das mais “turbulentas” sessões da Assembleia da República.

    A pretensão de Vizela, que à data pertencia ao concelho de Guimarães e só viu reconhecida a “independência” em 1999, havia já sido chumbada no plenário de 18 de janeiro de 1983 pelo PSD e CDS (com 113 votos contra e 102 votos do PS, PCP, e Partido Popular Monárquico), dando origem a “escaramuças” nas galerias da sala de plenário e até à agressão de deputados, segundo relata a edição de 15 de Maio do Diário de Lisboa de 1986.

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  • 14 Mai 1986

    Diagnóstico revelou leucemia em 299 vítimas de Chernobyl

    Por Ana Mendes Henriques

    Gorbachev quebra finalmente o silêncio para se dirigir ao povo soviético com uma declaração de 25 minutos sobre o desastre nuclear de Chernobyl, quando são diagnosticadas 229 pessoas com leucemia.

    “Uma tragédia abateu-se sobre nós e ainda não é hora de descansar”, declara o líder soviético numa comunicação televisiva.

    É nesse momento que revela o diagnóstico das 229 pessoas hospitalizadas em consequência do acidente, portadoras de diferentes níveis de leucemia.

    Garante, no entanto, que graças às “medidas eficazes” tomadas, o pior já teria passado.

    “As consequências mais graves foram evitadas. Claro que o fim ainda não chegou e ainda não é hora de descansar”, declara.

    O Chefe de Estado soviético anuncia também, na ocasião, segundo o Diário de Notícias daquela data, que a União Soviética decidira prolongar a moratória unilateral sobre os ensaios nucleares, até 06 de agosto, data do 40.º aniversário da explosão da bomba de Hiroshima.

    Convida ainda o Presidente dos EUA, Ronald Reagan, para um encontro “sem demoras” na capital de qualquer país europeu que se prontifique a recebê-los ou, por exemplo, em Hiroshima, para debater “uma proibição permanente”.

    Gorbachev manifesta-se convicto de que o acidente nuclear de Chernobyl mostrara de novo “o abismo que se abrirá no caso de uma guerra nuclear se abater sobre a Humanidade”.

  • 13 Mai 1986

    Estaleiros navais abrem falência

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Inácio RosaFoto Inácio Rosa

    Em Portugal agudiza-se a crise na construção naval e em Chernobyl continuam a morrer pessoas em consequência da tragédia nuclear, o que leva a Comunidade Económica Europeia (CEE) a suspender as importações de produtos frescos do leste europeu.

    O Diário de Notícias de 13 de maio de 1986 noticia que os trabalhadores da Parry and Son se reúnem em plenário para apreciar a decisão de requerer a falência da empresa, aprovada em assembleia geral de acionistas.

    “Não se pode atirar assim para a rua centenas de trabalhadores, ainda por cima a dever-lhes 15 meses de salário”, denunciava um elemento da Comissão de Trabalhadores, António Germano.

    O plenário “irá tomar medidas, se calhar, drásticas”, lê-se na antiga edição do DN.

    Os acionistas (IPE- Investimentos e Participações do Estado e a Lisnave) decidiram declarar falência dois anos depois de o governo ter “inviabilizado uma proposta” no sentido da integração da empresa no processo de viabilização da Lisnave, que manifestara disponibilidade para absorver a Parry and Son.

    O jornal noticiava também neste dia a morte de mais seis pessoas em consequência das queimaduras sofridas na explosão de um reator nuclear em Chernobyl, na Ucrânia.

    As notícias vindas do leste europeu levam então a Comunidade Económica Europeia a suspender a importação de alimentos frescos de países como a Bulgária, a Hungria, Polónia, Roménia, Checoslováquia, União Soviética e Jugoslávia.

  • 12 Mai 1986

    Portugal estuda central nuclear

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    Ainda no rescaldo do desastre de Chernobyl, Cavaco Silva anuncia, em Londres, a intenção de instalar uma central nuclear em Portugal.

    A revelação é feita pelo então primeiro-ministro aos microfones da BBC, durante uma deslocação à capital britânica para as comemorações dos 600 anos do Tratado de Windsor, e replicada nos jornais portugueses.

    “Portugal está a estudar a possibilidade de possuir, no futuro próximo, uma central nuclear, anunciou ontem, em Londres, o primeiro-ministro, Cavaco Silva”, relata a edição de 12 de maio de 1986 do Correio da Manhã.

