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Via rápida aproxima Nordeste do centro da ilha de São Miguel

A construção das Scut (autoestradas sem custos para os utilizadores) em São Miguel foi a maior obra pública realizada nos Açores, “aproximando” o Nordeste de Ponta Delgada, com a distância a passar a fazer-se em menos de uma hora.

Longe vão os tempos em que o Nordeste era considerado como a “décima ilha” do arquipélago dos Açores, devido à dificuldade de acesso ao concelho, feito através de uma estrada regional com curvas e contracurvas, que oferecia pouca segurança à circulação rodoviária, sobretudo no inverno, devido às frequentes intempéries.

O presidente da Câmara do Nordeste, Carlos Mendonça, de 41 anos, natural e residente no concelho, recorda o “tempo de estudante” quando levava cerca de três horas de viagem de autocarro para chegar a Ponta Delgada, destacando “a mais-valia” das Scut para a população.

“Hoje é possível fazer a deslocação para o grande centro urbano da ilha de São Miguel (Ponta Delgada) de uma forma mais rápida, mais segura, mais confortável, o que configura realmente uma ideia diferente do que é estarmos na ilha e fazermos parte da ilha de São Miguel”, afirma o autarca.

Para Carlos Mendonça, foi necessária “muita coragem política”, nomeadamente de Carlos César, então presidente do Governo Regional dos Açores, para se fazer este “investimento de grande dimensão”, tendo em conta que se trata de um concelho com apenas cerca de cinco mil habitantes, o menos populoso de São Miguel.

As repercussões económicas da obra, que custou 480 milhões de euros e ficou concluída em dezembro de 2011, já se sentem no concelho, segundo o autarca.

“Notamos que houve um aumento na procura do concelho do Nordeste. Temos também encontrado um aumento significativo naquilo que é a procura de alojamento local, restauração, e estamos também a encontrar um aumento de empresários que querem investir aqui”, afirma o presidente da autarquia do Nordeste.

O delegado de saúde do concelho e médico no centro de saúde local, Jorge Morgado, de 62 anos, assegura que nesta área a obra permitiu ganhos.

“A decisão de enviar uma mulher em trabalho de parto para Ponta Delgada era muito difícil, porque era cerca de uma hora e meia dentro de uma ambulância, num caminho muito sinuoso que fazia ainda mais desencadear as contrações. Às vezes havia partos pelo caminho na ambulância e, por vezes, em condições menos seguras. Optávamos por fazer partos aqui no centro de saúde”, refere o médico.

Por outro lado, há menos resistência por parte do pessoal médico para integrar os quadros do centro de saúde do concelho, que hoje funciona com três médicos e mais de uma dezena de enfermeiros.

“Nós abrimos concursos durante anos seguidos, muitos anos mesmo com concursos permanentemente desertos. O que pesava era o estar longe de Ponta Delgada. As comunicações telefónicas também eram mais difíceis, nem sequer havia televisão quando cá cheguei”, diz o médico.

José de Melo, de 62 anos, taxista, assume haver “menos clientes” com construção das Scut, mas, por outro lado, “é mais rápido” chegar a Ponta Delgada e “estraga-se menos o carro”.

“Tínhamos muitos dias em que nós não dávamos para as encomendas, com a agenda sempre cheia. Agora tenho dias aqui que não faço cinco euros, nem para o café dá”, desabafa.

No caso do professor António Rocha, de 42 anos, natural e residente no Nordeste, colocado oito anos numa escola do concelho de Ponta Delgada, a Scut diminuiu-lhe a despesa em combustível na ordem dos 50%, passando a gastar 30 euros de combustível por semana em vez dos cerca de 60 euros habituais.

“Quem não era do Nordeste, por vezes referia-se a esta obra como um disparate para satisfazer um concelho tão longínquo e com tão poucos habitantes, retirando meios do erário público, mas nós também estivemos a vida toda com os nossos impostos a contribuir para outras obras sem beneficiarmos delas”, sustenta o professor.

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