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“Selo” de Património Mundial transformou e colocou Évora no “mapa” turístico

A classificação do centro histórico de Évora como Património da Humanidade, pela UNESCO, transformou a cidade e colocou-a no “mapa” do turismo cultural, mas, 30 anos depois, o grande desafio passa pela revitalização desta zona intramuralhas.

“Há um antes e um depois da classificação. Évora deu um salto qualitativo, até para se interiorizar a valia da cidade, não apenas das suas pedras, mas também da cultura do seu povo”, realça à agência Lusa o presidente da câmara, Carlos Pinto de Sá.

O balanço destes 30 anos é, pois, “altamente positivo”, diz. Sem a classificação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a cidade “não teria a dinâmica económica que está a conseguir ter”.

“Évora mudou muito” e o “selo” da UNESCO “é um valor a mais que a cidade tem”, afirma também à Lusa João Brigola, professor do Departamento de História da Universidade de Évora e antigo diretor-geral do Instituto dos Museus e da Conservação.

Marcial Rodrigues, vice-presidente do Grupo Pro-Évora, o mais antigo grupo de defesa do património ativo em Portugal, destaca que a classificação “valoriza e reconhece o valor do património construído” e “permite à cidade ir ganhando consciência do seu valor”.

“Mas é também um desafio para as gerações atuais e vindouras, porque preservar e conseguir um determinado estatuto em termos patrimoniais leva muito tempo, mas é muito fácil de destruir”, alerta, defendendo aulas de educação patrimonial nas escolas locais para incutir estes valores aos alunos.

O inestimável valor patrimonial do centro histórico de Évora foi reconhecido a 25 de novembro de 1986, dia em que o Comité do Património Cultural de Paris anunciou a decisão da UNESCO.

A proposta de classificação havia sido apresentada pela autarquia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros cerca de um ano antes, depois de, em 1984, ter manifestado essa intenção junto da Comissão Nacional da UNESCO.

“Houve um conjunto de pessoas, liderado pelo então presidente da câmara Abílio Fernandes e que incluiu o Grupo Pro-Évora e [o historiador]Túlio Espanca, que percebeu as potencialidades patrimoniais da cidade e preparou uma candidatura arrojada e muito bem fundamentada”, elogia Carlos Pinto de Sá.

Considerada “o melhor exemplo de cidade da idade do ouro portuguesa”, após a destruição de Lisboa pelo terramoto de 1755, e da “influência exercida pela arquitetura portuguesa no Brasil”, Évora possui imóveis notáveis, como fontes e chafarizes, muralha, aqueduto, conventos, palácios, solares e igrejas, além do Templo Romano, o ex-líbris da cidade.

Com o “selo”, frisa o autarca, a cidade ganhou “uma visibilidade internacional muito maior”, porque, mesmo que “o seu património já fosse reconhecido como valiosíssimo”, passou a atrair visitantes de todo o mundo “interessados nas questões patrimoniais”.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), fornecidos à Lusa pelo município, indicam que a cidade tem tido, nos últimos anos, um peso médio de 23% das dormidas em todo o Alentejo e que esse valor sobe para os 70% quando analisado o Alentejo Central.

O afluxo de visitantes, segundo o Posto de Turismo Municipal, “subiu consideravelmente”. Dos 59.175 registados em 1985, passou-se para 182.093 em 2015. Os principais mercados emissores são Espanha, Portugal e França.

“Há também uma ligação fundamental entre património e cultura que resulta da classificação”, afiança Carlos Pinto de Sá, indicando que se passou “a dar mais importância aos produtos locais, ao que é de Évora”, e a ter “um outro olhar, mais atento, para outros patrimónios tradicionais”.

Mas nem tudo são “rosas” nesta evolução. A par do crescente afluxo de visitantes, com o correspondente incremento de unidades de alojamento turístico, o centro histórico assistiu a um êxodo de habitantes – a maioria da população “fugiu” para a periferia – e à degradação de imóveis, possuindo hoje inúmeras casas abandonadas, devolutas e a necessitarem de obras.

“O problema que temos no centro histórico não é exclusivo de Évora, é um problema dos centros históricos das cidades portuguesas”, diz o autarca, defendendo que o combate a este cenário requer um programa nacional de regeneração urbana, com Governo, autarquias, proprietários, empresas de construção e sistema financeiro.

A revitalização do centro histórico é mesmo uma das apostas do atual executivo municipal, que, este ano, viu aprovado, através do Portugal 2020, o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano de Évora, com quase 15 milhões de euros de investimento, com apoios comunitários.

A requalificação de edifícios públicos e privados e o apoio ao comércio e às atividades económicas do centro histórico, assim como aos proprietários para a recuperação de imóveis, são algumas das componentes do plano estratégico, que agora vai ser operacionalizado.

“O turismo é muito importante para Évora, mas não pode ser a única via de dinâmica do centro histórico. Temos de atrair novos moradores e atividades económicas e garantir a vivência das pessoas”, defende o autarca.

Apologista do aproveitamento do património para fins turísticos, Marcial Rodrigues ressalva, contudo, que deve ser acautelado que “este ‘negócio’ não tome conta do ‘pulsar’ da cidade” e defende que Évora tem de ter “como elemento fundamental a vivência da cidade pelos seus próprios habitantes”.

Idêntica preocupação é expressada por João Brigola, que defende um equilíbrio entre “a proliferação de hotéis e ‘hostels’” e “o espírito do lugar, que é assegurado pelas comunidades locais”, embora reconheça que, ao contrário do que acontece em Lisboa, “esta questão não se coloque ainda em Évora”.

“Os museus, a valorização do património, os grandes investimentos na cultura devem ter como preocupação os habitantes, em primeiro lugar. Se isso for feito, como julgo que está a ser acautelado em Évora, o turista vai ver e ficar agradado por essa autenticidade”, sublinha o investigador.

 

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