    Entrevistado no programa “It´s Our World”, o chefe do governo português diz que no estudo serão tomadas em conta todas as questões técnicas, incluindo o sucedido em Chernobyl (norte da Ucrânia), onde continuavam a surgir vítimas da explosão numa central nuclear.

    Na mesma entrevista, Cavaco aborda a questão de Timor para manifestar esperança de “num futuro próximo” ser dado ao povo timorense o direito de se expressar livremente sobre a autodeterminação ou a integração na Indonésia, o que só acontecerá em finais dos anos 90, quando os timorenses votam esmagadoramente pela independência.

    Macau, à data território português, é outro ponto sensível abordado na entrevista, com Cavaco a anunciar conversações “ em breve”sobre o futuro do território com as autoridades chinesas.

  • 11 Mai 1986

    Já temos museu computorizado

    Por Ana Mendes Henriques

    O Museu da Cruz Vermelha torna-se o primeiro dotado de computador em Portugal, “numa iniciativa única no país”, conforme reporta o Correio da Manhã de 11 de maio de 1986.

    O computador, instalado à porta do museu, foi inaugurado em dia de comemorações, por ocasião do 123.º aniversário da Cruz Vermelha Internacional.

    “Por meio deste sistema, todos os objectos estão numerados e classificados quanto à característica e origem”, lê-se na edição de há 30 anos, conservada na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    As celebrações foram presididas por Mário Soares, enquanto Chefe de Estado, servindo também para entregar condecorações e diplomas a enfermeiras.

    O trabalho é ilustrado com fotografias de algumas das peças expostas naquele espaço, entre as quais a maca rodada que transportou Sidónio Pais.

    Construída em 1898, “importou em 300 mil reis (300$00)” e destinava-se ao transporte se todas as classes sociais.

    Nesse mesmo dia, era notícia no Diário Popular o casamento do escritor argentino Jorge Luís Borges, aos 87 anos, com a secretária, Maria Kodama.

    O diário dá a notícia através da agência Anop e publica uma foto do casal quando passou por Lisboa, em 1984.

  • 10 Mai 1986

    Eurico de Melo reconhece abusos da PSP denunciados pelo Provedor de Justiça

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    O Expresso revela um despacho do ministro da Administração Interna, Eurico de Melo, em que este reconhece “a gravidade dos factos” recentemente denunciados pelo Provedor de Justiça sobre abusos policiais.

    Porém, o governante defende que estes não refletem a atitude, nem o comportamento que em regra é assumido pelos agentes da Polícia de Segurança Pública.

    Não é referido o contexto em que surgem estas denúncias, mas ocorrem depois de fortes manifestações de trabalhadores, nomeadamente na Marinha Grande.

    O despacho, a que o Expresso teve acesso, começa por mandar remeter ao Comando Geral da PSP uma cópia do relatório “com vista à rigorosa consideração dos factos”.

    Sugerem-se, em seguida, “ações de formação, aperfeiçoamento e reciclagem” dos agentes, aconselhando que se lhes “ministrem conhecimentos” no que se refere à possibilidade de detenções e às situações em que se pode exigir a identificação a um cidadão”.

    O despacho estabelece também que deve ser “dedicada especial atenção” ao esclarecimento e delimitação das situações em que o recurso a meios de coação justifica os atos praticados.

    O documento contém ainda uma ordem para se ensine aos agentes “as circunstâncias em que podem fazer uso das armas”.

    Quanto ao resto, escreve o Expresso, “tudo indica que a reação à denúncia das graves arbitrariedades policiais deverá ficar por aqui”.

  • 09 Mai 1986

    Acordo no parlamento para escolaridade obrigatória de nove anos

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Alfredo CunhaFoto Alfredo Cunha

    Há precisamente 30 anos, todos os partidos com assento parlamentar concordavam em aumentar a escolaridade obrigatória de seis para nove anos.

    As diversas forças políticas formalizavam a intenção através de projetos de lei de bases do sistema educativo.

    A Comissão de Educação, Ciência e Cultura admitia como bons os projetos do PSD, do PS, do PRD, do PCP e do MDP, considerando-os “uma boa base de trabalho” e sugerindo que todos os textos fossem votados favoravelmente na generalidade para regressarem à especialidade e se elaborar “um texto síntese”.

    De acordo com o Diário de Notícias da época, todos os partidos estavam de acordo também sobre a necessidade de serem adotadas medidas de ação social para que o novo ensino obrigatório fosse cumprido por todos os jovens.

    Outro ponto comum aos projetos das diferentes bancadas parlamentares, era a existência de duas vias de ensino após a escolaridade obrigatória, uma profissional e outra académica.

    Na altura, o PSD, o PS e o PRD (Partido Renovador Democrático) concordavam com a manutenção do 12.º ano, enquanto o PCP pretendia extingui-lo e o MDP (Movimento Democrático Português) pretendia integra-lo no ano zero das universidades.

  • 08 Mai 1986

    Minas da Panasqueira propõe 500 despedimentos

    Por Ana Mendes HenriquesFoto João RelvasFoto João Relvas

    A multinacional concessionária das Minas da Panasqueira, na Beira Baixa, apresentou aos trabalhadores uma proposta de Acordo de Empresa que implicava a redução de 38 por cento dos efetivos, ou seja, 523 mineiros.

    O documento, noticiado pelo Diário de Lisboa a 08 de maio de 1986, fora entregue no início do mês.

    Seguiu-se um plenário que rejeitou a intenção da administração e no qual ficou decidido que os mineiros só aceitariam discutir tal proposta se fosse afastada a hipótese de despedimentos.

    No mesmo dia, era notícia o funeral da atriz Laura Alves, no qual se fizeram representar o Presidente da República, Mário Soares, e o governo de Cavaco Silva.

    O Diário de Notícias descreve o acontecimento como “impressionante”, referindo-se a Laura Alves como uma atriz “justamente considerada uma das maiores figuras da cena portuguesa dos últimos 50 anos”.

    São descritos os pormenores da missa de corpo presente e o ambiente de ovação no Largo da Estrela, seguido da despedida no cemitério dos Prazeres, em Lisboa, com “centenas de lenços brancos”.

  • 07 Mai 1986

    Vidreiros ocupam bancos

    Por Ana Mendes HenriquesTrabalhadores da fábrica vidreira Ivima ocupam a estação de caminhos-de-ferro da Marinha GrandeTrabalhadores da fábrica vidreira Ivima ocupam a estação de caminhos-de-ferro da Marinha Grande

    Os vidreiros da Marinha Grande ocuparam várias agências bancárias, no âmbito de uma jornada de protesto contra a decisão do governo de cortar financiamento ao setor.

    Segundo o Diário de Lisboa de 07 de maio de 1986, só na Marinha Grande e em Sines havia 4.000 postos de trabalho ameaçados.

    “A Petroquímica de Sines, uma das principais indústrias nacionais, e a cristalaria da Marinha Grande, composta por cinco empresas, foram de uma assentada postas em causa pelo governo, que anunciou pretender extinguir a primeira, vendendo o equipamento para a sucata, e cortar financiamento à segunda”, escrevia o vespertino há 30 anos.

    No dia seguinte, o Diário de Notícias dá também a notícia, acrescentando que durante a madrugada se deslocaram para a vila diversos contingentes da GNR e da PSP, sem que desta vez se registassem incidentes.

    A iniciativa dos operários levou ao encerramento, durante todo o dia, dos balcões do Banco Português do Atlântico, da Caixa Geral de Depósitos, do Banco Espírito Santo e do Banco Nacional Ultramarino.

    Os vidreiros pretenderam, desta forma, chamar a atenção para a situação das cinco unidades fabris visadas pelo governo e que, segundo fonte sindical citada pelo DN, se traduzia no risco de desemprego para 2.500 trabalhadores.

    Os operários cortaram também a circulação na estrada que liga a Marinha Grande a Leiria, uma ação que culminaria pelas 18:30 com a intervenção da PSP.

  • 06 Mai 1986

    Admitem-se 24 mortos na tragédia da Póvoa

    Por Ana Mendes HenriquesFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    O choque frontal de dois comboios na Póvoa de Santa Iria, com dezenas de vítimas mortais e cerca de 80 feridos, enche as páginas dos jornais a 06 de maio de 1986.

    Era o segundo desastre o género em oito meses, após a tragédia de Alcafache.

    No dia seguinte ao acidente, o Diário de Notícias admitia a morte de 24 pessoas, relatando que ao início da madrugada estavam identificados 15 corpos.

    Prometiam-se conclusões provisórias sobre as causas do acidente em 48 horas, enquanto a lista de feridos contava com 82 pessoas, oito das quais em estado grave.

    As fotos que ilustram o caso mostram carruagens destruídas e o socorro às vítimas. Nas legendas lê-se que a tragédia aconteceu em poucos segundos:

    “Da amálgama de destroços, os bombeiros retiraram mais de cem pessoas entre mortos e feridos, perante a curiosidade e a consternação de centenas de populares que acorreram à estação da Póvoa de Santa Iria”, lê-se na edição do DN de há 30 anos, disponível na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    O comboio rápido da Beira Baixa colidiu, a 110 quilómetros à hora, com um transvia que manobrava a linha naquela localidade.

    O maquinista saiu ileso e apontou uma falha técnica, enquanto testemunhas recordavam “um estrondo tremendo” que abalou a Póvoa no momento da colisão, à hora de almoço.

    Mário Soares deslocou-se ao local enquanto Presidente da República, manifestando-se “fortemente impressionado com a tragédia”.

    O Correio da Manhã citava Mário Soares e Cavaco Silva, primeiro-ministro, para dizer “O país está de luto”.

  • 05 Mai 1986

    Jóias da Coroa Portuguesa expostas 76 anos depois

    Por Ana Mendes HenriquesFoto João Paulo TrindadeFoto João Paulo Trindade

    A 05 de maio de 1986, as joias da coroa portuguesa eram expostas ao público pela primeira vez desde 1910, no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa.

    A coroa e o cetro de Dom João VI, lado a lado com uma gargantilha e um par de botões de Dona Carlota Joaquina foram algumas das preciosidades expostas, 76 anos depois da instauração da República em Portugal.

    A edição do Diário de Notícias nesse dia descreve os objetos e materiais, referindo que os portugueses vão poder apreciar “as admiráveis joias da coroa”, executadas com ouro e pedras preciosas do Brasil e usadas pelos monarcas.

    A exposição, patente até 04 de junho, foi inaugurada pelos presidentes de Portugal, Mário Soares, e do Brasil, José Sarney, que se encontrava em Lisboa em visita de Estado.

    O Diário de Lisboa destacava o encontro entre os dois chefes de Estado como uma oportunidade para se realizar “finalmente o diálogo em democracia”.

    O Brasil iniciara dois anos antes o processo de transição para um regime democrático, após 20 anos de ditadura.

  • 04 Mai 1986

    Vitória da canção belga no Eurofestival de Bergen

    Por Ana Mendes HenriquesDora a representante portuguesa no Eurofestival. Foto Acácio FrancoDora a representante portuguesa no Eurofestival. Foto Acácio Franco

    A canção da Bélgica vencia o Eurofestival, em Bergen, onde a portuguesa Dora se ficava pelo 14.º lugar, mas merecia a simpatia da imprensa nacional.

    Dora foi “uma presença agradável pela maneira como cantou”, escrevia o Diário de Notícias, referindo de seguida que a belga Sandra Kim deu “uma força muito especial” à canção que interpretou: “J´aime la Vie” (vencedora do festival).

    “Com uma composição que pode ser considerada um grito de amor à vida, e de alegria, a Bélgica venceu ontem o 31.º Festival da Canção da Eurovisão, realizado na cidade norueguesa de Bergen”, lê-se na edição do DN de 04 de maio de 1986.

    O diário português considerava, então, que Dora ficou “um tanto prejudicada pelo vestuário inspirado num certo regionalismo nazareno, que não resultou”.

  • 03 Mai 1986

    Americanos afirmam financiar UGT e CDS

    Por Ana Mendes Henriques

    O financiamento norte-americano a organizações conservadoras ou em oposição ao PCP, num caso que envolvia a UGT e o CDS, vem a lume em Portugal através do semanário Expresso.

    O jornal revela que, segundo documentos consultados em Washington, a Administração Reagan terá canalizado para Portugal quase um milhão de dólares (cerca 150.000 contos à época), com o objetivo de apoiar “organizações conservadoras ou em oposição ao PCP”.

    As verbas terão sido distribuídas através de um Fundo Nacional para a Democracia (N.E.D, na sigla em inglês), estabelecido em 1983 pelo Congresso americano.

    Entre os beneficiários contava-se a União Geral de Trabalhadores (UGT), afirmava o Expresso, fazendo referência a um caso já noticiado pelo jornal francês “Libération” em novembro, no âmbito dos apoios financeiros de Washington a organizações sindicais de outros países.

    Estamos em 3 de maio de 1986 e o semanário luso revela igualmente que beneficiaram dessas verbas o CDS e uma organização próxima do partido, a Associação para a Cooperação e Desenvolvimento Social (ACDS).

    A “ajuda monetária”, como lhe chama o jornal, foi confirmada pelo secretário-geral da UGT, Torres Couto, mas os valores em causa não.

    A informação foi também confirmada por um dos responsáveis da ACDS, Gomes de Pinho, mas desmentida por diversas fontes centristas no que ao CDS dizia respeito.

  • 02 Mai 1986

    Um milhar de prisões no Chile

    Por Ana Mendes HenriquesAugusto PinochetAugusto Pinochet

    O Diário Popular registava há 30 anos as comemorações do 1.º de maio com telexes das agências antecessoras da Lusa, noticiando detenções no Chile, tanques nas ruas de Varsóvia, e uma greve de trabalhadores negros na África do Sul.

    Em Portugal, as duas centrais sindicais assinalavam a efeméride em campos opostos: a CGTP na Alameda e a UGT no Parque Eduardo VII.

    Enquanto a CGTP, então liderada por Armando Teixeira da Silva, lutava pelas 40 horas semanais de trabalho, a UGT, de Torres Couto, elogiava o parlamento e criticava o governo.

    “Uma festa que não pôde ser comemorada nem no Chile, nem na Polónia, onde o 1.º de Maio foi, respetivamente, assinalado por mortes e prisões e tanques nas ruas”, lê-se na edição de 2 de maio de 1986 consultada pela agência Lusa na Hemeroteca Municipal de Lisboa.

    No Chile de Pinochet, as “comemorações” saldaram-se por seis mortos e quase mil pessoas presas e na Polónia “foi precisa coragem para celebrar o 1.º de Maio”, escreve o jornalista Paulo David, ao noticiar o desfile de carros de combate pelas ruas de Varsóvia em missão de patrulhamento.

    Prossegue o relato dando conta de uma greve de grandes proporções na África do Sul, desencadeada por trabalhadores negros, numa época em que ainda vigorava o regime de segregação racial.

    No Japão, o dia foi assinalado com “uma jornada sindical” em que terão participado quatro milhões de pessoas.

    “Foi o que soubemos e no qual se inclui informações da NP e da Anop”, rematava o redator do Diário Popular.

  • 01 Mai 1986

    Desastre nuclear em Chernobyl pode ter atingido outro reator

    Por Ana Mendes Henriques

    A 1 de maio de 1986 comemorava-se o centenário do Dia do Trabalhador, mas o recente desastre nuclear de Chernobyl impunha-se na imprensa portuguesa, com o Diário de Notícias a avançar que teria sido atingido mais um reator.

    Técnicos norte-americanos tentaram reconstruir graficamente as causas do acidente que provocou a libertação de radiações, apontando falhas no sistema de manutenção e de arrefecimento, e é desta forma que o DN ilustra a notícia.

    “O desastre nuclear na central soviética parece ter atingido um segundo reator”, segundo revelaram ontem fontes norte-americanas dos serviços de informação, baseadas em imagens recolhidas por satélites, que detectaram um novo foco de calor, aparentemente resultante do incêndio”, lê-se na primeira página do jornal.

    Enquanto o governo soviético desmentia notícias publicadas no ocidente sobre um dos mais trágicos acidentes da história recente, o número de vítimas aumentava a cada dia.

    A 1 de maio de 1986, os dados oficiais do regime soviético apontavam para duas mortes e 197 pessoas internadas, 49 das quais teriam recebido alta após exame médico.

    No entanto, uma fonte soviética citada por estudantes franceses que tinham estado em Kiev falava de 500 mortes na catástrofe. Ainda hoje se desconhece ao certo o número de vítimas, dada a perpetuação de doenças como o cancro nas populações expostas aos agentes nocivos.

    O acidente, ocorrido a 26 abril, repercutiu-se nas bolsas de valores internacionais. Em Nova Iorque, por exemplo, baixou a cotação das ações das empresas ligadas a centrais nucleares, enquanto em Chicago subiram as cotações dos cereais, na expectativa de que a então URSS aumentasse as importações deste bem alimentar.

  • 30 Abr 1986

    Moscovo pede ajuda ao Ocidente para controlar Chernobyl

    Por Luís Andrade SáFoto Sergei Supinsky/EPAFoto Sergei Supinsky/EPA

    Numa atitude sem precedentes, as autoridades soviéticas pediram ajuda internacional para debelar e controlar os feitos do acidente na central nuclear de Chernobyl, ocorrido no dia 26 de abril.

    O governo de Moscovo admitiu a existência de vítimas mortais, em resultado desastre naquela central ucraniana, localizada a 30 quilómetros de Kiev.

    Cientistas ocidentais creem que a tragédia resultou da fusão do combustível nuclear, excluindo a hipótese de se ter dado uma explosão no complexo.

    Segundo a CIA, a central de Chernobyl era usada para processar plutónio destinado a ramas nucleares.

    As radiações, que estão a afetar o norte da Europa, ainda não chegaram a Portugal.

  • 29 Abr 1986

    URSS reconhece desastre nuclear de Chernobyl

    Por Luís Andrade SáFoto ITAR-TASSFoto ITAR-TASS

    A União Soviética admitiu hoje a existência de um desastre ocorrido numa central nuclear ucraniana, a norte de Kiev, cujas partículas radioativas já chegaram à Escandinávia.

    Nos dois últimos dias, notícias do acidente circularam no ocidente – após medições finlandesas terem registado níveis de radioatividade até seis vezes superiores ao normal, mas Moscovo não tinha admitido o acidente.

    Hoje, a agência oficial soviética Tass, confirmou a ocorrência do desastre naquela central a 30 quilómetros de Kiev e informou que estava a ser prestada assistência às populações da região.

  • 28 Abr 1986

    Benfica vence Taça de Portugal e salva temporada

    Por Luís Andrade SáFoto Acácio FrancoFoto Acácio Franco

    O Benfica alcançou a sua 20ª Vitória em taças de Portugal, ao bater o Belenenses por 2-0, no tradicional cenário do Jamor.

    Os golos encarnados foram marcados, em cada parte, por Nunes e Águas, e, no final, o capitão da equipa, Manuel Bento, recebeu o troféu das mãos do Presidente Mário Soares.

    Foi a segunda vitória consecutiva e a quinta nos últimos sete anos do Benfica na competição.

    Na época que se segue, o FCP participa na Taça dos Campeões Europeus, o Benfica na Taça das Taças, e Sporting, Guimarães e Boavista na Taça da UEFA.

  • 27 Abr 1986

    Ronald Reagan adverte “ditadores e terroristas”

    Por Luís Andrade Sá

    O Presidente norte-americano Ronald Reagan ameaçou terroristas e ditadores de que sofrerão as consequências se atacarem “cobardemente cidadãos americanos”.

    Regan fez esta declaração no Havai, a caminho de Tóquio, onde vai participar na cimeira da APEC (Asia Pacific Economic Comunity).

    O Presidente Reagan pretende com estas declarações controlar um esperado aumento nas ações terroristas antiamericanas no mundo e tem particularmente em vista o regime líbio.

    Nos últimos dias aviões americanos bombardearam a capital líbia, Trípoli, em retaliação contra ataques que visaram interesses dos Estados Unidos.

    Observadores notaram que muitas tropas líbias abandonaram os seus postos na capital e os seus comandantes reagiram tardiamente aos bombardeamentos da Força Aérea dos Estados Unidos.

    Não foram registadas quaisquer baixas entre as forças americanas.

  • 26 Abr 1986

    Milhares de trabalhadores continuam obras de desmantelamento de Chernobyl

    Por Elsa Jacinto

    Milhares de trabalhadores continuam a entrar todos os dias na central de Chernobyl, na Ucrânia, 30 anos depois do pior acidente nuclear civil da história, para o desmantelamento do local e construção de um novo sarcófago.

    "Há 1.500 trabalhadores na central, para o processo de desmantelamento, e mil ou dois mil contratados pelo consórcio internacional que está a construir o novo sarcófago para o reactor quatro acidentado", de acordo com o departamento de cooperação internacional da central.

    A 26 de abril de 1986, o reator número quatro da central soviética de Chernobil explodiu durante um teste de segurança.

    O acidente, devido a um erro humano e a um defeito de conceção do reator soviético, modelo "RBMK", desencadeou a maior catástrofe nuclear civil. O balanço das vítimas continua a ser controverso, mas algumas estimativas indicam milhares de mortos, mas apenas 56 mortos como vítimas diretas da catastrófe.

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  • 26 Abr 1986

    Centenas em vigília por Otelo em Caxias

    Por Luís Andrade SáFoto António CotrimFoto António Cotrim

    Centenas de pessoas, mas “menos gente que no ano anterior”, participaram ontem, dia 25, numa vigília junto do forte de Caxias, onde se encontra preso Otelo Saraiva de Carvalho, noticiava a imprensa.

    Os manifestantes acenderam archotes no exterior do forte, tendo o estratega do 25 de Abril colocado uma vela acesa junto das grades da sua cela.

    Otelo está detido desde 19 de junho de 1984, acusado de presumível dirigente e fundador das FP 25.

    Condecorado em 1983 com a Ordem da Liberdade o antigo comandante do Copcon incorre numa pena de cadeia de até 60 anos.

    “Conseguida a libertação, o nosso povo vive de novo obrigado a um comportamento segundo a ordem estabelecida”, denunciou Otelo, numa mensagem que enviou.

  • 25 Abr 1986

    Autorizada primeira companhia de seguros privada

    Por Luís Andrade Sá

    O governo autorizou a primeira seguradora privada, a Lusitânia, cujo capital social contará com participação do Montepio Geral.

    Na respetiva portaria, o governo sublinha que a abertura dos seguros à iniciativa privada “depende da autorização caso a caso concedida” pelo executivo.

  • 25 Abr 1986

    Ameaça de corte de 10 mil postos de trabalho levou a greve de 38 dias nas oficinas da CP

    Por Jennifer Mota

    À ameaça de redução de 10.000 postos de trabalho na CP – Comboios de Portugal, os trabalhadores responderam com uma demonstração de força, que se prolongou por 38 dias e terminou na madrugada de 25 de Abril de 1986.

    A paralisação centrou-se nas áreas oficinais de reparação de material circulante, que só no Entroncamento empregava mais de 1.000 pessoas, com paragens nos picos de produção, para maximizar o impacto e minimizar os cortes nos salários dos trabalhadores, recorda à Lusa José Manuel Oliveira, que na altura tinha assumido há poucos meses a direção do Sindicato dos Ferroviários do Centro.

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  • 24 Abr 1986

    Cardeal estranha “demora” na privatização da televisão

    Por Luís Andrade SáFoto Luís VasconcelosFoto Luís Vasconcelos

    O cardeal patriarca de Lisboa, António Ribeiro, queixou-se ao primeiro-ministro Cavaco Silva do que considerou ser uma “demora” no processo de privatização da televisão em Portugal.

    Em particular, o líder católico referiu a sua “surpresa por não ter tido ainda seguimento na Assembleia da República” o projeto de lei sobre aquela matéria. Ribeiro reiterou o interesse da Igreja Católica num canal de televisão, em virtude, disse ao Diário de Notícias, de se tratar de um projeto regional no âmbito da sua diocese.

  • 23 Abr 1986

    Modernização da economia portuguesa paga pela CEE

    Por Luís Andrade Sá

    A Comunidade Económica Europeia (CEE) vai financiar com 148 milhões de contos (cerca de 740 milhões de euros) o programa de reestruturação da economia nacional, segundo o Diário de Notícias.

    Este valor corresponde e acerca de 70% do Programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa, a executar no período 1986-1992. O restante valor é suportado pelo Estado português.

    Publicado no mesmo dia, um relatório do Ministério da Indústria revela que mais de 90% dos trabalhadores de indústria em Portugal têm apenas a instrução primária como habilitações académicas.

    “A pouca formação de base e um treino rudimentar da mão de-obra industrial” são sublinhados no relatório oficial. O mesmo documento assinala a “formação geralmente pequena e pobre dos gestores”, sobretudo no setor têxtil.

  • 22 Abr 1986

    Gorbachev quer dissolução das alianças militares

    Por Luís Andrade SáFoto Sergey ChirikovFoto Sergey Chirikov

    O líder soviético prometeu em Berlim o seu apoio para uma dissolução em simultâneo dos pactos militares do Pacto de Varsóvia e Nato.

    Falando na dividida cidade alemã, Mikhail Gorbachev mostrou-se disponível para um encontro com o seu homólogo norte-americano, Ronald Reagan, logo que a atmosfera internacional apropriada se crie”.

    O líder soviético disse ter esperança que no encontro “sejam visíveis passos no sentido do desarmamento”.

  • 21 Abr 1986

    Porto confirma título de campeão nacional de futebol

    Por Luís Andrade SáFoto Guilherme VenâncioFoto Guilherme Venâncio

    A equipa treinada por Artur Jorge venceu o campeonato nacional de futebol, ao bater nas Antas o Sporting da Covilhã por 4-2.

    A decisão já estava praticamente tomada desde a jornada anterior. Em segundo lugar classificou-se o Benfica (com menos dois pontos) e em terceiro ficou o Sporting (a três pontos dos novos campeões).

    No último jogo a equipa azul e branca alinhou com Mlynarzyk, Celso, Lima Pereira, Eduardo Luís e Inácio (Frasco) Jaime Magalhães, Elói, André Futre, Madjer, Juary e Gomes.

  • 20 Abr 1986

    Presidente brasileiro defende comunidade lusófona

    Por LusaFoto Cristina FernandesFoto Cristina Fernandes

    O Presidente do Brasil, José Sarney, defendeu a existência de uma comunidade lusófona e prometeu “o melhor esforço para o projeto”.

    Entrevistado pela Antena Um, da RDP, Sarney recordou que o seu país criou uma comissão “para procurar a unificação ortográfica do idioma português”.

    A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) foi descrita por Sarney como uma oportunidade “para o Brasil poder colocar as suas potencialidades para ajudar Portugal, esperando que o Brasil também possa ser ajudado por Portugal”.

  • 19 Abr 1986

    Propaganda da Renamo e UNITA autorizada desde que feita por portugueses

    Por Luís Andrade Sá

    O governo português admitiu ações de propaganda em solo nacional a favor dos movimentos rebeldes Renamo, de Moçambique, e UNITA, de Angola, desde que feitas por cidadãos nacionais.

    Já quanto aos cidadãos estrangeiros, “é-lhes vedada qualquer atividade de cariz político, nomeadamente quando isso se possa traduzir por ameaças contra países com os quais Portugal tem relações diplomáticas”, segundo refere uma nota do Governo de Lisboa”.

  • 18 Abr 1986

    Portugueses levam com 80 impostos

    Por Luís Andrade SáFoto António CotrimFoto António Cotrim

    A carga fiscal sobre os portugueses ascende a 80 impostos, criticou o ex-ministro das Finanças Medina Carreira.

    Entre os principais vícios do sistema fiscal português, Medina Carreira destacou a sua “complexidade, uma estrutura de taxas completamente distorcida, a má distribuição da carga fiscal e o deficiente funcionamento da administração”.

    Medina Carreira mostrou-se cético quanto à aplicação do imposto único em 1987. “Deveria ser considerada a situação e grau de desenvolvimento da economia portuguesa e os critérios de justiça distributiva”, entre outros, disse.

  • 17 Abr 1986

    Adriano Moreira rejeita CDS centrista

    Por Luís Andrade SáFoto Manuel de MouraFoto Manuel de Moura

    O líder reeleito do CDS, Adriano Moreira, defendeu que o centrismo “teve importância mas não faz sentido” e que o seu partido “não deve ter complexos de esquerda”.

    Entrevistado na RTP Adriano Moreira referiu que é tudo uma “filosofia de cadeiras” onde se sentam os deputados. No Parlamento Europeu os deputados do CDS estão sentados no centro do hemiciclo, enquanto no parlamento português se situam à direita”, exemplificou.

    “O centrismo foi uma ideia de Adelino Amaro da Costa, que evitou que o país se radicalizasse num momento revolucionário”, disse Moreira, para quem é tempo do CDS deixar de ter complexos de esquerda.

  • 16 Abr 1986

    Mota Amaral quer trocar ministro da República por presidente açoriano

    Por Luís Andrade Sá